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Trânsito: enquanto os órfãos choram, os réus do trânsito abraçam; por Márcia Pontes

Faz 13 anos que a Sheila passou a morrer todos os dias. Ela e o filho fazem tratamento psicológico desde que o marido foi morto em uma colisão no trânsito envolvendo um motorista embriagado. A família do Ismael Cavalheiro morre a cada dia desde 2013, assim como as famílias da Suelen, da Amanda, do Paulo Gil, da Rosana, da Maria, do João, da Adriana e de tantos outros que sofrem esquecidos.

Nenhum dos réus está preso e os casos se arrastam faz anos na Justiça, que também parece morta para o júri popular. Nesse Dia de Finados, enquanto os mortos em vida choram os seus mortos no trânsito, a coluna faz questão de não deixar cair no esquecimento.

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A dor maior do mundo

Não existe dor maior nesse mundo do que a dor da morte. Independente de ser pai, mãe, filho, sobrinho, primo, amigo, colega de trabalho, a dor é imensa. A dor da perda não conhece obstáculos: nem idade, nem sexo, nem condição social. Não conhece hora nem tempo.

Mesmo sem conhecer essas pessoas muitos não conseguem se colocar por 1 minuto no lugar de um pai, de uma mãe, de um filho, de irmão que perdeu alguém querido. Se essa morte não foi por causas naturais e poderia ser evitada, a dor aumenta e soma-se à revolta, à frustração, ao “como seria” se aquele motorista que consumiu bebida alcoólica e dirigiu não tivesse cruzado o caminho de outras pessoas.

Lápide fria, abraço quente

Nunca se saberá o que se passa na cabeça de um réu que com a sua irresponsabilidade bebeu, dirigiu e criou o nexo causal que explica a colisão e a morte. A menos que eles digam como se sentem, se sonham com os mortos, se importam-se ou não com a dor das famílias e das vítimas sobreviventes nunca se saberá.

Não se sabe se por vergonha, indiferença ou por cara de pau mesmo eles nunca falam como conseguem continuar vivendo as suas vidas. Ou por orientação dos advogados de defesa, já que qualquer pedido de desculpas às famílias costuma ser visto como “confissão” do crime pelo qual são acusados.

O que se sabe é que para quem é familiar de mortos no trânsito todo dia é Dia de Finados. Não existe dia certo para olhar para a lápide fria e chorar ausência enquanto quem bebe, dirige, mata e em muitos casos ainda tenta culpar as vítimas, esse sim: pode abraçar os pais, o filho, os irmãos, os amigos. E quem sabe até chorar pelos seus mortos também com se a dor dele nem chegasse perto da dor coletiva que causou e ainda causa.

Para quem é familiar de quem morre pelas mãos de quem faz o trânsito violento o Dia de Finados é dia de reatualizar a dor, dia de sofrer e chorar pela Justiça que nunca vem. É dia de morrer novamente como faz todos os dias, só que com a chancela de uma data comemorativa.

Dia Mundial em Memória das Vítimas

Desde 1995 o terceiro domingo de novembro foi instituído pela ONU como o Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes de Trânsito. Tem até nome chic: WDR, World Day of Remembrance.

Dia de discursos, de holofotes, dia da imprensa entrevistar as famílias para lembrar da dor da espera por uma justiça que nunca chega, dos processos mofando nas gavetas do Judiciário, dos recursos dos recursos dos recursos que só beneficiam os réus no país em que Direito Penal é para passar a mão na cabeça deles.

É dia de distribuir flores amarelas, fazer protestos, mais discurso bonito e institucionalizado que mais funciona como um tapa na cara de quem realmente paga a pena no lugar de quem mata no trânsito: os familiares e amigos das vítimas.

Origem do Dia dos Mortos

A origem do Dia dos Mortos ou Dia de Finados remete ao século II, quando os cristãos começaram a rezar pelos falecidos e a visitar os túmulos deles. O costume de rezar pelos mortos foi sendo introduzido aos poucos na Igreja Católica.

No dia 2 de novembro o monge beneditino Odilo, da Abadia de Cluny, na França, instituiu a todos os que seguiam a Ordem Beneditina a obrigatoriedade de se rezar pelos mortos. A partir do século XII, a data se popularizou em todo o mundo cristão.

O Dia de Finados é celebrado no dia 2 de novembro porque no dia 1º é comemorado o Dia de Todos os Santos – data que celebra todos os que morreram em estado de graça, mas que não tiveram a oportunidade de serem canonizados ou que não são lembrados em orações por ninguém.

Neste dia e, de preferência, em todos os outros, acendam-se velas para iluminar os corredores e alçapões escuros da Justiça, que já é cega de nascença.

Acendam-se velas para iluminar a mente dos legisladores desse país para que façam leis nada brandas e que façam qualquer motorista pensar bem mais ao ponto de mudar de idéia antes de dirigir depois que ingeriu bebida alcoólica.

Acendam-se velas para reacender a esperança dos órfãos e acabar com a impunidade dos réus.

Luz. Muita luz para nos tirar dessa escuridão da impunidade.

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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