InícioHistóriaHistória: Amazonas, o primeiro orgulho azul do Garcia, por André Bonomini

História: Amazonas, o primeiro orgulho azul do Garcia, por André Bonomini

No último domingo (12), o Reino do Garcia voltou a celebrar uma vitória máxima no futebol citadino: diante do Edmundo Hort lotado, o Canto do Rio sacramentava a conquista em final disputada contra o Salto do Norte e com a vantagem embaixo do braço, deu uma volta olímpica vencedor que não vinha desde 1993, junto do cobiçado troféu Luiz Carlos Koch, como campeão municipal.

Tradicional na esquina do Ribeirão Garcia, na Rua Santa Maria, o Canto do Rio nasceu em outubro de 1959 e a fama no futebol amador blumenauense é longa. O estádio Edmundo Hort, junto com o salão e a presença maciça da comunidade em volta são seu maior patrimônio. Um grupo que vai junto para campo buscar nas quatro linhas as glórias que fazem daquele pedaço de chão tão famoso, seja como relicário de histórias ou alçapão para os adversários.

O time do Canto do Rio, campeão municipal de 2021. Fazer bom futebol está na história do sul de Blumenau, vide o clássico Amazonas Esporte Clube, um pioneiro blumenauense nas quatro linhas (Canto do Rio)

Alias, a conquista do Canto do Rio é o reforço de uma tradição antiga de bom futebol nascido no sul de Blumenau, algo que contraria a lógica de dificuldades no município. Sem desmerecimentos a história de clubes ou regiões da cidade, o Garcia é pródigo quando o nobre esporte bretão está em disputa, e mais precisamente o Progresso é berço de legendas dos gramados citadinos, sendo que uma delas vive até hoje na memória dos mais velhos como motivo de orgulho, confraternização e união da turma do chão de fábrica.

Há 110 anos, a ideia de um punhado de operários tornava-se realidade na ainda distante localidade no sul da cidade. Dos corredores da antiga Empresa Industrial Garcia (EIG) nascia a sigla anilada que seria motivo de jornadas dominicais de bola, emoção, gritos acalorados, gols, algumas tristezas e muitas alegrias. Era o Amazonas Esporte Clube, o primeiro orgulho esportivo trajado de azul que surgia no bairro, dando início a uma tradição movida a momentos inesquecíveis, personagens e, claro, gols antológicos.

Nascido no chão de fábrica

Mesmo registrado em 1919 (e ainda depois do então Brasil), o Amazonas pode se considerar, seguramente, o primeiro time de futebol organizado em Blumenau. Em 1911, um grupo de entusiastas da bola conhecido como “Jogadores do Garcia” vinha dos mais variados setores da EIG trazendo no pé as manhas do futebol a risca. E das partidas informais foram nascendo compromissos sérios, travados inicialmente num pasto onde, hoje, está o 23º Batalhão de Infantaria.

Primeira bandeira do Amazonas, datada de 1920, embora o registro da equipe – criada informalmente em 1911 – foi feito apenas em 1919 (Adalberto Day)

Duas mudanças depois e, em 1926, o AEC já tinha até casa própria, e não era qualquer estádio: localizado a beira da Rua Amazonas, junto a própria EIG, a praça era considerada por muitos a mais bela do estado à época. E não era apenas o futebol que estava ali, eventos da Garcia ou da comunidade também tomavam lugar no campo, além de ser point da juventude descompromissada nos fins de semana.

No entanto, o majestoso estádio do bairro era o alçapão para os adversários. Clubes da cidade e de outras partes do estado corriam o risco de sair defenestrados no placar final diante do esquadrão anilado. O AEC não deixava a desejar em matéria de elenco, com nomes que a torcida (de cabelos brancos) celebra até hoje em fragmentos passados de tardes de emoção, sobretudo nos embates contra os primos ricos blumenauenses Palmeiras e o Olímpico, em jogos e torneios.

Um dos maiores e mais belos estádios de SC, o estádio da EIG era o alçapão dos adversários, palco de glórias e o point da juventude nos domingos. Abaixo, a localização do complexo, próximo a EIG e abaixo da linha da Rua Amazonas (Adalberto Day)

Entre 1919 e 1944, o AEC viveu um tempo áureo dentro do amadorismo, com várias conquistas citadinos. Uma delas foi o certame organizado em 1939, nas celebrações dos 20 anos do então Brasil, sendo o dito “convidado indesejado” da festa do clube alviverde. A simplicidade de estrutura era compensada no campo, na pura raça e determinação do plantel de operários que não via limites no campo da bola e nem mesmo os tempos de guerra pararam a iniciativa por completo, a não ser deixar a marca temporária da troca de nome (Amazona e, por um curto período, Aimoré).

Enxurrada, últimas vitórias, sonhos e o fim

A chegada dos anos 1960 provou-se difícil para muitos clubes e o Amazonas sobrevivia as adversidades graças ao esforço quase que hercúleo de diretorias abnegadas e torcedores fanáticos com suas bandeiras azuis e sede de vitória. No entanto, um grande baque neste período foi a enxurrada de 1961, onde a violência das águas destruiu instalações e levou com a lama troféus, documentos e outros registros preciosos.

Foi um período de calamidade em todo o Garcia, e para o AEC, a tétrica cena de três crianças mortas pela enxurrada encontradas presas nos alambrados do estádio foi um dentre tantos choques sentidos naquele dia. Com muita teimosia e encarando o momento de improviso, o anilado foi se refazendo da lama e, exato um ano depois, já estava de volta ao seu campo, reinaugurado com uma derrota para o Marcílio Dias, de Itajaí, por 6 a 2, mesmo saindo a frente no placar.

As águas invadem a estrutura do clube na enxurrada de 1961, levando vidas, documentos e objetos preciosos do passado do AEC. Abaixo, um dos quadros do anilado, de 1961 (Adalberto Day)

Os anos se seguiram e até o sonho do regresso ao profissionalismo bateu por lá. Torneios estaduais e novos voos estavam no caminho da diretoria, mas não das máquinas que, anos depois, selariam o destino final de um velho clube. Enquanto o AEC sagrava-se campeão de torneios da Liga Blumenauense de Futebol (LBF) em 1972 e 1973, a EIG começava o processo de incorporação pela vizinha Artex, num movimento que mudaria a fisionomia do Garcia e jogava no ar o sinal: o anilado não passará destes tempos.

Adalberto Day (para este colunista, o maior torcedor anilado que há) conta, em palavras emocionadas, como foi o fim do Amazonas naquele período entre 1973 e 1975. Recordando por alto as palavras do mentor, a decisão da diretoria revoltou torcedores, que praticamente saquearam a sede do clube para levar o que podiam, de troféus e faixas de campeão a documentos, quadros, uniformes e outros tantos objetos.

Adalberto Day, mentor deste colunista, um eterno torcedor anilado (Adalberto Day)

Ironicamente, o AEC (ou o que sobrou do time) ainda teria tempo de conquistar, jogando pela Artex naquele 1974, o Campeonato Sesiano de Futebol, torneio promovido pelo Sesi e cuja equipe representava a empresa dos Zadrozny. Na final, a equipe bateu a Móveis Cimo, de Rio Negrinho, por 2X1. A mesma Artex que tinha lhe colocado, mesmo que indiretamente, a lápide na trajetória do anilado, levanta um troféu conquistado com o quase finado clube que “matou”.

A última conquista a nível regional foi a Taça Governador Colombo Machado Salles, com a participação, além do AEC, das equipes do União (Timbó), Marcílio Dias (Itajaí), Carlos Renaux (Brusque), Tupi (Gaspar) e Humaitá (Nova Trento). Foi um certame difícil, alternando bons e maus momentos, mas que acabou de forma feliz para o anilado, derrotando no jogo final, em julho de 1974, o Humaitá por 5X1, sendo também a última partida oficial do clube.

De volta a memória de Beto, o mentor lembra quase que minunciosamente o dia e o momento do golpe final ao velho (e ainda bonito) estádio do anilado. “Foi em 26 de maio de 1974, um domingo bonito com sol mas sombrio pela circunstância, que o Amazonas se despediu para sempre do seu magnífico estádio. Uma baixada que foi impiedosamente aterrada, pela Artex, em trabalhos de terraplanagem executado por duas possantes maquinas da Construtora Triângulo”.

Os últimos campeões do AEC, da Taça Gov. Colombo Sales, em 1974: Em pé, Raul Cavaco, Girão, Deusdith, Eloy, Vilmar e Assuncao. Agachados, Poroca, Verninha, Gibi, Nilson Bigo, Tarcisio Torres e Ademir (Adalberto Day)

Das memórias do AEC não restou nada nas atuais instalações da Associação Artex, muito menos nos acervos da Coteminas, até por lógica. Os saques a sede do clube praticamente fragmentaram as memórias do anilado entre várias pessoas, torcedores antigos como o próprio Beto Day, que guarda até hoje raridades: camisas, bandeiras, fotos e memórias de domingos de emoção soterrados naquele domingo de 47 anos atrás.

De tempos em tempos, ex-jogadores e torcedores do AEC ainda se reúnem para matar a saudade de derbies, gols inesquecíveis e momentos passados, sempre uniformizados com o clássico azul-e-branco e com sorrisos que não escondem a saudade. Tentativas de volta aos gramados foram várias, como a de 2016, onde até uma equipe foi formada, mas nada que durasse, que trouxesse de volta aqueles domingos anilados ao pé da centenária EIG.

A última tentativa de reviver o anilado, em 2016. O clube ainda permanece na memória dos que participaram de momentos de emoção e gloria nas quatro linhas, a prova de que bom futebol também nasce no Reino do Garcia (Reprodução)

No azul da camisa do Canto do Rio, contemporâneo do Amazonas (o clube nasceu em 1959, vale lembrar), talvez ainda resida um pouco de saudade do que eram as tardes de futebol no Garcia. Uma paixão renovada ano a ano em cada campeonato e encontro do clube, hoje o encarregado de levar a frente a tradição do sul blumenauense de grandes selecionados, compostos de jovens simples das mais variadas ocupações e que sonham, comem, dormem e vivem, entre as esquinas, dos lances com uma bola no pé.

Enquanto houver um anilado, sempre existirá para o futebol de Blumenau o saudoso, perigoso e glorioso Amazonas, lá do sul de Blumenau, onde tem bola, tem gol, tem história e, claro, tem Canto do Rio.

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é WhatsApp-Image-2020-09-11-at-11.17.10.jpeg
Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), filho do Progresso, do Reino do Garcia. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como produtor e locutor da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é poeta “de fim de semana”, blogueiro e colunista.

Quer receber as notícias do Portal Alexandre José direto em seu celular, pelo WhatsApp? Então clique aqui e entre em nosso grupo. Informação em tempo real, onde quer que você esteja!

Notícias relacionadas

Deixe uma resposta

Últimas notícias

    error: Toda e qualquer cópia do Portal Alexandre José precisa ser creditada ao ser reproduzida. Entre em contato com a nossa equipe para mais informações pelo e-mail jornalismo@alexandrejose.com