InícioHistóriaHistória: 1986 e um vice esquecido do BEC, por André Bonomini

História: 1986 e um vice esquecido do BEC, por André Bonomini

Por que não relembrar a derrota? Seria um item dispensável do resgate histórico, sobretudo no campo esportivo? Talvez fazer parte de um momento, mesmo saindo de campo derrotado, não seja a melhor coisa que a memória de um atleta ou de uma instituição esportiva gostaria de guardar. algo que até entendo perfeitamente, afinal: quem gosta de lembrar de um jogo perdido, ainda mais no futebol?

Alguma situações me levaram a recordação desta semana, duas em especial: a primeira foi o resgate feito pelo irmão de portal e um dos “gurus” do esporte para este jornalista, Emerson Luís, sobre os 35 anos da conquista da segunda divisão do Campeonato Catarinense pelo Blumenau. Um embate difícil, encarar o Figueirense dentro do Orlando Scarpelli nunca é fácil, ainda mais quando o alvinegro do Estreito vem mordido por um descenso inesperado em 1986. Lá estava presente o pé de Francisco Castão, o Chicão, ou o apoteótico “artilheiro de Deus”, um dos grandes ídolos do “mais querido”.

Pois Chicão, e grande parte do elenco de 1987, também estiveram em outro alçapão em um momento decisivo do clube no certame estadual de segundo nível. Um ano antes, quem digeria o descenso era o próprio Blumenau. Caindo na regra já preparada para um rebaixamento triplo em 1985, o tricolor não teve um ano feliz. De mãos dadas com o antigo Juventus de Rio do Sul e o Paysandu de Brusque, o BEC caiu de divisão e, em 1986, seria um dos 11 estreantes da inédita segunda divisão catarinense, onde ninguém quer estar mas que precisa de alguém para começar.

As origens da segundona e o “velho” Paysandu

Vale lembrar: até 1985, o Campeonato Catarinense era quase um “supercampeonato”, isto se formos analisar a lista de participantes, sobretudo a partir da década de 1960. Só pra você ter uma ideia sutil do que digo, basta dizer que, no ano que o Olímpico arrematou o último título estadual de um time blumenauense, em 1964, o campeonato contava com o astronômico número de 42 times, divididos em quatro zonas. Em 1965, o certame chegou a 48 e, depois, oscilou entre 15 e 20 participantes até chegar nas vésperas da segunda divisão com 13 clubes inscritos.

Isto deve-se ao fato de que, numa estrutura um tanto amadora, o campeonato abrigava, além de times profissionais, agremiações que montavam elencos com uma regularidade não muito boa. As vezes, participavam de uma sequencia de campeonatos e, de repente, se licenciavam, mudavam de nome ou encerravam seus departamentos de futebol. O mesmo Olímpico é um exemplo, já que em 1970 disputou seu último campeonato e, assim, fechou o departamento de futebol, seguindo vivo como um clube social.

Roberto e Orlando, campeões do estadual catarinense de 1964 pelo Grêmio Esportivo Olímpico. Aquele campeonato, por vezes, é citado como uma “maratona”, e não é pra menos: foram 42 times envolvidos | Foto: Adalberto Day

Eu sei, é uma história longa, mas só assim pra você entender por que, na cabeça da Federação, nasceria uma segunda divisão em 1986, onde o Blumenau cairia e de mãos dadas com a outra personagem desta crônica: fundado em 1918, um ano antes do BEC (que ainda era Brasil), o Clube Esportivo Paysandu é um verdadeiro patrimônio do esporte de Brusque. Está licenciado do futebol profissional desde 1987, quando foi um dos artífices, junto do rival Carlos Renaux, da fundação do atual Brusque, o quadricolor destes tempos.

Entre seus troféus está o Catarinense da primeira divisão de 1956, quando derrotou o forte América de Joinville, um dos fundadores do atual JEC junto do rival citadino Caxias. O futebol do time alviverde produziu, entre outros nomes marcantes, o goleiro Valdir Appel, com passagem destacada pelo Vasco quando foi reserva do argentino Andrada, sobretudo estando no banco no dia do milésimo gol de Pelé tomado pelo hermano.

Hoje, o alviverde concentra as forças no esporte amador, sobretudo no mesmo futebol, buscando revelar talentos nas categorias de base, além de manter uma belíssima sede social que aglutina, consigo, o histórico Estádio Cônsul Carlos Renaux. Mas ainda, na mesma galeria de troféus, está guardada uma conquista que, se não inspira tanta história por ser de “segundona”, tem seu crédito por ser da “primeira segundona”: justamente o título de 1986, quando encarou de frente o ainda novato Blumenau (consta-se: o clube só tinha seis anos de fundação).

A sede social do Paysandu em Brusque: time um ano mais velho que o BEC, tradicional nos gramados e campeão catarinense da divisão principal de 1956. Toda esta tradição estava indo para a segundona de 1986 | Foto: Reprodução

1985: a queda

Pois bem, o Catarinense de 1985 foi um daqueles campeonatos de regulamentos tão curiosos que explica-los a miúde renderia outra crônica. Mas aqui vale dizer que a temporada do Blumenau até começou bem, decidindo a primeira fase (Taça Governador do Estado) com o Avaí e perdendo-a no jogo final, em Florianópolis, por 1 a 0. Mas o resto de campeonato foi trágico para o “mais querido”, alternado poucos momentos felizes e muita irregularidade, o tricolor chegou a classificação geral preso a um hexagonal de descenso contra o Juventus de Rio do Sul, Chapecoense, Criciúma, Marcílio Dias e Ferroviário de Tubarão.

E ali, a tragédia foi muito maior. De mãos dadas com o Juventus do Alto Vale, o BEC terminava o hexagonal derradeiro em penúltimo, sem vitórias, com cinco empates e cinco derrotas. Alias, o último jogo do time naquele campeonato foi contra o time rio-sulense, o lanterna do certame. Diante de um cenário desse, não tinha choro: o Blumenau teria de disputar a segunda divisão mesmo com tampouco tempo de vida e carregando todas as incertezas de uma competição praticamente “nova”.

O time do BEC na decisão da Taça Governador do Estado, em 1985. Decisão foi no Monumental do Sesi e, mesmo decidindo em casa, equipe não conseguiu superar o Avaí | Foto: Memorial do BEC

Pra não dizer que tudo foi só tragédia, o caminho do Paysandu foi mais doído, pois a campanha do time em 1985 nem lhe deu o luxo de participar do hexagonal de descenso. Bastou um pontinho para entrar no grupo no lugar do Juventus, mas não foi o suficiente. No ano seguinte, lá estavam as duas agremiações cercadas, além da equipe de Rio do Sul, por Araranguá, Caçadorense, Flamengo de Florianópolis, Guaycurus (Concórdia), Ipiranga (Tangará), Laguna, São Bernardo (Canoínhas) e Tiradentes (Tijucas).

A peleia ia começar e ai os detalhes se perdem um pouco na névoa da falta de dados acessíveis nas esquinas da internet. O que se sabe é que Blumenau e Paysandu, o “novato” e o tradicional encontravam-se na disputa decisiva pela primeira divisão de 1987. Naquela ocasião apenas o campeão subia, e para o BEC, precisando mostrar força, era uma decisão importante, seria o primeiro título profissional da equipe principal e o segundo do clube recém-formado em 1980 desde o estadual de juniores quatro anos antes.

A decisão: tricolor X alviverde

No primeiro jogo, um embate truncado e um futebol, digamos, inexistente no Estádio do Sesi. Apitado pelo enérgico Dalmo Bozzano em um dia sem sol, ninguém tirou o zero do placar e o Paysandu carregou consigo para Brusque uma vantagem importante: decidir a vaga para voltar a elite em casa, e nos seus domínios o papo prometia ser outro, afinal quem ganhasse levava a taça e o acesso e um empate no tempo normal e na prorrogação eram o necessário para o alviverde brusquense. Ao BEC, não restava nada além da vitória.

E assim o foi: 14 de dezembro de 1986, com o mesmo Dalmo Bozzano no apito e uma torcida verde maluca ocupando as arquibancadas do pequenino Consul Carlos Renaux. Mas o BEC começou pra frente, e assim como seria em 1987, Chicão anotou o seu num cruzamento, onde o artilheiro aproveitou um rebote do goleiro Binho e abriu o placar logo no começo da partida. No entanto, empurrada pelo grito e pelo pó-de-arroz da torcida, o Paysandu teve um pênalti a seu favor no fim da primeira etapa e Mafezzoli não perdoou, mesmo tendo que cobrar duas vezes.

Uma formação do BEC durante a segunda divisão de 1986. Em pé: Nelsinho (preparador físico), Sony, Carlos Alberto, Antônio Augusto, Dema, Alaor, Márcio e repórter Mirandinha. Agachados: Gumz, Roberto Lopes, Chicão, Zé Sérgio e Lima | Foto: Memorial do BEC
O time do Paysandu de Brusque em 1986. Em pé: Bin, Binho, Aloisio, Dodô, Moura, Gilberto, Iran Bitencourt, Álvaro Bozzano, Vladimir Appel e Beto Staack. Agachados: Mário Vinotti, Cezinha, Keka, Niltinho, Jorge Santos e Sid | Foto: Memória Brusque

Com essa igualdade insistente, o BEC voltou pro segundo tempo pressionado, naquela velha jogada de nervos de qualquer decisão. E, novamente, no começo de tudo, Luizinho aproveitou um cruzamento para arrematar mais um no filó de Binho e recolocar o tricolor na primeira divisão. Só que nada estava decidido, e praticamente fechado na zaga, o tricolor viu a teimosia do velho Paysandu aumentar insuportavelmente até uma falha defensiva colocar Sid de frente para o goleiro Carlos Alberto e tornar a empatar a partida: o alviverde estava, de novo, indo para o acesso dependendo de uma prorrogação em empate.

E assim o foi: tudo que acaba igual numa decisão, vai à prorrogação. As duas equipes espremiam o que podiam de força para tentar tirar a igualdade do placar, sobretudo o BEC, que carecia da vitória que teimava a não vir. Infelizmente, para a lamentação da torcida tricolor, o Paysandu jogou muito mesmo não tendo mais pernas pra correr ou pensar em algo. Com a prorrogação em zero, o alviverde de Brusque faturou a taça e o acesso, deixando o “mais querido” um ano mais esperando para voltar.

E se você ficou curioso pra ver como foram estas duas partidas, acredite: no canal do YouTube de Adalberto Kohler está um documento precioso para os aficionados pela bola no estado: as duas partidas quase na íntegra, mesmo com algumas falha pequenas (o segundo gol do Paysandu não aparece, por exemplo) mas ainda assim imagens únicas de um embate esquecido nas esquinas da internet. Fico devendo o nome do narrador nas duas partidas, quem puder ajudar deixe nos comentários!

Vídeo: Adalberto Kohler

De resto? A história seguiu seu curso como bem conhecemos: o Paysandu chegou a disputar o Catarinense de 1987, mas como já recordado por aqui, licenciou-se para juntar forças no futebol com o rival Carlos Renaux e fundar o Brusque FC que conhecemos hoje, e mesmo com a volta do “vovô” no berço da fiação, o quadricolor segue sendo um dos principais cartazes do futebol catarinense da atualidade, fruto de organização e bom trabalho nos bastidores: faturou o catarinense de 1992, teve altos e baixos e, hoje, goza de uma posição de destaque na Série B nacional.

Já o BEC faturaria seu acesso naquele mesmo 1987, apesar de não ter sido uma exclusividade do campeão como no ano anterior, mas vencer o Figueirense como foi valeu de muito para a história do clube, que viveu o apogeu com o vice-campeonato estadual em 1988, a Copa do Brasil em 1989 e participações nos nacionais das séries B e C no início da década de 1990. No entanto, para bom entendedor do futebol na cidade, nem é preciso dizer como esta história acabou, voltou, acabou de novo, voltou de novo e continua esbarrando na falta de firmeza de ações sobre o nobre esporte bretão na cidade.

Mas, longe de qualquer mágoa que fique, recordar uma passagem mesmo que permeada por uma derrota é o elo de outras tantas histórias que se seguiram nestas curvas do esporte, fascinante pelo que registra em momentos e pessoas. Se o BEC será feliz na Série B este ano, na quinta passagem pelo certame, não sabemos, mas talvez será mais um dentre tantos contos registrados nos chutes e gols das memórias das quatro linhas.

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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