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História: Blumenau e o avião (parte 3), os bons tempos do Quero-Quero, por André Bonomini

Há algum tempo, em contação de história ao Blumencast, o ex-prefeito e empresário Felix Theiss bradou para quem quisesse ouvir que “muito breve, Blumenau voltaria a ter voos ligando a cidade a São Paulo”. Vindo do idealismo de Theiss, o mais velho ex-prefeito vivo, não duvidaria de sua ambição, mas desde o dia desta fala até agora nenhuma novidade mais surgiu a não ser as recentes sobre o balizamento noturno no Aeroporto Quero-Quero, com verba conquistada há pouco tempo.

O “campo da aviação”, como até hoje é conhecido pelos velhos, é a continuação do sonho do blumenauense e do morador do Vale de alcançar os céus domando as maravilhosas máquinas voadoras. Mas muito antes da vocação para o transporte aéreo, interligando Blumenau a outras cidades pelo ar, o local foi e continua sendo o berço de novos pilotos. Em 1941, nascia ali o responsável por esta obra: o Aeroclube de Blumenau, por decreto do então prefeito José Ferreira da Silva, incentivador da ideia.

O hangar do Aeroclube de Blumenau nos anos 1970. Berço de pilotos nascidos no Vale e que encontrou no Quero-Quero o campo para praticas e shows de exibição que deslumbraram blumenauenses | Foto: Antigamente em Blumenau

A entidade é responsável pela formação de pilotos e difusão das técnicas e cultura aeronáutica em nossa região. Os primeiros encontros do ACB aconteciam em uma sala alugada no Clube Náutico América, sob instrução de Dauto Caneparo, instrutor de voo vindo de Florianópolis. Alguns anos depois, e em definitivo, o Aeroclube se mudaria para o local onde até hoje tem seu hangar e sala de instrução, além de poder casar teoria e prática com mais efetividade tendo espaço para decolar, pousar e ensinar.

E era no campo da aviação que estava plantado, de fato, o embrião do que seria, em 1970, a peça-chave para a cidade voltar a ser guarnecida de voos regulares para São Paulo. Nascia ali o Aeroporto de Blumenau, ou carinhosamente apelidado (e mais tarde, formalizado) de Aeroporto Quero-Quero, por conta da grande presença da ave nas cercanias. Apesar de modesto em estrutura, o aeródromo podia também receber pequenos voos particulares e shows de exibição, como aconteceram ocasionalmente.

A vista do EMB-110 Bandeirante, em novembro de 1971. Os primeiros passos da sonhada integração do país pelo ar | Foto: Antigamente em Blumenau

E o lugar, de fato, tinha uma reputação bem firme na cultura aeronáutica. Era o ponto de parada dos pilotos que vinham para o Vale sem ser por Navegantes ou Joinville. Já no ano seguinte, a pista recebia um visitante ilustre: O EMB 110 Bandeirante, primeira obra da Embraer, pousava em Blumenau.

A então empresa nascida do sonho de Ozires Silva mostrava sua maior conquista até então para os olhos de blumenauenses tão encantados quanto aqueles de 1932, além de mostrar o embrião do velho sonho de interligar o país, do interior ao centro, pelo ar.

Quero-Quero, a porta de entrada (pelo ar)

O Bandeirante era a peça que os militares da época confiavam para estimular um antigo sonho de um Brasil aéreo: o transporte regional de passageiros. Várias tentativas foram feitas para consolidar um sistema e, nos anos 1970, chegou-se a ser criado um modelo para operação de empresas regionais em cada quadrante brasileiro: o chamado SITAR, Serviço Integrado de Transporte Aéreo Regional, buscando incentivar esta prática com a criação de novas empresas aéreas pelo país.

O SITAR até parecia organizar as coisas no início, e mesmo aos trancos e barrancos parecia que o Brasil, enfim, teria uma forma de fomentar o transporte aéreo entre cidades consideradas do “interior”, no tempo em que aviões a hélice eram bem mais comuns do que aparelhos a jato neste tipo de operação. Empresas como TAM e Rio Sul eram os destaques do sistema, solidas e visionárias, constantemente pensavam em expansão dos serviços aproveitando-se do dinamismo destes aparelhos.

Foi neste rodeio que Blumenau entrou na rota do transporte aéreo regional definitivamente, iniciando esta nova fase com os serviços da Rio Sul, ligada a Varig, nos anos 1980, com o emprego do Bandeirante nas rotas para o Vale. Desde 1985, o aeródromo já contava com uma estrutura bem melhor do que a dos anos 1970, com uma pista recém asfaltada e ampliada para os atuais 1.080 metros de extensão.

O Bandeirante da Rio Sul no Quero-Quero, em 1988. Blumenau voltava a estar na rota de voos nacionais | Foto: Antigamente em Blumenau

Anos depois, o SITAR seria desmantelado pelo governo de Fernando Collor, e a aviação regional podia crescer e aparecer para todos os lados possíveis. Foi neste caminho que a TAM, icônica marca do comandante Rolim Adolfo Amaro, pisou em Blumenau. Junto do aeroclube, estariam roncando também tipos como o Cessna Caravan e os Fokker 27 e 50, que a partir de 1994 inauguravam uma nova fase do transporte aéreo de Blumenau: o de passageiros.

Eram alguns voos por semana, na maioria feitos com os Fokker, dado um tempo em que a demanda de passageiros, outrora reprimida, fazia valer a ideia. No rádio, entre aeroportos prestigiados do estado e do país, as emissoras costumavam dar os horários dos voos e as condições para pousos e decolagens no Quero-Quero. Raros são os registros da atividade do aeródromo nos anos 1990 e este abaixo, de Darcisius Falaster, não tem como encher de saudosismo quem viu, viveu ou sempre teve curiosidade de ver como eram os tempos da Blumenau ligada pelo ar.

Vídeo: Darcisius Falaster
Bandinha e autoridades recebem comitiva da TAM na abertura dos serviços da companhia do Cmdt. Rolim em 1994. Operações duraram pouco por conta da modernização da frota e o acidente trágico do Fokker 100, em 1996 | Fotos: Janaina Corrêa

Infelizmente, não durou muito. A paulatina modernização da frota da própria TAM com os jatos Fokker 100, somada a tragédia com um deles (o PT-MRK, que caiu após a decolagem de Congonhas, em 1996), abreviaram muito cedo este serviço interessante de transporte na cidade. Isto não apenas por conta da estrutura da pista, pequena para jatos do porte do Fokker 100, mas também pelo receio do então prefeito Renato Vianna de uma operação como esta em uma região densamente povoada como no entorno do aeroporto.

Durou pouco, é verdade, e por várias vezes tentou-se colocar na mesa de debate a necessidade de retomar-se os voos partindo de Blumenau para os grandes centros. Outras duas companhias, as antigas Ocean Air (depois Avianca Brasil) e NHT, tentaram reaver o serviço, mas a demanda passou a ser atendida com mais intensidade pelas rotas partidas do Aeroporto de Navegantes, o que parece ser, até hoje, um transtorno “compreensível” para quem precisa sair de Blumenau para usar um avião.

Vagamente, chegou-se a se falar da vinda da Azul para a cidade, com os Cessna Caravan ou até mesmo o ATR 72, mas tudo não passou de sonhos distantes. O debate pelo Quero-Quero ativo para os voos comerciais se perdeu no tempo e a fala de Felix Theiss, diante disso, parece mais delírio do que uma realidade. Atualmente administrado pela Seterb, o Quero-Quero continua sendo um reduto dos valentes jovens e moças do Vale que teimam em desafiar as alturas fascinados pela rica arte de voar.

Antigo anuncio de rotas aéreas para Itajaí e Blumenau da Real-Aerovias. Um dia, ter uma linha aérea de Blumenau direto aos grandes centros será realidade ou apenas papo delirante? | Foto: Antigamente em Blumenau / Magru Floriano

E enquanto as autoridades e a classe empresarial se batem em busca do retorno dos voos comerciais, os pequenos Cessna, Neiva (agrícolas), Piper, Paulistinha e alguns pequenos jatos, além de algumas raridades aeronáuticas, sobem e descem a pista que ladeia a Rua Dr. Pedro Zimmermann. Marcas de quem continua os antigos sonhos de visionários de anos atrás, que sentados na mesa de um bar alucinavam como Ícaro.

Os blumenauenses ainda olham para os céus admirando os aviões que cortam nosso espaço aéreo. Seja os helicópteros como o Arcanjo e tantos outros, jatos rumando a grandes centros ou até os pequenos aviões do Aeroclube com futuros pilotos galgando os ares realizando o sonho de gerações de ontem e hoje.

Ainda queremos voar, queremos estar no centro do voo nacional com nosso aeroporto (e que assim seja no futuro), mas sem esquecer de uma história teimosa que começava com um planador, deslumbrava com um biplano inglês e seguia-se com a insistência de usarmos o ar ao nosso favor, para nos ligar ao Brasil e para dominarmos os céus como os pássaros que gorjeiam nossos campos verdes.

É, o blumenauense é um eterno Ícaro, e assim o continuará por muito tempo.

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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