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História: sob o calor do fogo no Centro de Blumenau, por André Bonomini

É fato, por mais doloroso que seja. Qualquer cidade com um passado grande tem uma memória relacionada a um dos elementos mais úteis e, por vezes, incontroláveis que o homem conhece: o fogo. Gran-Circus, Andraus, Joelma, Renner, Andorinhas, Kiss, quando despertadas, na maioria dos casos pela ação irresponsável do mesmo homem que tenta doma-lo, o resultado é o susto, o prejuízo, a consternação e, por vezes, a morte.

E Blumenau, diante da sombra do caudaloso Itajaí-Açu, as vezes esquece-se que nem só de enchente anotamos tragédias e histórias no misto de heroísmo e pavor. Em 1958, Altair Carlos Pimpão, lendário comunicador e criador da nomenclatura “Picape da Frigideira” para o rádio, narrava angustiado da esquina da Rua Nereu Ramos, outrora sede da PRC-4 (Rádio Clube de Blumenau), as chamas crepitantes do incêndio que atingia a prefeitura da cidade. Nenhuma vítima, mas as sequelas nos anais históricos municipais eram irrecuperáveis ao fim das chamas.

Ao longo da história blumenauense, partindo do prédio da municipalidade na década de 1950, fogo e prejuízos sempre fizeram parte da rotina de emergências da cidade, como qualquer outra assim o seria. Neste corre-corre frenético, os bombeiros mantém campana, ficam de vigia, correm quando as labaredas surgem, evitam o pior por muitas vezes mas, em outras tantas, é impossível esconder a face aterrorizada de quem viu, de quem perdeu, seja bens ou vidas.

E como toda cidade, Blumenau tem suas tragédias diretamente ligadas ao fogo. Hoje, voltando no tempo, resgatei três casos famosos e, por que não, um tanto esquecidos nos anais da história cotidiana da cidade. Nenhum deles registrou mortes, mas a marca que deixaram na memória de muita gente é difícil de apagar: de quem leu as manchetes, assistiu as chamas de perto ou lutou contra elas.

Supermercado Pfuetzenreiter (1979)

O incêndio no Supermercado Pfuetzenreiter, no fim de 1979. Enfeitado para as festas, prédio ficou irrecuperável e assustou quem passava pela Rua 7 naquela noite de domingo | Foto: Antigamente em Blumenau

Faziam pouco mais de sete anos que o tradicional Supermercado Pfuetzenreiter tinha aberto a nova unidade na Rua 7 de Setembro, próximo da então Igreja Matriz. Era o resultado de um crescimento contínuo e da popularidade de uma das marcas mais tradicionais do ramo varejista blumenauense, sendo a sexta loja do empreendimento na cidade. Eram tempos onde “supermercado” ainda era novidade vindo de uma época passada do bom e velho “secos & molhados” dos nossos tios e avós.

No entanto, em dezembro de 1979, quem passava pelo Centro durante a noite de um domingo tomou um susto. A filial, considerada por anos o maior supermercado da cidade, era violentamente consumida pelas chamas. Em meio as labaredas, estavam ainda presos os enfeites de natal e dizeres de “Feliz Ano Novo”, que queimavam fortemente junto com toda a estrutura da loja.

Mesmo com a violência do incêndio, não houveram vítimas, mas o prédio ficou irrecuperável. Felizmente, a história teve um final, digamos, feliz. Em março de 1980, foi anunciada a compra do Pfuetzenreiter pelo Pão de Açúcar e uma nova loja seria construída no local, onde depois de abrigar supermercados como o próprio Pão de Açúcar e os da rede Vitória/Mini Preço, sobrevive ao tempo como uma pista de boliche e uma loja de variedades, nem de longe lembrando o velho supermercado sinistrado que havia no local.

Casa Caça & Pesca (1986)

Nascida em 1953 pelas mãos do casal Willy e Annelise Mischur, a Casa Caça & Pesca é, até hoje, um dos pontos mais tradicionais do comercio blumenauense, referencia no segmento de pesca, camping e, claro, tiro esportivo. Uma linda história escrita pelos anos a fio e que, entre tantas nuances, também teve um encontro infeliz com o fogo, em um dos incêndios mais agressivos e marcantes da história de Blumenau.

Acima, uma rara imagem da antiga fachada da Casa Caça & Pesca, imitando o estilo enxaimel. Abaixo, uma imagem distante que assusta: a loja em chamas, parece ainda se ouvir os estouros dos cartuchos durante a noite | Fotos: Henrique Martins / Blumenau Antiga

Foi na noite do dia 12 de abril de 1986 que a estrutura, de aparecia bonita adornada pela fachada imitando o estilo enxaimel, começou a ser tomada pelas chamas. Uma loja ao lado e um carro na garagem do local também foram destruídos pelo fogo, que até hoje não tem uma origem certa. A lembrança mais assustadora de quem recorda aquele dia são das várias explosões e estouros ouvidos, a maioria por conta da queima do estoque de munição existente na loja.

Apesar dos estragos, a Casa Caça & Pesca não demorou muito a retornar aos trabalhos, utilizando a garagem como sede provisória. Tempos depois, um novo prédio surgiu, com uma estrutura pensada em evitar algo semelhante. Não a toa, a arquitetura do prédio hoje não lembra mais a graciosa fachada imitando o enxaimel de outrora, um dos motivos levantados pelo próprio Willy Mischur como alimentador das chamas. Até hoje, mesmo em tamanho reduzido, a clássica loja segue suas atividades.

Foto: Jornal de Santa Catarina, 1986
O antigo prédio da Casa Caça & Pesca. Loja ainda atende com entrada pela Beira-Rio | Foto: Google

Edifício Catarinense (1996)

15 andares, 150 salas e, na época, a proposta ousada de ser o maior edifício do estado. Era assim que se vendia a ideia do Edifício Catarinense, o mais icônico da Rua XV e que foi erguido pela antiga RB Planejamento e Construções, entre 1962 e 1965. Escritórios de vários tipos, comércios e até mesmo a Rádio Blumenau (AM 1260, hoje Rádio Arca da Aliança) já utilizaram ou utilizam o prédio como sede, localizado num ponto privilegiado da famosa “rua da linguiça”.

No entanto, a hora do almoço de 14 de junho de 1996 parou a cidade em frente ao edifício assustada com as cenas que assistia. Uma filial da tradicional Lojas Koerich e mais quatro andares estavam sendo consumidos pelo fogo causado por um curto-circuito. Sete pessoas foram encaminhadas aos hospitais da cidade intoxicadas com a forte fumaça, entre elas uma cabelereira, talvez o resgate mais dramático daquela tarde quente.

Um dia que Blumenau parou: Mais acima, o trabalho intenso dos bombeiros no controle das chamas na fachada do Edifício Catarinense, na Rua XV. Acima, os estragos na face do prédio na Beira-Rio. Sete pessoas foram intoxicadas pela fumaça, mas só ficaram mesmo o susto e os danos | Fotos: Caio Santos / Jornal de Santa Catarina, 1996

As memórias de incêndios recentes acontecidos no Brasil pareciam ter assustado muitos que passavam na frente do edifício depois do incêndio. Anos depois, já recuperado das marcas do fogo, uma escada metálica foi construída na lateral do prédio como medida preventiva em caso de algum incêndio, que felizmente nunca mais atingiu o histórico espigão.

O Edifício Catarinense atualmente: marcante na Rua XV pelo seu gigantismo, histórias e, há 25 anos, pelo fogo de que saiu | Foto: Blumenau Vertical

Outras tantas histórias de medo e susto ligadas aos incêndios em Blumenau ficaram pelo caminho, admito. Mas em se tratando de memória, estes três casos sempre vem a mente em qualquer grande sinistro que aparece na cidade. Nenhum prédio, indústria ou casa está imune as chamas, por mais segura que seja a estrutura de prevenção, uma vez que basta um leve descuido para que o fogo mostre sua natureza incontrolável.

Não óbvio, terminar a coluna com um simples ponto final diante de passagens tão fortes não seria o certo. Melhor é lembrar sempre uma boa e velha frase que nunca sai da mente em qualquer tipo de chama que se acende sem controle: “o incêndio existe onde a prevenção falha”.

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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