InícioMárcia PontesTrânsito: a perigosa naturalização de beber e dirigir, por Márcia Pontes

Trânsito: a perigosa naturalização de beber e dirigir, por Márcia Pontes

O que há em comum entre um motorista que comeu hambúrguer fast food até se empanturrar e aquele que dirige sob o efeito de álcool? Provavelmente, ninguém causou acidente ou morreu no trânsito porque encheu a cara de hambúrguer, mas diariamente o consumo de bebidas alcoólicas vem causando tragédias que poderiam ser evitadas no país onde anualmente cerca de 60 mil pessoas perdem a vida no trânsito. Sim, a comparação é digna de uma visão de toupeira para o grave câncer social causado por beber e dirigir, mas não é minha e toca na ferida aberta causada pelo álcool e direção. 

“Dirigir bêbado também não causa mal a ninguém. A pessoa assume um risco de causar mal e, caso cause mal a alguém, deve ter sua pena agravada. O simples fato de assumir um risco, sem causar dano a terceiros, não é motivo para nenhum tipo de sanção.” Essa foi a declaração do presidente do diretório do partido Novo em Joinville, Kahlil Elias Assib Zattar, em uma publicação no Twitter.

Quando o cara que estaciona o carro no boteco com a chave do carro numa mão e o copo de bebida alcoólica na outra, sabendo que vai dirigir depois, defende bizarrices como essa já é absurdo, mas quando isso parte de dirigentes de partidos políticos, de representantes da sociedade, que um dia podem ser eleitos para fazer leis, aí a gente começa a ter medo.

E aí, concorda? Beber e dirigir seria tão natural assim, amplamente aceito pela sociedade ao ponto de só se punir quem efetivamente causou algum mal a alguém?

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Se as leis de trânsito fossem assim

Se o legislador, que é um político que faz leis, alterasse o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) com base nessa forma de pensar, na prática seria assim: o cidadão está com o estado psicomotor visivelmente alterado pela bebida, dirigindo em zigue-zague, colocando a si próprio e os demais em risco e, mesmo que o ato perigoso ao volante fosse interrompido pela fiscalização, não se poderia fazer nada! Afinal, ele ainda não causou o mal maior. A sociedade teria de esperar o condutor sob o efeito de álcool machucar alguém para acionar todo o aparato já sucateado do Estado para socorrê-lo e depois puni-lo.

Se essa rua fosse minha

Defender publicamente que beber e dirigir não faz mal a ninguém remete à falta de inteligência para o enorme problema social que custa bilhões anualmente ao país para atender pacientes que tiram a vez do atendimento a quem adoece de causas naturais.

Certamente vem de quem nunca perdeu alguém que ama pelas mãos irresponsáveis de um motorista que dirigiu embriagado. Uma lógica afetada que exalta a liberdade de beber e dirigir com responsabilidade porque dirigir sob o efeito de álcool já é uma irresponsabilidade.

Daí quando se compara os riscos de dirigir sob o efeito de álcool com comer hambúrguer é o fim da picada! Hambúrguer não altera os reflexos para dirigir, não compromete a capacidade de julgamento para tomar decisões no trânsito.

Falando sério: a sociedade inteira preferia que Evanio Prestini, motorista do Jaguar, tivesse consumido uma tonelada de hambúrgueres em vez de bebida alcoólica depois de dirigir e, segundo a Promotoria de Justiça, não ter provocado a colisão que tirou a vida da Amanda Grabner Zimmermann e da Suelen Hedler da Silveira, na BR-470, em fevereiro de 2019.

Sabe aquele motorista que diz que o carro é dele, que pagou por ele e que pode fazer o que quiser em via pública que ninguém tem nada a ver com isso? É o mesmo motorista que ignora que o veículo pode ser propriedade privada, mas revestido de função social. Ignora que o carro pode ser dele, mas que ele vive numa rua de uma cidade e de um país, onde existem leis que devem ser cumpridas.

É o mesmo cara que ignora que quando ele faz o que quer no trânsito com o seu pensamento e ações metade egoísmo e metade indiferença acaba acionando um aparato inteiro mantido pelo Estado: viaturas, socorristas, médicos, hospitais, e por aí vai dependendo da gravidade do resultado da ignorância.

Cegueira moral e ética

Parafraseando José Saramago na obra Cegueira Social, dizer que beber e dirigir não causa mal a ninguém reflete a cegueira moral e ética que se espalha feito pandemia, que causa um grande colapso na vida das pessoas e abala aas estruturas sociais.

No país em que cerca de 60 mil pessoas morrem por ano na violência do trânsito e muitos que a provocaram beberam e foram dirigir, dependemos – infelizmente – de políticos para fazer as leis mais duras que esperamos.

Mas, quando um presidente de partido diz publicamente que beber e dirigir não faz mal a ninguém, as nossas esperanças de dias melhores e de Justiça ficam ameaçadas.

Saber ler os sinais

Sim, dirigir bêbado causa mal: ao bêbado que dirige, às vítimas dessa irresponsabilidade, à própria família do bebum ao volante. O álcool, aliás, é o maior solvente que existe: dissolve a razão, casamentos, costuma estar presente em todo o tipo de violência e de alguma forma isso vai parar no trânsito.

O pensamento de que “o simples fato de assumir um risco, sem causar dano a terceiros, não é motivo para nenhum tipo de sanção” envergonha, embrulha o estômago, dá nojo!

Eu, a família das vítimas de motoristas embriagados e de todos que não suportam mais ler, ouvir e ver os crimes cometidos por quem bebe e dirige, esperamos que políticos que pensam assim nunca se elejam. Esperamos que suas carreiras afundem e que jamais cheguem a uma casa de leis, principalmente aquelas que modificam o Código de Trânsito e suas leis correlatas.

Mas, para isso, os eleitores precisam saber ler os sinais que vêm da realidade no trânsito e daqueles que podem um dia se tornar legisladores.

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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