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História: por um Natal como antigamente, por André Bonomini

O filme abaixo é de 1977. Trata-se de uma filmagem familiar antiga, de propriedade de Darcisius Falaster, que compartilhou estas recordações pelo YouTube para quem quiser, assim como ele, viajar no tempo. E antes de dar o play, até peço desculpas a ele por colar este filme nesta coluna, mas ele (e você) vai entender aonde quero chegar de fato.

Vídeo: Darcisius Falaster

Como o ano passa. Mal piscamos nossos olhos e as casas ficam enfeitadas, pinheiros armados, encerramentos são marcados e férias são tiradas. Por um momento nos assustamos com o correr de um tempo, mas são apenas sinais de que outro Natal vem se aproximado, e com ele um tempo de refletir, repensar e reconsiderar tantas coisas passadas, deixadas para trás nestas esquinas da vida antes que o ano viva seu crepúsculo.

Mas o Natal, por certo, é um período dos mais marcantes para qualquer ser humano. E se você não se enquadra na modalidade de saudosista, peço que pule estas linhas pois aqui falo justamente de voltar no tempo. Ao colocar os olhos no filme de Darcisius, me surpreendi com imagens de um passado blumenauense tão idílico quanto poético, longe dos questionamentos sociais, apenas apreciando a inocência da vida e, sobretudo, de um fim de ano como aquele em 1977.

Um retrato do Natal em Blumenau nos anos 1970: Rua XV iluminada de ponta a ponta, um deslumbre noturno. Foto: Antigamente em Blumenau

Ah, 1977! Também poderia ser qualquer ano naqueles antigamentes. Blumenau era referência para Natal. A Rua XV e a Beira-Rio tão majestosamente iluminadas, faziam parar qualquer um a noite para apreciar o claro das luzes sob as cabeças. Tudo passava mais lentamente, sem esses troços eletrônicos de hoje, só o apreciar dos momentos que se viviam na proximidade natalina.

Famílias acorriam ao comércio aos montes, entupindo o centro em busca dos presentes. Zadrozny, Casa Coelho, Peiter, Dudalina, Prosdócimo, A Barateira, Moellmann, Casa Meyer, mas nada batia o deslumbre do Natal da Hermes Macedo (HM), que fora o ponto máximo das compras era quase o carro-chefe de toda festa: desde o portal decorado aos desfiles, atrações e os “seis Corcel” de sorteio na promoção especial.

Vídeo: A Boina / Taty Produções
O famoso portal em frente a HM, uma marca tradicional da rede de lojas, que fazia questão de dar espetáculo no Natal. Foto: Antigamente em Blumenau

Cada família tinha seu costume peculiar: bolacha pintada, pinheiro natural com bolas de vidro, presépio de cerâmica, piscas feitos com luzes de 40w coloridas, casas iluminadas, um ar de descanso, de leveza. E no olhar daquelas crianças de outros tempos aquela magia quase alucinante com as imaginações acerca da imagem do bom velhinho e os presentes que ele traria.

E cara, eu vivi um pouco disto, embora os anos 1990 já não fossem assim tão “inocentes” quanto as brisas setentistas. Blumenau ainda tinha muita luz nas casas e prédios, ainda podia se respirar a autêntica inocência sem essa conectividade toda. Ainda se sentia a doçura das musicas natalinas com intensidade elevada, se ia as compras deslumbrado com o clima que cercava o ambiente outrora petrificado da cidade.

E olha, o Papai Noel metia medo mesmo que fosse ele uma ilusão da mente tranquila de uma criança, mas tudo se resolvia na oferta de uma bala e de uma prosa. E entre filmes e desenhos natalinos, ao chegar a noite santa, era chegado o momento máximo de colocar o disco de musicas de Natal em alemão de Júlio Iglesias (sagrado para mim até hoje) e abrir os presentes que tão ansiosamente aguardava.

Invariavelmente, impossível nós, mortais que aqui estamos, não recordarmos sobremaneira de quem dividiu natais conosco e não está mais aqui para isto. Tem gente que prefere celebrar a quadra mais calado, mais contrito e sem esboçar um sorriso. Seria como remeter, junto da infância, a lembrança doce e sentida do pai, mãe, tio, tia, vô, vó e quem quer que seja que vaga uma cadeira do lado do pinheiro.

Só que, em algum momento, em alguma esquina desta vida, parece que tudo ficou mais cinza. E agora que aquelas doçuras coloridas de Falaster perdem um pouco o encanto. Aquilo tudo de 1977 se foi, e não digo da simplicidade quase analógica da vida, mas aquilo que de mais importante faz um Natal ser “o Natal”: a autenticidade de sentimentos e momentos, o calor autêntico de um abraço e o desejo puro de colorir até mesmo estes tempos difíceis de sorrir, entre intolerâncias e o medo do vírus.

As casas estão mais apagadas, as festas viraram oportunidade de se mostrar nas redes abaixo de um sorriso construído, de um desejo em busca de cliques. Não é isso que quero ver numa noite como essa. O “sentar em torno da mesa” para a ceia tem que ter muito mais do que cliques e gritos, caprichos e detalhes, é preciso refletir aonde estas lembranças juvenis perderam o sentido, a razão, fazer renascer aquele sorriso idílico de 44 anos atrás com a cabeça que temos hoje.

Foto: Reprodução

Talvez olhar para o pinheiro aceso e lembrar do verdadeiro dono da festa seja mais instigante do que curtidas e friezas. Guardemos os egos de lado, dizer que “esse tempo não volta mais” não é desculpa válida para fazer um Natal tão bonito quanto o que foi o da nossa infância. O passado não volta, mas o sentimento que rolava naqueles dias vividos nele, ah esse não deve morrer, é crueldade demais num momento como este.

Vai, amigo, amiga, acende uma luz, faz uma oração (ou medite de acordo com seu credo ou sentimento), esqueça as máscaras e os egos que em nada acrescentam. Perdoe mesmo que para si mesmo e reverencie as lembranças sem esconder as lagrimas acima do sorriso. Faça valer, neste 24 e 25, o que você acredita ser preciso para este Natal ser verdadeiramente inesquecível como o do Darcisius, os meus do tempo de infância, o seu, o de todos os tempos.

Hoje, eu não conto exatamente uma história, mas peço que você escreve a sua história de Natal da melhor forma. Aproveite bem como você mesmo e com os seus e não esqueça o que realmente importa, muito além da tela fria de um celular: o verdadeiro amor e paz da noite de Natal.

E ah! Dankeschon, Darcisius!

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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