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História: mulheres como Alda, por André Bonomini

“Lugar de mulher é onde ela quiser”. Frase tão atual quanto cheia de sentido, tão desdenhada por machistas arcaicos mas – e felizmente – uma verdade absoluta para tantos, sejam eles homens e mulheres. Eles, por entenderem que dias como o 8 de março e os outros 364 do calendário, são de reflexão, respeito e luta pela igualdade; elas por serem inspiração de força, inteligência, lucidez e gana de vencer.

O lugar delas é onde elas bem entenderem. Nas direções de empresa, nas boleias das jamantas que cruzam o país, no manche dos mais avançados aviões, sujando a mão de graxa, cantando para as maiores plateias, chutando a bola como qualquer craque. Elas estão por todo lugar e ecoam seus brados de combate, protesto e vitória em uma rotina por vezes mais intensa e tão injusta.

O lugar da mulher é onde ela quiser, e como todo lugar, o velho shack é um destes lugares. Enquanto tantos se acotovelam nas ondas esperando conseguir um DX, elas também bradam seus prefixos de todas as distâncias numa das mais nobre funções dos hertz que se movimentam sob nossas cabeças: o socorro, a sensibilidade de entender, transmitir, montar e falar aos mais longes cantos.

Foto: Reprodução

Amizade e trabalho fazem parte da vida de um radioamador, vide o exemplo que tenho de meu tio/padrinho, Diácono Harry Boos (OFS), conhecido PP5-HB, de onde aprendi a respeitar esta arte de falar a distância. E foi entre estas ondas que encontrei uma mulher. Mulher? Talvez referir-se a Alda Schlemm Niemeyer não seja apenas falar de uma mulher, mas de um ser tão rico em lutas e vitórias quanto a magnitude de sua pessoa.

Falo exagerado, mas não pelo nefasto puxa-saquismo. Vó Alda é um daqueles orgulhos de vida que temos o prazer de chamar de “amiga”. A conheci em 2014, na rota dos trabalhos de faculdade. Já tinha escrito todas as histórias possíveis (e continua as escrevendo). Foi na sua casa, ainda localizada próxima a AABB, na Ponta Aguda, onde teci os primeiros papos com a gentil PP5-ASN. E que sábado foi aquele, admito, podia durar horas!

A enfermeira e as bombas da guerra

Entre uma pergunta acadêmica e outra, fomos trocando o trabalho de aula para um papo e, ao fim, uma ida a seu retiro maior: o shack, o equipamento que tanto mudou com o tempo mas acompanha ainda aquela voz com sotaque ainda carregado de um germânico criado na terra das flores, em um distante 1920. A filha de Wanda e Frederico que corria inquieta pelo jardim queria ser bailarina, mas já virou os olhos desafiada por uma profissão que virou xodó mas ainda era exclusiva para os homens: médica.

Alda em 1939, quando de sua ida para a Alemanha | Foto: Arquivo pessoal

Apesar da negativa estúpida de tempos arcaicos, Vó Alda não baixou guarda e moldou-se como uma enfermeira pronta para cumprir o juramento de Florence Nightingale, mesmo que o serviço fosse diante de uma guerra sangrenta e movida pelo ódio. Uma viagem com a irmã à tensa Alemanha daqueles tempos obrigou a moça de 18 anos e simples auxiliar numa clínica dentária a se colocar no front, no que virou uma estadia de nove anos.

Nove anos… nove longos anos sentindo o cheiro da morte e não se baixando a ele no cenário tétrico da Segunda Guerra, E quem sabe o mínimo de história não precisa de mais pormenores para entender o cenário brutal em que ela, e tantas outras em volta dela, estavam imersas. Em Dresden, viu a morte de perto num bombardeio. O livramento por pequenos detalhes de um ponto final a deu uma segunda chance valiosa para continuar escrevendo sua ainda longa história.

As voltas da vida, as águas do rio: a radioamadora

A guerra foi, deixou lições e um amadurecimento profundo que notava-se a cada palavra dela. E a vida, este tranquilo presente diário, também costuma pregar revezes duros, mas próprios a reflexão: a perda de um marido e de um filho ainda vivendo suas 50 primaveras a fez pensar num rumo para ocupar-se, e uma enfermeira com o jaleco marcado de combates passados sempre tem algo mais para dar aos comuns.

E ai que voltamos ao shack, o mesmo shack que descobriu em meados dos anos 1970, passando de enfermeira a “bruxinha”. A alegre ilustração em seu cartão QSL é só uma daquelas tantas características que observava na sorridente e centrada Vó Alda: comprometida, determinada, de personalidade reta e tranquila, mas com um toque maroto de doçura, de graça e carinho de mãe/avó que tantos já tinham nos contado em tempos.

Foto: Antigamente em Blumenau

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A PP5-ASN não era a única, mas num mundo recheado de homens, ser “ela” entre “eles” era uma agradável diferença mas sem perder a firmeza do trabalho sério do radioamador. Voltando ao meu padrinho, Harry Boos me contava algumas páginas cruzadas com as da Vó Alda numa das páginas mais duras de Blumenau: 1983, onde aquela jovem enfermeira, uma senhora pela experiência de vida, parecia ter se reencontrado com o suplicio e o terror, mas sem perder a calma característica.

E enquanto o suco descia goela abaixo, histórias se empilhavam. Da triste passagem quando uma criança morrera ao seu lado aguardando socorro a passagem na oficina da Telesc botando ordem na casa de outros homens impressionados com a moça e seus equipamentos. Cada memória, cada detalhe recordado com uma lucidez de deixar qualquer leigo apaixonado, travado, simplesmente flechado por aquele olhar que diz tanto.

Alda, o espelho

Ao rever seu vulto como uma das primeiras vacinadas da cidade, aos indeléveis 101 anos, me bateu saudade de um dia especial que tornou-se amizade. Sempre quando chega o 18 de maio, deixo para ela um abraço enorme, mesmo distante fisicamente, lembrando a feliz efeméride de que compartilhamos o mesmo dia de natalício. E eu, menino perto dela e que tento contar as histórias das nossas esquinas, só olho pro alto a procura da sombra da gentil Vó Alda e seus feitiços de bruxinha entre as ondas hertzianas.

Ela está no lugar onde ela quer, e a conhecendo, ela pode querer estar em um ou outro lugar e ela assim o estará. Alda não chegou onde está resignada pelo mundo que aponta os dedos as mulheres, ela encarou as bombas pesadas da ignorância bélica, as perdas da vida e as águas barrentas de um rio para escrever sua história, talvez uma das mais inspiradoras que Blumenau já viu.

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O famoso Cartão QSL, com a ilustração da bruxinha | Foto: André Bonomini

Sorrindo, seguro orgulhoso o cartão QSL da encantadora PP5-ASN, um exemplo máximo do termo batido e atual de que o “lugar da mulher é onde ela quiser”. Para Vó Alda, o lugar dela vai além do velho shack, mas nos compêndios, histórias e memórias de muita gente, especialmente aquelas que buscam espelhos de inspiração e, talvez por aqui, encontrem na gentil Vó um modelo: não se baixe no primeiro “não”, vá atrás do sim nem que seja para você mesma.

Enfim, falei demais. Alda é uma grande mulher, e a mulher é grande como Alda, que continua voando entre as ondas escrevendo o seu dia e sua glória. Lute, ame, conquiste e ganhe, seja uma gigante como tantas… tantas como Alda.

TKS, Vó!

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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