InícioHistóriaHistória: a Universal entre memórias de ouro, sonhos e realidade, por André...

História: a Universal entre memórias de ouro, sonhos e realidade, por André Bonomini

Nesta longa “reta curva” que compõe a Rua XV de Novembro, é impossível não referenciar cada pedacinho com um comércio famoso que lá existe. A antiga “rua da linguiça” é pródiga de nomes históricos, personagens que dia a dia abriram (ou abrem) seus estabelecimentos em busca do pão de cada dia e do girar econômico da capital da cerveja.

E quem navega pelas nuances da história, sabe que tem nomes que, passando o tempo, marcam profundamente a vida, o dia a dia, as lembranças que sempre parecem frescas mesmo que este lugar não mais existe. A exceção é com relação a este cantinho que recordo, parte da minha infância, da vida de muita gente e que, por este ano, assim como as joias que lá transforma em arte aos olhos de muitos, celebra outro momento de ouro de uma longa trajetória.

Certo dia, Alexandre José me indagou sobre grandes marcas que habitaram a via no passado, sobretudo no que chamamos de “alto da XV”, aquela região compreendida “para cima” da Catedral. Devaneando entre tantos nomes históricos, um deles estalou a mente: Universal. A infância voltou nos meus olhos, tempos inocentes onde uma visita naquela quadra da rua era certeza de um lugar apinhado de gente, boas risadas e bons negócios – ou melhor, sonhos – realizados.

O primeiro endereço: uma pequena sala de 25 metros quadrados no alto da XV e cujo o aperto foi o resultado do sucesso da empreitada, iniciada em 1971 numa troca de direção do negócio | Foto: Alexandre Peters / Relojoaria e Ótica Universal

Eu era pequeno e bem me lembro. Dona Anelore era (e ainda o é) cliente antiga da casa, seja um relógio defeituoso, uma joia para limpeza ou um óculos de sol ou grau para reparar ou trocar. Entravamos lá e, assim como hoje, ver a Universal efervescendo era rotineiro: as famosas moças de azul de um lado para o outro, os relojoeiros focados no trabalho e uma multidão de clientes que não se importava de estar no meio do formigueiro cotidiano.

A primeira a abordar minha mãe era a querida Marlise, a irmã da Denise e uma daquelas que viu a casa crescer e ser a referencia que hoje é naquele ponto da XV. Portadora de um constante sorriso no rosto e uma graça própria, ela e a mãe “se perdiam” entre negócios e um bom conversê.

E enquanto as duas falavam, ficava eu olhando em volta. Pela parede, alguns quadros que remontavam a história daquele lugar, memórias deliciosas e símbolos de uma persistência quase que necessária para sobreviver e chegar a cinco décadas com a força e legenda que tem.

O segundo endereço, um pouco a frente do primeiro, em prédio ocupado, atualmente, pelo Sebrae. Dizer que é cliente da Universal “desde o tempo que era do outro lado da rua” é um puro sinal de fidelidade | Foto: Alexandre Peters / Relojoaria e Ótica Universal

1971 parece tão arcaico e distante de nós, mas para a Universal parece um ontem gostoso de recordar. Era fevereiro, dia de sol e calor, cidade pacata e provinciana, quando o negócio de joias e relógios de Bertoldo Strube trocou de direção. Sala pequena, freguesia crescendo em progressões além da aritmética, novos amigos se juntando a empreitada, a mudança para um espaço maior, ao lado do antigo, foi questão de tempo e necessidade: nem os funcionários conseguiam trabalhar direito em tão pouco espaço.

A primeira mudança foi para uma sala de, aproximadamente, 75 metros quadrados, no local onde hoje o Sebrae está instalado. E diante de mais um impulso de crescimento – sobretudo com a inovadora venda parcelada em 10 vezes – a outrora pequena relojoaria precisou de uma outra mudança. A saída estava do outro lado da rua: um imóvel da família Steinbach, que com cimento e mãos hábeis ganhou ares de “enxaimel” que o marcam até hoje. Por um tempo, dizer que era cliente da Universal desde “a loja do outro lado da rua” era sinal de fidelidade.

Já no endereço atual, as duras lembranças das enchentes. Desafio tão grande quanto as diversas turbulências econômicas, revoluções comerciais e tecnológicas que provavam a solidez da marca, já tradicional no alto da XV | Foto: Alexandre Peters / Relojoaria e Ótica Universal
Foto: Alexandre Peters / Relojoaria e Ótica Universal

Era outro recomeço, um espaço tão grande que assustava a turma de valentes da loja, mas que os anos provariam ser tão aconchegantes quanto rotineiramente movimentados. Nem mesmo as enchentes – e elas vieram fortes – os planos econômicos, os apertos e as vacas magras abalaram os ânimos da Universal que, ao redor de tantos nomes comerciais já partidos, é uma sobrevivente orgulhosa do passado e presente da cidade, exemplo da persistência, segura orientação e carinho de todos que passam por lá.

Aquelas paredes não mentem. Os cucos batem lentos, talvez saudosos do velho Cristiano, o relojoeiro favorito de meu avô. Joias e relógios cintilam diante da luz e outro cliente sai enxergando tudo atrás de uma Varilux. No meio disso tudo, o corre-corre frenético de gente de azul esperando a cada dia um novo cliente ou um velho amigo, seja para um reparo, uma nova compra ou o destacar de mais uma folha do clássico carnê azul.

Momentos: o constante movimento da Universal em imagem no segundo endereço. Abaixo, um momento de confraternização dos colaboradores em um natal dos anos 1990 | Foto: Alexandre Peters / Relojoaria e Ótica Universal
Foto: Alexandre Peters / Relojoaria e Ótica Universal

A tecnologia, os acontecimentos do dia confidenciados nos balcões entre uma venda e outra, uma mescla de nostalgia e atualidade que é impossível, pelo menos para mim, não reparar naquela “boa loucura”, a Universal é quase um relicário moderno, avançado e experiente sem perder a pompa que os 50 anos trazem. E eu, apenas uma inocente criança no meio de tantos adultos no salão da loja, e hoje, podendo reverenciar uma história moldada no outro e que torna tantos sonhos realidade.

E aqui, não me coube ser minucioso com a história (pela primeira vez!) e o hoje da velha Universal. Para os nomes comerciais de hoje da Rua XV, os amigos de sempre e os futuros visitantes do 1513 da Wurststrasse, a palavra de quem vive estes dias movimentados por estes tempos: o próprio gerente, Alexandre Peters, ao qual agradeço a inspiração, os materiais e peço desculpas por qualquer omissão da parte deste escriba.

Dê o play:

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

Quer receber as notícias do Portal Alexandre José direto em seu celular, pelo WhatsApp? Então clique aqui e entre em nosso grupo. Informação em tempo real, onde quer que você esteja!

Notícias relacionadas

Deixe uma resposta

Últimas notícias

error: Toda e qualquer cópia do Portal Alexandre José precisa ser creditada ao ser reproduzida. Entre em contato com a nossa equipe para mais informações pelo e-mail jornalismo@alexandrejose.com