InícioMárcia PontesTrânsito: sobre adolescentes, motos e mortes, por Márcia Pontes

Trânsito: sobre adolescentes, motos e mortes, por Márcia Pontes

Dois adolescentes mortos e um ferido com gravidade em acidentes de trânsito no mesmo dia envolvendo motos disparam o sinal de alerta aos pais e à sociedade. Um deles tinha 14 anos e perdeu a vida quando colidiu a moto de trilha que conduzia contra uma caminhonete que fazia a manutenção da rede de energia em Vitor Meireles.

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No mesmo dia, em Indaial, dois adolescentes de 16 anos também se envolveram em colisão, desta vez com um carro de passeio. Um deles faleceu no local. Se antes da idade de conduzir uma moto e até de se habilitar eles estão se arriscando, se ferindo e até morrendo, como orientar a juventude diante do interesse precoce nos motorizados?

Vinicios, de 14 anos, pegou a moto de trilha no sábado de manhã e saiu para nunca mais voltar para casa, em Vitor Meireles. À tarde, pouco depois das 13h, outros dois adolescentes de 16 anos se envolveram numa colisão com um HB20 na Estrada das Areias, em Indaial. Um deles faleceu e outro foi hospitalizado após a colisão.

Um leitor conhecido da vítima de Indaial comentou na notícia inicialmente postada pelo Portal Alexandre José no Instagram: “Vocês não sabem o que é ver a mãe lá chorando o corpo do filho! O que faleceu agonizou até a sua mãe chegar. Faleceu olhando pra ela, pensa nisso!”

Dor que não passa

Confesso que ao ler o comentário do leitor, por empatia, me coloquei no lugar dessa mãe e foi como se um espinho me atravessasse a garganta e fosse me deixando sem ar. A dor de perder um filho tão jovem por um desastre que poderia ter sido evitado é algo que não se consegue medir.

Quando um filho é tirado da gente nessas condições morre um pedaço. Muitos pais seguem tristes pela vida, se agarram às fotos e parecem adoecer a cada aniversário. Não importa se a vida foi tirada pela imprudência e irresponsabilidade de terceiros ou pela própria traquinagem do filho adolescente seduzido pelo objeto de desejo: a moto.

Motos de trilha

Ao ler a história do Vinicius lembrei de um pedreiro que foi fazer um serviço lá em casa e pediu adiantamento porque era aniversário do filho e ele queria dar uma moto de trilha de presente “para andar só na rua de casa”. Mesmo sabendo que é proibido.

Esses veículos de 2 rodas podem até parecer inofensivos para alguns, tratados como brinquedos, mas não são apropriados se não forem usados com conhecimento, com cautela, dentro da legalidade e em lugares próprios para competições de trilha.

Da bike para a moto

Não são poucos os trabalhos de pesquisa na área da Psicologia que demonstram o interesse precoce de adolescentes do sexo masculino por motos. Muitos começam empinando a bicicleta sonhando com o dia em que possam empinar motos.

Há quem cometa a ilegalidade de adaptar motores de roçadeira de grama nas bikes e coloquem até capacete para ter a sensação de que estão conduzindo uma moto de verdade.

E os pais?

Os pais de adolescentes em geral costumam reclamar que nesses tempos está cada vez mais difícil construir limites com os filhos. A garotada sai, vai encontrar os amigos e dentre eles sempre tem um que tem moto. Nessa idade da adolescência os ganhos sociais giram em torno da aceitação pelo grupo, demonstrar habilidades, desafiar e testar as figuras de autoridade. A moto faz parte.

É um período da vida em que não são nem crianças e nem adultos, não estão amadurecidos psicologicamente e por isso fazem tanta besteira mesmo conscientes e sabendo que estão fazendo errado. Por exemplo, experimentar bebidas alcoólicas, drogas e dirigir veículos de quatro ou de duas rodas.

Infelizmente, nem todo pai, mãe ou responsável por esses adolescentes sabem o que eles andam fazendo, com quem andam fazendo e os resultados disso. Há quem saiba com quem eles andam e o que andam fazendo, mas queixam-se de não dar conta. Alguns adolescentes são teimosos, ficam desafiadores demais e esgotam as forças de pais ou avós que os criam.

Muitos se queixam de não saber o que fazer: se bater é pior porque ficam mais agressivos e até revidam a agressão física, conversar não tem adiantado, reclamam que nem o Conselho Tutelar dá jeito, e há ainda aqueles que trabalham fora o dia todo e não conseguem acompanhar os filhos.  

Mesmo um adolescente de temperamento calmo e obediente aos pais pode em algum momento fazer algo escondido, como experimentar a condução ou a garupa de uma moto em companhia de outros da mesma idade. O que vai contar nesse momento é a qualidade dos limites que se constrói com eles.

Independente do perfil do adolescente diante de mortes como essas são os pais que vão sofrer. Alguns vão se culpar, adoecer por entender que o filho morreu porque eles não conseguiram fazer nada. Eis mais um problema para se lidar diante dessa inversão de papéis, pois não é natural que os filhos partam antes dos pais.

Complexo

Tudo parece guardar uma complexidade maior do que o imediatismo de questionar onde estavam esses pais que não viram o que os filhos estavam fazendo.

É fato que a escola deve complementar a educação que crianças e adolescentes recebem em casa, mas quando as coisas já estão difíceis em casa, como a sociedade pode intervir para evitar mortes entre menores de 18 anos que pensam que sabem dirigir e vão para a via pública?

Um bom começo seria trabalhar as questões de trânsito com os adolescentes no Ensino Médio, porque dentre eles muitos já vêm experimentando bebidas alcoólicas, drogas ilícitas e até a experiência de “dirigir” uma moto ou um carro.

Programas e políticas públicas com foco no adolescente e no relacionamento com os pais e adultos que os criam poderiam ajudar.

O que não dá é para ficar como está. Se muitos adultos habilitados para conduzir motos se envolvem em acidentes e erguem aos poucos a sociedade dos inválidos, o que dizer dos adolescentes diante do interesse precoce em pilotar motos?

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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