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Trânsito: que aviso a Morte dá para quem atravessa na faixa? Por Márcia Pontes

Desde o início do ano a Secretaria de Trânsito e Transportes (Seterb) já registrou 27 atropelamentos em Blumenau. O que mais chama à atenção É QUE a cada três pessoas atropeladas na cidade, duas foram vitimadas na faixa. Justamente no local que deveria ser um refúgio para as pessoas atravessarem de uma calçada para a outra em segurança.

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Destes 27 atropelamentos, dois resultaram em mortes e pelo menos uma resultou em lesões tão graves ao ponto de a vítima mudar de cidade para iniciar um tratamento de recuperação dos movimentos. Se a morte vai às ruas e diz aos pedestres que atravessem fora da faixa que ela os está esperando, o que ela dirá para quem atravessa na faixa e também tem a vida ceifada?

Esta é a grande preocupação do momento em Blumenau (ou deveria ser) e vem seguida de um questionamento: como o pedestre interpreta o fato de que a cada três atropelamentos, dois são sobre a faixa de travessia, local onde se pede o tempo todo que eles atravessem justamente para não serem mortos? Quem atravessa fora da faixa ainda pensa que está mais seguro do que quem atravessa nela?

Poderia ser a sua mãe

É impactante a mensagem dos outdoors em pontos estratégicos da cidade mostrando momentos congelados que antecederam a colisão entre os corpos e os veículos. Forte! O restante da cena é intuitivamente compreendido pelo receptor da mensagem, que é mais direcionada aos motoristas do que aos caminhantes.

Traduzindo: com a sua distração, imperícia, imprudência ou negligência você corre o risco de ferir gravemente e até matar alguém da mesma forma que um estranho que fizesse o mesmo com a sua mãe, o seu pai, o seu filho, a sua avó. Impacta porque mexe com a possibilidade de que pessoas próximas e amadas possam ser mortas enquanto atravessam a faixa.

Leva a interpretação também de que você possa levar essa dor e sofrimento a outras pessoas que você sequer conhece, mas com as quais interage todos os dias sendo o trânsito a rede social mais antiga do mundo.

Mesmo que essa vida que atravessa e tenta se proteger na faixa de pedestres não tenha laços com você, é sua obrigação protegê-la como se protegesse quem ama. Essa também é a mensagem.

Viés

Enquanto a morte segue empunhando cartazes em via pública para chamar a atenção, em um deles se lê a advertência ao pedestre que atravessa fora da faixa de que a morte o espera.

Mas a morte anda traíra demais e espera pessoas que fazem a coisa certa e atravessam na faixa com todo cuidado – como foi o caso de dona Rotraud e o marido, que também foi atropelado e sobreviveu.

Como será que os pedestres recebem e interpretam o fato de que a cada três atropelamentos dois são na faixa? Será que começam a questionar se continua sendo seguro atravessar na faixa (como realmente é)? Ou haverá quem opte por tentar algo diferente ainda que com o aviso da morte?

Que aviso a morte dá para as pessoas que estão atravessando na faixa de pedestres e a encontram antes de chegar ao outro lado da calçada já que ela não está levando só quem atravessa fora da faixa?

Reforço positivo

Todo apelo que se faz aos usuários do trânsito vem carregado de reforço positivo, fortalecendo sempre o comportamento que se espera que eles tenham.

No caso dos pedestres, o momento é de incluir nas estratégias e ações escolhidas para reforçar a mensagem de que continuar atravessando na faixa de pedestres ainda continua sendo mais seguro do que atravessar fora dela. Mesmo com a morte rondando.

Momento de orientar a descer da bicicleta e atravessar na faixa empurrando a bike olhando para todos os lados, pois não são só os motorizados que podem ferir as pessoas.

Momento de fortalecer e reforçar ao pedestre a mensagem de que se deve confiar na faixa de pedestres, buscar o olhar do motorista enquanto aguarda para atravessar e sempre conferir se todos os veículos realmente vão parar para que ele conclua a travessia.

Não atravessar na frente dos veículos e quando na faixa não interromper a travessia para juntar objetos que caiam enquanto estão atravessando. Aguardem, deixem os veículos passarem depois recolham o que caiu com toda atenção.

Roleta russa

Outra coisa que chama à atenção é que os atropelamentos mais graves não tem sido em locais como em frente ao shopping na Rua 7 de setembro, onde as pessoas atravessam correndo na frente dos carros, mas sim onde elas deveriam estar protegidas: na faixa!

Importante também se trabalhar esse aspecto e esclarecer sobre o condicionamento dos motoristas que já sabe que naquele ponto haverá pessoas se aventurando na via. Neste ponto, o fato de não haver a mesma preocupação em relação às faixas de pedestres é algo a ser explicado e explorado com a população.

Distratores

Distrator é tudo aquilo que distrai os usuários do trânsito e vai desde painéis luminosos, placas que não sejam as de trânsito, marreteiros que tentam vender alguma coisa nos semáforos ou demonstrar habilidades para depois correr o chapéu. Celular distrai, conferir a rota do GPS distrai e até pensamentos!

Sempre que o motorista vê na via algo que não faz parte do cenário habitual ele se distrai: quer saber o que é, ler o que está escrito na placa ou no cartaz.

Aquela reduzidinha de marcha e o andar lento com o veículo enquanto a cabeça se move em direção ao elemento distrator tem o mesmo potencial de colisão traseira e até de atropelamento daquela situação em que há acidente na via e os curiosos param ou vão devagarinho para olhar.

No trânsito todo cuidado é pouco e a dona Morte anda solta e pegando geral.

A cada três atropelamentos dois são na faixa: duas vidas já foram ceifadas e uma tenta se recuperar das lesões gravíssimas. O desafio daqui para a frente é dar reforços positivos aos pedestres e motoristas para que redobrem a atenção, confiem nas faixas de pedestres e as respeitem.

“Juntos podemos salvar vidas” deve ir além do discurso de campanha, mobilizar a todos no campo das ações, programas permanentes de educação e segurança para o trânsito que também incluam a população não escolar.

Afinal, há muito tempo que o foco das ações educativas de trânsito está voltado prioritariamente para a população escolar e essas crianças que eram os motoristas do futuro já chegaram ao presente sem mudar muita coisa.

Sinal de que a população não escolar e adulta também precisa ter alinhados os estímulos e reforços positivos para aprendizagens seguras no trânsito. E para a vaca não ir para o brejo e se atolar de vez.

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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