InícioMárcia PontesTrânsito: o 'déjà vu' diário dos motoristas alcoolizados, por Márcia Pontes

Trânsito: o ‘déjà vu’ diário dos motoristas alcoolizados, por Márcia Pontes

Não tem um dia em que os motoristas alcoolizados não sejam notícia em Blumenau e cidades vizinhas. Tem o que bebe, dirige e bate contra algum tipo de objeto fixo, seja muro, cerca, casa, arvore, container de entulho ou algo parecido. Tem o que colide com outro veículo parado ou em movimento.

• Clique aqui e faça parte do nosso grupo de notícias no WhatsApp

Mas também tem aquele que se precipita em algum barranco ou ribeirão para levar os cavalos do carro para beber água, literalmente, em pleno inverno. Tem o corajoso, o valentão e o covardão que faz a lambança e foge manquitolando. Pela recorrência e pela demora de Justiça em julgar os casos, tudo isso é déjà vu.

Déjà vu é uma expressão francesa que significa “já visto” e também é utilizada para se referir àquela sensação de que reconhece ou de que já esteve em determinado lugar ou situação.

A notícia de que um motociclista a caminho do trabalho foi morto após a colisão com um motorista que estaria bêbado me causou essa mesma sensação de “já vi isso antes.” Lembrei do amigo Fernando, que perdeu a vida em condições parecidas em 2013. A esposa e o filho passam por tratamento psicológico até hoje e quem praticou o homicídio embriagado na direção do veículo segue a vida em liberdade.

Na colisão entre moto e carro registrada na madrugada deste domingo (26), Maicon estava indo para o trabalho e nunca mais vai voltar para a esposa e o filho ainda bebê.

O pior solvente que existe

O álcool é o pior solvente que existe. Dissolve casamento, emprego, futuro e está associado geralmente a todo o tipo de violência e agressões. Estatísticas internacionais demonstram que até 66% dos homicídios e agressões sérias têm a presença do álcool.

No Brasil, dados do CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) apontam que 52% dos casos de violência doméstica estão associados ao consumo de álcool, que também está presente em até 50% dos casos de estupro e atentado violento ao pudor.

No trânsito, a visibilidade costuma ser maior porque os danos causados por quem bebe e dirige também são mais expostos.

Muitas vezes um motorista que bebe, dirige e causa colisões, feridos ou mortes reincide porque é viciado, doente, dependente do álcool, o que não exime a responsabilidade sobre as consequências dos atos praticados ao volante.

Aliás, as defesas desses motoristas gostam muito de usar o argumento de que o cliente tem problemas com álcool quando a tese de que estava sob efeito de remédios controlados não cola. Tanto faz, porque tanto o álcool quanto os remédios controlados que interferem na capacidade de conduzir impedem o motorista de dirigir. Nem deveria estar atrás do volante para começar!

Problema de saúde pública

A aceitação do álcool como droga socialmente aceita e estimulada no consumo pode até fazer cortina de fumaça, mas não tira a gravidade do problema que não é só de quem bebe e dirige, mas de toda a sociedade.

A decisão de beber e dirigir pode ser exclusivamente do motorista, mas quando ele provoca a colisão que vai tirar a vida de um inocente, mobiliza-se todo um aparato do Estado que vai desde as viaturas de trânsito, polícia, IML, socorristas, enfermeiros, médicos, equipe de socorro aéreo, ambulâncias, equipes médicas no caso de politraumatizados, dentre outros.

Some-se a isso a ocupação de leitos hospitalares e de UTI que tomam o lugar de quem adoece e precisa de cuidados por causas naturais.

Mas isso é chover no molhado ou pregar para convertidos, apesar de todo esse custo ir parar na pasta da Saúde dos Municípios que já andam de pires na mão para dar conta.

Necessidade de suporte

A sociedade precisa de suporte para lidar com o déjà vu provocado por bebuns ao volante. Não vai adiantar só autuar, aplicar multa gravíssima multiplicada por 10 e abrir processo administrativo para suspensão da carteira de habilitação.

Muitos fazem transação penal, uma espécie de acordo com a Justiça em que juram se submeter a certas cláusulas: não beber, não ir a festas, não sair entre 18h e 6h do dia seguinte nem aos finais de semana e, principalmente, não dirigir. Se cumprem não se fica sabendo.

Outros prestam serviços comunitários, assistem palestras preventivas sobre álcool e direção, mas quando ferrados na dependência do álcool acabam reincidindo. Mais danos para a sociedade.

Esse suporte de que a sociedade necessita para lidar com o problema de quem bebe e dirige poderia vir de programas sociais e políticas públicas que encaminhem esses condutores e suas famílias para centros de tratamento.

Acreditar que o problema seja só de quem bebe e dirige e de suas famílias é colocar um alvo no peito de inocentes que vão pagar com a própria vida assim que esses motoristas voltarem a dirigir.

Se colocarem na ponta do lápis quanto custa cada vez que um motorista embriagado provoca colisões, fere pessoas e mata, já dá para ter ideia do rombo que isso causa para todos os envolvidos e para a pasta da Saúde.

Bebida e direção é uma conta altíssima que todo mundo paga. Disso já sabemos, mas não se pode naturalizar as consequências. Chamem de tudo, menos de fatalidade, de acaso, de azar.

Porque enquanto você lê esse artigo, três pessoas morreram pela violência no trânsito no intervalo de 60 segundos no Brasil. E muitos terão a vida ceifada por um motorista que bebeu antes de dirigir. Inclusive eu, você ou alguém que você ama poderá ser a próxima vítima.

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

Notícias relacionadas

Deixe uma resposta

Últimas notícias

error: Toda e qualquer cópia do Portal Alexandre José precisa ser creditada ao ser reproduzida. Entre em contato com a nossa equipe para mais informações pelo e-mail jornalismo@alexandrejose.com