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Trânsito: por que os motoristas ainda não viram a eficiência dos semáforos inteligentes? Por Márcia Pontes

“Me explica: onde é que está essa inteligência toda desses semáforos que eu ainda não vi?”. Essa foi a pergunta que um motorista me fez enquanto estávamos parados em um semáforo, mas não deu tempo de responder. Então, lá vai a postagem! A propaganda sobre os semáforos inteligentes tem sido tanta que a expectativa das pessoas também subiu e passaram a ter pressa para ver os resultados na prática. Em vez da materialização das promessas de equilíbrio entre a mobilidade para os pedestres e a fluidez do tráfego para os motoristas, o que se viu foram filas intermináveis nos primeiros dias, motoristas irritados, trânsito empacado e muita indignação nas redes sociais.

Talvez, o que os motoristas ainda não tenham entendido e os entusiastas dos semáforos inteligentes ainda não tenham explicado é que eles só vão entregar o que prometem quando a Central de Controle de Operações (CCO) do Tráfego estiver pronta e começar a operar no 1º andar da Prefeitura de Blumenau. Por enquanto, a coisa anda meio futurista e até lá os semáforos inteligentes continuarão operando como os demais já instalados na cidade: ajustados os tempos, ciclos e intervalos manualmente.

Teve motorista que reclamou de filas ainda maiores onde antes já tinha; outros reclamaram que os semáforos ficam muito tempo fechados para os carros e tempo demais abertos para os pedestres. Um deles disse, irritado, que o semáforo fica mais de 10 segundos fechado para os carros, sem nenhum pedestre para atravessar, e a fila de carros vai se formando. Na Rua General Osório, a reclamação é de que o trânsito travou de vez com o semáforo em frente à EEB Hercílio Deeke, na Rua José Reuter. Teve gente que questionou: se instalaram esses semáforos para dispensar os agentes de trânsito, então piorou porque os guardas continuam lá e os semáforos não funcionam. Há quem não simpatize muito com os agentes de trânsito, mas entenda que eles deveriam substituir todos os semáforos da cidade.

Mas o problema parece estar associado mais à colocação de um semáforo onde antes não tinha do que à inteligência dos equipamentos. Antes, os motoristas seguiam direto, sem qualquer obstáculo luminoso e temporizador. Os pedestres dependiam de alguma alma bondosa que lhes desse a vez em meio ao fluxo enorme de veículos na hora de pico. Com o semáforo já sabem que, pelo menos, por 30 segundos, várias vezes ao dia, o modo de deslocamento e a rotina de dirigir por esses lugares mudou.

O berreiro foi grande nos primeiros dias, motoristas insatisfeitos e veio a decisão de subestimar a tão aclamada inteligência dos semáforos deixando-os intermitentes, como no caso da EEB Hercílio Deeke (Velha Central), EBM Oscar Unbehaun (Água Verde) e EEB Izolete Muller (Valparaíso). Tá certo: antes não tinha nada ali e, desde que os semáforos começaram a funcionar, isso modificou a rotina dos motoristas. É preciso rever, testar, ajustar manualmente os temporizadores e sincronizar, de acordo com a demanda do trânsito, em outras 24 escolas, enquanto a tecnologia da central de operações não estiver ativa. Efetivamente, não é de primeira que se acerta. Mas, eles prometem que quando a Central de Controle de Operações estiver pronta, tudo vai ser diferente! Enquanto isso, o prazo de 30 dias para ajustes está vencendo e a expectativa agora é de como vai ficar: se as filas vão acabar, continuar e se os semáforos inteligentes e os seus entusiastas continuarão apanhando mais que bumbo em dia de festa.

Foto: Marcelo Martins / Prefeitura de Blumenau

Inteligência dos semáforos depende da CCO

O pacote de melhorias anunciado pela Prefeitura para tornar Blumenau uma cidade inteligente para o trânsito passa de R$ 15 milhões e inclui a implantação de 150 faixas elevadas com a pretensão de instalar 10 delas por mês, 104 semáforos inteligentes, 90 câmeras de videomonitoramento e inauguração da Central de Controle de Operações (CCO) no 1º andar da Prefeitura. Além dos 27 semáforos já instalados nas proximidades das escolas, terá mais 45 no Centro e outros 32 nos bairros. Foi anunciada a instalação de 305 botoeiras sonoras para dar mais segurança às pessoas com deficiência visual na travessia das faixas de pedestres.

Algumas das câmeras de videomonitoramento que já começaram a ser instaladas e que muita gente pensou que eram radares para autuar infrações de velocidade são, na verdade, para a transmissão de imagens, contagem e classificação dos veículos, além de gerar dados estatísticos sobre o trânsito. Essas câmeras farão parte do cinturão de monitoramento integradas aos demais sistemas com a tecnologia OCR (Optical Character Recognition) para a leitura automática das placas dos veículos. Assim, pode-se também fiscalizar outros tipos de infrações, como aquelas relacionadas a licenciamento atrasado, veículos com registro de furto e roubo, restrição de circulação, dentre outras. Os dados podem ser enviados online ao Centro de Operação e Controle para processamento e fiscalização. Mas, isso ainda vai levar algum tempo e periga ser inaugurado depois das próximas eleições.

Sem data prevista

Futuramente – e ainda não se tem uma data certa para que a Central de Controle de Operações de Tráfego esteja instalada e comece a operar – tudo promete ser diferente com o controle de tráfego interligado por software. Os semáforos inteligentes serão monitorados por imagens de câmeras 24 horas, sensores que funcionarão por meio de laços indutivos enterrados no asfalto vão detectar a presença dos veículos e de acordo com a composição do tráfego serão os próprios equipamentos que irão decidir quando o sinal abre e quando ela fecha. Em outros pontos da cidade, o próprio operador das câmeras e dos demais equipamentos poderá alterar de forma remota o momento de troca das cores dos sinais luminosos de acordo com a necessidade para dar mais fluidez ao tráfego. Quando a Central de Controle de Operações começar a funcionar de verdade, aí sim, todos começarão a ver e a desfrutar da inteligência dos semáforos.

Futuramente, os equipamentos eletrônicos trabalharão sincronizados, softwares mapearão os pontos críticos do trânsito. As luzes dos semáforos inteligentes acenderão e apagarão conforme o fluxo de veículos com capacidade de leitura de até 200 metros de onde está o semáforo diminuindo o congestionamento.

Vamos e convenhamos: um pacote arrojado de melhorias como o que foi anunciado pela Prefeitura para tornar Blumenau uma referência em cidade inteligente para o trânsito não se instala assim de uma hora para outra. São equipamentos caros, sensíveis, de alta tecnologia e que precisam estar calibrados, sincronizados entre si e com outros componentes que nem começaram a ser instalados como a central de operações. Como diria Jack, o estripador: “vamos por partes”! É por isso que ninguém viu ainda essa inteligência toda dos semáforos de que tanto se fala: porque o segredo por trás desse sistema está numa série de câmeras com inteligência artificial integradas a uma plataforma digital de uma central de controle, que ainda não existe.

Realmente, será uma evolução e tanto desde a criação do primeiro semáforo em 1868 na Inglaterra, que funcionava acionado por um agente de trânsito que ficava no alto de uma torre e ia liberando o tráfego de acordo com a demanda. As luzes do semáforo funcionavam a gás, um dia explodiu e matou o agente que as controlava manualmente. Em 1914 um semáforo com luzes elétricas foi instalado nos Estados Unidos e agentes de trânsito se revezavam no local para controlar a mudança de luzes.

Que Blumenau será um dia uma das cidades mais avançadas em tecnologia para a mobilidade urbana disso eu não tenho dúvidas. Mas, ainda não é, e apesar da propaganda, ainda não saiu do papel. Demora, precisa de ajustes e é aos poucos que se está trilhando o caminho. Atribuir uma inteligência artificial que ainda não existe aos semáforos que ainda são programados manualmente como os demais é gerar na população uma expectativa alta demais que pode ter mais ônus do que bônus. O que as pessoas precisam saber é que essa inteligência toda que elas esperam ver da próxima vez que passarem pelo semáforo só será vista e sentida mais tarde, quando todo o sistema estiver implantado e conectado entre si por meio de softwares específicos. Caso contrário, continuarão questionando a inteligência. Não só dos semáforos.

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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