InícioHistóriaHistória: Herr Ullrich, por André Bonomini

História: Herr Ullrich, por André Bonomini

Desde aquela segunda-feira de maio de 2021, essa frase me cerca a cabeça sempre que penso no velho alemão: “schön ist die Jugendzeit, sie kommt nicht mehr” ou “bela é a juventude, ela não volta mais”. Tudo estava normal naquele dia, tinha sol, um fresquinho bom na rua, o trânsito de Blumenau um caos matinal quando um homem entra na União FM, nos colhendo todos de susto em meio a um momento descontraído.

Respirando ofegante, visivelmente abatido, o homem quebra todo nosso dia com uma notícia só: “vim comunicar a vocês que o Tio Fred morreu”. Ele era sobrinho do velho alemão, estava ainda imerso no peso do que aconteceu, seja para ele quanto para toda a família, em choque, paralisados, como nós sem saber como reagir. Havia pouco mais de um mês da volta do dial 96.5 a uma rede, e o alemão e suas melodias importadas do Velho Mundo eram parte dos planos daquele pedaço de futuro.

Enquanto estava paralisado, ou correndo para trocar vinhetas, spots e atender telefonemas de ouvintes abalados com o passamento, não conseguia parar de ver, em looping contínuo, as memórias do meu primeiro encontro com Herr Ullrich. Se a memória não me falha, foi ainda no primeiro dia de União FM, lá por fevereiro de 2019. E com ele não tinha rodeios, se no social estava sempre “na fatiota”, ao ir à emissora dava-se ao luxo de estar mais despojado, como naquele dia ostentando uma camisa do Barcelona, como se a 96.5 fosse uma extensão da própria casa.

Fred no início da carreira, na Rádio Difusora (hoje, Rádio Itaberá), ostentando a gravata e o distintivo da Deutsche Welle (DW) | Foto: Fred Vda

Sentamos na sala da diretoria, o local estava a penumbra embora sendo por volta de umas 14h. Ele me perguntou muito e contou muito. E no contar fui me dando conta de quem era Fred Ullrich e quem estava, naquele momento, apresentando suas credenciais de trabalho. Naquela mesa, viajamos no tempo: fomos da Vila Itoupava da década de 1950 e um radio rudimentar que alegrava uma casa inteira, aos dias de hoje e o trabalho diante dos inabaláveis “Hallo Freunde” e “Europa Musical”.

Depois de um longo papo, ele me provocou sem titubear: “vi que você gosta de história. Vou te chamar para escrever meu livro!”. Acertei o compromisso e até fiquei de começar logo a visita-lo para reunir conteúdo e começar, partindo de seus depoimentos. O pior é que, quando se está em comunicação, não se pode prometer muita coisa, e o livro ficou na saudade, e tanto ele quando uma inocente cervejinha que lhe fiquei devendo em sua residência: cercado de rádios, gravadores e vitrolas antigas, recordações e documentos numa cobertura na Rua Pr. Oswaldo Hesse.

Os dias foram passando, ia pegando as rotinas da casa e, de programador comercial virei programador musical da casa. E você talvez pense que, a frente da musica na União FM seja apenas cuidar do Pop/Rock de todo dia (como quase faço ainda hoje), mas nascido neto de um saudoso gaiteiro de musica germânica, ouvindo musica germânica nas vitrolas de casa ou nos desfiles da Oktoberfest me fez desenvolver um gosto pelo som alemão em suas várias facetas: Volksmusik, Schlager, Blasmusik e outras variantes.

Foto: TVL / Fred Vda

Nomes como Helmuth Hogl, Freddy Quenn, Heino, Tony Marshall, Simone Christ, e Ernst Mosch se juntaram, logo, a figuras como Die Flippers, Zillertaler Schürzenjäger, Dolomiten Sextett até os mais badalados como VoXXClub, Tim Toupet e Peter Wackel. Logo, na minha função de programador, ajustar o tempo da grade da manhã no final do “Hallo Freunde” passou a ser ponto principal. E ele sabia bem, se eu colocasse ou tirasse musica no fim da playlist do dia é porque podia confiar.

Não era fácil, e eu confesso pra vocês que Fred era “casca”. Se teve algum erro em uma playlist, ele não demorava a ligar e pedir explicações. No final, sempre acabávamos em uma longa conversa no telefone, mas era osso duro de roer, uma meticulosidade que beirava o impensável. Sua fiel escudeira, dona Ivoni Resner, lá de Pomerode informava se algo dava errado. Era ela que, praticamente, fazia todo o serviço de redes sociais de Herr Ullrich, e raramente conversávamos, mas sempre era uma senhora muito afável e querida.

Lembro de, uma única vez, ter derrapado na escolha musical para um fecha-tempo no Europa Musical: era um Rock alemão interessante, animado, de 1998: Die Ärtze, com uma canção chamada “Maenner Sind Schweine”. A melodia é boa, mas só o fato da letra citar que “homens são porcos”, ao menos na interpretação dele, foi o suficiente para me mandar um áudio bem preocupado: “Ivone me contou dessa musica, não posso chamar os ouvintes de ‘porcos'”. Excesso de zelo, uma prova de sua meticulosidade permanente.

Em outros tempos, nos estúdios da União FM | Foto: Fred Vda

Me pergunto nos tempos onde as mídias eram raras e fitas, discos e cartuchos vindos da Alemanha eram a única forma de Fred manter a parada germânica atualizada. Ele foi o primeiro e fez isso por 55 anos sem parar, entre várias emissoras mas, sobretudo, na União FM, o que ajudou a fazer da casa luterana uma referencia na deutsche musik direto da fonte.

Ele estava lá desde o tempo da Alvorada, nos 820 AM, frequência precursora da atual 96.5. Seja de manhã cedo, nos almoços dominicais, nas noites, a dita “Voz da Alemanha no Brasil” mostrava sua voz empostada, firme, a clareza na pronuncia do alemão, o convite de um “opa” para ouvir musica alegre como o fazia nos “Hallo Freunde” ou “Europa Musical de cada tempo.

Os dias passavam, ora Fred mandava as coisas de sua casa para a rádio, ora ele vinha fazer a seleção e as gravações na emissora, talvez preparando-se para alguma viagem para a Alemanha, onde mora um dos filhos. O convivo alternava horas de explosão e correria a momentos de conversas descontraídas sobre o passado e sobre aviões.

Com o equipamento da banda de Hemlut Hogl, em uma das passagens da orquestra pela Oktoberfest | Foto: Fred Vda
Da esqueda para a direita, em tempos pioneiros e áureos da Oktoberfest: A então repórter Marili Martendal (TV Coligadas); Rubens Schuster, o então prefeito Dalto dos Reis, o diretor da Deutsche Welle Werner Bader e Fred Ullrich | Foto: Fred Vda

E avião era algo que entendia até muito bem, afinal era dos componentes dos antigos quadros da agência da Lufthansa de Blumenau, onde ocupou cadeira por mais de duas décadas e foi peça crucial na ponte entre tantas bandas alemãs que abrilhantariam a Oktoberfest, contando-se Helmut Hogl.

Um dia, cedi aos seus convites. Como quem não quer nada, ele me convidou para uma feijoada daquelas no Recanto Silvestre. Não era novidade ir até o canto do seu Chico para comer um bom feijão, mas a companhia era diferente. Fomos na caminhonete dele, num passo tranquilo e sem pressa alguma.

E no caminho, uma história atrás da outra, especialmente as passagens saborosas nos primórdios da Oktoberfest, discos e discos impressos e feitos a toque de caixa com a musica de Helmut Hogl e da Götz Buam, do maluco e saudoso maestro Zigi, que saiam como pão quente das lojas, o contato com grandes artistas e o dia em que foi guia de Freddy Quinn.

Freddy era, talvez, a maior expressão da musica alemã no mundo. Dono de uma voz grave, de melodias reconhecíveis ao ouvido longe, mas segundo Herr Ullrich, um “fresco sem tamanho, cheio de exigências, de pedidos e pontos a ser seguidos”. O cantor esteve em Blumenau por volta de 1993 para a rebelde “Oktoberfest dos Bons Tempos”, promovida pelo antigo Celeiro do Vale. Cantou, animou, levou uma plateia a outra época, mas deu dor de cabeça ao alemão.

O grupo da Centopéia, muito antes do Planeta Péia, a caminho de Munique para uma passagem histórica na Oktoberfest de lá, em 1998, junto do Grupo Folclórico Alpino-Germânico, de Pomerode | Fotos: Fred Vda

Outra passagem que ele me contava várias vezes, entre um gole de café e outro, era a aventura da Centopeia do Chopp e do Grupo Folclórico Alpino-Germânico, de Pomerode, durante a Oktoberfest de Munique, em 1998. A vista de quem vê a produção feita para a TV Galega, um grande show que os grupos brasileiros deram na rua, mas para Fred foi uma logística trabalhosa, entre estresses de última hora, arranjos de transporte e algumas broncas na mais típica voz brava de alemão nervoso.

Nos últimos tempos, Fred me chamava para a tal “cervejinha”, e eu elegantemente fui adiando, preso naquela lógica cruel da comunicação, que te rouba o tempo sem você perceber. Talvez pudesse me chamar de burro por perder a chance de ouvir algo mais guardado nas memórias do alemão: o Fred que era referencia musical em Jaraguá do Sul e Joinville, que era homenageado até fora do estado pelo seu trabalho junto a cultura alemã, o Fred secretário de turismo de Pomerode e Gaspar, o cara que ostentava o distintivo da Deutsche Welle e contava sobre a pontualidade e o rigor da comunicação alemã, até mesmo o Fred de coração despedaçado por alguma dama eu ouvia, era um cara com sentimentos embaixo de tantas confusões e trabalhos diários.

Veio a pandemia, e Fred se recolheu em casa com um medo enorme do coronavírus, que erraticamente, dentro de seus pensamentos, chamava insistentemente de “vírus chinês”. Não entrava em debates sobre seus pensamentos políticos, até porque nunca me compensou arruinar o trabalho e a amizade com algo tão pútrido de se falar. Mas fora isso, ele passou a trabalhar de casa e, numa das poucas vezes que enfrentou a atmosfera com o vírus, o fez a meu pedido, levando consigo um pano embebido em álcool 90% no trajeto curto até a rádio.

O único encontro de Fred com o atual diretor da União FM, Rodrigo Giacomet. Tantos planos interrompidos sem aviso | Foto: Fred Vda

Não pude deixar de rir da cena, mas me contive, ele estava receoso e não podia ser diferente: tinha seus problemas respiratórios desde pequeno e, nesta feita tinha estado há pouco tempo no hospital depois de uma bruta infecção alimentar. As vezes assustava seu estado de saúde, mas não era aquela coisa que pensávamos que poderia o levar de nosso convívio tão rapidamente. Mas a gente se engana, e depois de tanto adiar, a vida cobra seu preço: não tem mais cervejinha, não tem mais livro, Fred pediu pra partir antes que muito pudesse ser recordado, pudesse ser escrito.

Quando o novo momento da 96.5 começou, apenas uma única vez Fred pode conversar com Rodrigo Giacomet, falou de futuro, de possibilidades, do que a União poderia ser e para onde o nome tanto dele quanto dos programas que comandava. Saiu feliz, talvez imaginando que o nome da rádio também acompanharia momentos culturais alemães Vale e norte catarinense afora. Uma sexta-feira antes de sua partida, esteve na rádio quase que sorrateiramente, não consegui vê-lo, conversou apenas com o incansável Celito, o velho companheiro de produção de muito tempo, e o fez com um ar de boa expectativa.

Infelizmente, acabou acontecendo pouco tempo depois. Tudo passou rápido demais para que pudéssemos justificar tanta procrastinação e para ficar imaginando quanto poderia ser feito com Fred junto de nós. Naquela sala da discoteca onde Herr Ullrich trabalhava, ficou uma história de quase seis décadas de microfone, grande parte delas na União, suas melodias, os roteiros dos programas, o ar concentrado de quem pensava, dia a dia, no programa que levaria ao ar.

Foto: União FM

Hoje, seria fácil demais recontar uma história, e talvez uma ofensa ganhar umas curtidas a mais valendo-se da rica história do alemão, mas tão pesado quanto a história é a memória de quem conviveu com o velho alemão, mesmo que por tão pouco tempo, guardando para si boas lembranças, algumas broncas mas muitos risos e memórias, que talvez não encheriam um livro, mas enchem-me de gratidão por uma convivência tão importante nestas veredas do rádio.

Assim, observando em prece a alegria de Herr Ullrich lá por cima, ao lado do irmão Charles e de tantos outros amigos, deixo mais uma vez a gratidão por tanto. A vida segue, com o mesmo Volksmusik de antes, mais sem a voz da Alemanha no Brasil.

Danke fur alles, herr Ullrich! Sei im friden Gottes…und auf wiedersehn!

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é WhatsApp-Image-2020-09-11-at-11.17.10.jpeg
Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

Notícias relacionadas

Deixe uma resposta

Últimas notícias

error: Toda e qualquer cópia do Portal Alexandre José precisa ser creditada ao ser reproduzida. Entre em contato com a nossa equipe para mais informações pelo e-mail jornalismo@alexandrejose.com