InícioHistóriaHistória: Domingo, 1° de maio; por André Bonomini

História: Domingo, 1° de maio; por André Bonomini

Hoje é 1° de maio, domingo…

E talvez pelo simbolismo que a data traz e aproveitando daquela velha coincidência de que há cada 28 anos uma data simbólica é lembrada no mesmo dia da semana que ela aconteceu, eu não poderia me furtar de parar o plantão para escrever estas linhas. E não duvido, alguém que ler isto neste domingo há de se identificar e entender este momento.

Acompanho quase que religiosamente a F1 desde 1993. De fato, com três anos de idade apenas, meu pai me acostumou a este mundo de gasolina, borracha queimada, lances impressionantes, acidentes fortes e nomes quase intocáveis da maior categoria do automobilismo.

Ao longo dos anos, além do jornalismo e da história que permeiam minha carreira, falar de esporte a motor é um hobby que me fez grandes amigos, muito embora não me tenha dado um tostão na carreira.

E como eu disse, hoje é 1° de maio, um domingo. Lá por 1994, era um dia de corrida como todos que a F1 assinalava em seus calendários. Dia de um ritual sagrado de muitos brasileiros que, em tempo de TV aberta quase unanime, sintonizavam seus receptores no compromisso da F1 que tinham há muito tempo, quase como o futebol televisivo nos fins de tarde.

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Foto: Reprodução

Relembrando uma frase curta de Claudio Holzer, “Blumenau é Brasil”, e assim como eu e meus pais, o ritual era o mesmo nas manhãs de domingo: depois do programa rural e de uns goles de café, a turma já se aprumava em frente a TV para mais um daqueles dias de espetáculo veloz.

Afinal, tinha-se um brasileiro na pista que brilhava os olhos de muita gente desde 1984 entre os 26 do grid naquele dia, e outra vez a turma começava a preparar a carne pro almoço, gelar a cerveja e, talvez, esperar amigos para a domingueira ouvindo o reverberar do nome de Ayrton Senna.

O “Béco”, como era chamado pela família, talvez nunca tenha tido uma única memória relacionada à Blumenau. Se esteve numa Oktoberfest daqueles tempos, ninguém o viu. Se visitou estas terras para conhecer “o que a alemõa (sic) tem”, nenhum jornal, TV ou rádio ficou sabendo.

Mas, por coisas comuns e coisas comuns, Senna e Blumenau era o comum de um país inteiro: muitos daqui se achegavam em frente da televisão para acompanhar seus feitos, aqueles mesmos que o deram três títulos e 41 vitórias até aquela altura.

Notório pensar que os sustos que os jornais mostraram no último dia impactavam mas não tiraram uma certa aura de mais um dia de vitória que muitos aguardavam. Nem mesmo o violento choque de Rubens Barrichello na sexta ou a morte trágica de Roland Ratzenberger no sábado pareciam atentar para algo anormal em outro domingo de corrida.

Qualquer um de médio pensamento já aguardava a largada, talvez pego de sobressalto com a pancada da largada que obrigou a entrada do carro de segurança na pista. Mas depois, a vida segue, o Ayrton precisa ganhar, fazer o normal do domingo mesmo que, para Senna, nada estava normal.

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Foto: Reprodução

Desde o início do ano, apontado como franco favorito por estar no grande time da categoria naqueles tempos, Senna se batia para entender o que fez a Williams estar tão difícil de se acertar.

Sem a eletrônica, a casa de Grove ainda decifrava os segredos do carro enquanto um time colorido de Milton Keynes, a Benetton, mandava no campeonato sob a regência de um promissor Michael Schumacher.

A pressão pairava no ar, e quem lia o esporte com olhar crítico já comentava sobre isso nas rodas de conversa. Dentro do Progresso-Badenfurt, nas curvas da Rua XV, nos bares, entre um chope e outro no Bude ou no Tunga. Senna não escondia das câmeras sua raiva, “na minha vez, c*** o carro”.

Volta 7 da prova, a corrida retoma, a vida segue normal e o proclamado “herói” segue domando seu carro instável tentando se separar de um determinado alemão de Colônia. Não tinha o motor mais forte, mas juram muitos que alguma coisa aquele bólido azul escondia. Enquanto isso, a carne era temperada, a batata picada, a criança brincava inocente.

Volta 10, e um choque para tudo. Galvão Bueno se levanta da cadeira e trava a voz. O indestrutível “herói” despista-se diante de uma sólida mureta a mais de 300 por hora, sem chance maior de reação. E ai, tudo que parecia normal para por momento: a carne mergulha na salmoura, a batata esfria, a criança coça a cabeça tentando entender o susto dos adultos.

A cabeça mexeu, ele vai sair dessa… Ao menos era o que se parecia, mas a complexidade de uma história só entenderiamos muito tempo depois, e muito depois ainda do anuncio mais pesado: o jovem Ayrton Senna, de 34 anos, 41 vitórias e três titulos pereceu.

Foto: Reprodução

Comoção, dor, tristeza, um país inteiro parado, ou ao menos sem conseguir fugir da dura realidade de que o grande ídolo daqueles dias tinha desaparecido num acidente relativamente simples e tão rápido quanto dolorido. Alguém que, entre as crises econômicas e escândalos políticos, era a face do “Brasil que dava certo”, de um país de verdade apesar das cinzas que vivíamos.

Não poderia escapar do assunto num dia como este, e por isto estou aqui lembrando destas datas, talvez com flashes um tanto quanto duros para muita gente. Todo mundo tem sua memória, perguntar o que cada um fazia naquele 1° de maio de 1994 talvez seja o óbvio para os mais velhos, ou até mesmo questionar os mais novos sobre quem foi Ayrton Senna também o seja.

A questão é que, para muitos, é um assunto difícil de lidar. Traumas ficaram e aquela história crua de que “a F1 perdeu a graça” ou “não vai ter mais brasileiro como Senna” são pregos martelados até hoje na consciência, como se nunca tivéssemos aprendido a sair do trauma ou dissocia-lo da reverencia justa do grande piloto.

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Como disse, acompanho a F1 desde 1993 sem arredar pé nem nos piores momentos, e talvez por ter apenas três anos de idade quando tudo aconteceu me fez olhar por outro ângulo a morte de Senna. Os números e feitos do tricampeão são irrefutáveis, indeléveis, causam arrepios até hoje seja você um entendedor do esporte a motor ou alguém que cai neste mundo de paraquedas.

Foto: Reprodução

A vida seguiu depois de 1994, e o esporte também, criando novos grandes nomes para uma extensa galeria onde lá também está Senna, num lugar justíssimo para qualquer interessado na categoria e no automobilismo possa vez.

Muito mais do que uma velha gloria de um país calejado pelo ódio ideológico e os preços altos de todo dia, Senna ainda é o reflexo de bons dias onde era possível esquecer os problemas e, em um momento, tomar a bandeira do Brasil em mãos independente do que ela parecesse significar para um ou outro.

Mas a vida seguiu, o futuro do Brasil nas pistas é nebuloso e, ainda assim, continuo um interessado ferrenho no esporte a motor, me esquivando do niilismo que muitos pregam no esporte baseados neste “trauma”. Só que é impossível para qualquer um que tenha vivido ou tido conhecimento desta data não recordar minimamente tudo o que Senna representou para um país, isto fora das estatísticas e histórias riscadas no asfalto.

Daqui a 28 anos, talvez outro plantonista do Portal Alexandre José terá este momento novamente. E ano a ano, o 1° de maio puxa essa memória mais pela lembrança e reverencia, e assim que tem que ser, sem “viuvismos” ou arrependimentos, para o bem da memória de um grande nome ser preservado para gerações entenderem como, de fato, unir um país, ao menos por algumas voltas.

Hoje, 1° de maio, um domingo. Ano que vem, tornamos a lembrar, como de praxe, de domingos felizes.

Senna sempre!

Foto: Reprodução
Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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