InícioHistóriaHistória: Jensen/Frigor e o leite mais famoso de Blumenau, por André Bonomini

História: Jensen/Frigor e o leite mais famoso de Blumenau, por André Bonomini

Não beba leite cru nem cozido. Beba leite pasteurizado!

No casco das clássicas garrafas do Leite Frigor esta frase era ostensivamente estampada. Muito mais do que uma instrução para a saúde do consumidor, ela resumia o avanço sanitário que, em linhas gerais, era também uma bem-vinda vantagem comercial para qualquer indústria de laticínios: o revolucionário processo de pasteurização do leite, inovador em uma indústria blumenauense.

Pasteurização era apenas uma das tantas marcas deixadas nos livros de história e na memória de muita gente pela Cia. Jensen Agricultura, Indústria e Comércio, ou simplesmente Cia. Jensen. Desaparecida há mais de três décadas do cenário industrial blumenauense, a responsável por imortalizar a rótulo Frigor nas manhãs da cidade ainda é uma referencia importante no nosso passado fabril, seja em livros, recortes de jornais ou entre os mais fervorosos entusiastas que guardam embalagens, fotos e até garrafas do famoso leite de todo dia.

No entanto, os forasteiros que passam pela hoje rotatória nas proximidades do novo Terminal das Itoupavas (entre a Rodovia Guilherme Jensen e as ruas Ricardo Georg e Mário Giese) talvez não percebam que muito do que a Itoupava Central é atualmente nasceu naquelas cercanias. Desaparecidas com o tempo, nada restou das antigas casas e o complexo industrial, mas o pouco que resta estão nestas linhas, nas fotos e na saudade de muitos que talvez ainda esperam o leiteiro da Frigor bater a porta para uma viagem saudosa.

O nascimento e o leite porta-a-porta

Fruto do empreendedorismo de Rudolf Jensen, alemão da Schleswig-Holstein, a empreitada começou em 1872 e era muito mais do que um pequeno complexo agropecuário familiar, mas um ponto de convergência de produtores locais que contribuíram no fornecimento da matéria-prima para os produtos processados pela companhia.

Aves, bovinos, suínos, arroz, leite, uma salutar mistura de produção comunitária com economia familiar que fez de uma pequena organização uma afamada legenda entre nomes conhecidos no ramo industrial da cidade. Produtos estes que chegavam a vários cantos do país ainda em estradas, na boleia de caminhões, algo bem diferente e mais “no braço” do que os aviões que os Fontana já utilizavam em Concórdia, no oeste do estado, naqueles idos.

Primórdios da Cia Jensen, no início do século XX (Foto: Reprodução / Página Companhia Jensen)
Panorâmica da Cia. Jensen por volta dos anos 1970. No cruzamento da foto está a atual rotatória entre a Rodovia Guilherme Jensen e as ruas Mário Giese e Ricardo Georg (Foto: Reprodução / Página Companhia Jensen

Mas a área de laticínios era o que tornava a Jensen uma espécie de instituição municipal. E foi em 1937 que a empresa introduziu uma das inovações do setor na época: O processo de pasteurização do leite e derivados, que consiste no aquecimento e resfriamento repentino de laticínios, neutralizando bactérias e microrganismos presentes no formato puro. A nova técnica sanitária significou um salto em qualidade e confiança na marca, que tornou o já popular Leite Frigor ainda mais famoso nos limites citadinos.

Quem é mais “experiente” na cidade talvez lembre com saudade a chegada do caminhão da Frigor pela manhã bem cedinho, logo na hora do café. Cada um dos clientes da Jensen tinha um cartão mensal com as entregas de leite registradas dia a dia. Entregava-se a garrafa vazia e recebia-se do leiteiro (oh figura saudosa!) uma nova garrafa cheia. E incentivo para o consumo de leite, sobretudo o pasteurizado, era o que não faltava, seja por benefício a saúde ou fomento à produção local.

As duas garrafas que este jornalista teve nas mãos nos tempos de adolescente (Foto: Arquivo Pessoal)

Continuando o processo, a garrafa era feita em vidro grosso e com a marca pintada no casco. Ela voltava para a firma, era lavada e novamente enchida com leite para servir, no dia seguinte, ao consumo de outra família. Muitos pela cidade ainda guardam orgulhosos um exemplar do vasilhame como uma peça de recordação de anos dourados e cafés da manhã inesquecíveis.

Na minha inocência de adolescente, cheguei a colocar a mão em duas destas garrafas, de propriedade de meus padrinhos. Um troféu do passado e a prova de que uma daquelas cheias dava pra um dia inteiro ou mais, dependendo da sede láctea da família.

Os anos passaram, a empresa progrediu e, com o falecimento de Rudolf, o filho Guilherme ficou a frente dos negócios cada vez mais afamados na cidade e fora dela. O sucesso do empreendimento era tão destacado no início dos anos 1960 que coube ao documentarista William Gerke registrar em filme uma parte do período de apogeu da firma, responsável também pela vida cotidiana e social numa ainda diminuta e rural Itoupava Central:

Vídeo: Canal professor Albio Fabian
Publicidade de meados da década de 1970, uma linha de produtos de encher os olhos (Foto: Reprodução / Página Companhia Jensen)

Decadência, fim, abandono e saudosismo

No entanto, como em muitas empreitadas familiares do passado em Blumenau, a história de prosperidade se tornou um pesadelo nos anos 80. A Jensen entrou em uma espiral decadente e a competitividade com marcas maiores, somada ao início da crise econômica no país e as enchentes tornaram delicadas as contas da empresa.

As dívidas chegavam a equivaler-se com o capital total, ganhava-se para se manter mês a mês e não se tinha interesse de grupos mais sólidos para aquisição do complexo, muito menos da diretoria em salvar a firma, como o possível arrendamento do abatedouro de aves e frigorífico pela Seara, sequer analisado.

Em 1984, com demissões que atingiram dois terços do total de funcionários e administrada por um empresário paulista investigado pela Justiça do Trabalho por atividades suspeitas, a Jensen fechava as portas depois de 112 anos de trabalho, leite, frios e contribuição a vida industrial e social de Blumenau.

Matéria do extinto jornal O Estado, de janeiro de 1981, decretando o inevitável: o fim da Cia. Jensen (Foto: Angelina Wittmann)

Por anos, o patrimônio da família e da fábrica permaneceu abandonado, quase que intocado e deteriorando-se aos poucos com a ação do tempo. Chegou a ser cogitado, em fins dos anos 1980, como terreno do futuro parque temático de Beto Carrero, mas o que restou desapareceu de fato em meados de 2014, inclusive a antiga residência de Guilherme Jensen e outras casas históricas, tudo tornado entulho e um grande vazio de terras as margens da rodovia.

O patrimônio pode ter virado poeira do tempo, mas nada que apagasse por completo a história e a importância da velha firma para a cidade-jardim. Volta e meia, a Cia Jensen é lembrada por muitos entusiastas do passado, seja como uma indústria forte, de produtos marcantes e do leite que de lá saia, seja por ser o tal ponto de convergência de uma comunidade distante do centro blumenauense e que tinha lá o agito da vida rural, social e profissional. Até uma página no Facebook conta em imagens algumas passagens da empresa, além de reunir ex-funcionários dos corredores da casa.

Mas, como todo passado que emana delícias e lembranças, nada mais justo do que reverenciar o tempo em que tínhamos uma marca de destaque no campo frigorífico. Um pedaço do tempero colonial ia em cada produto da Jensen, um deleite na mesa e no paladar saudoso de muita gente que lá trabalhou, viveu e, claro, consumiu com um certo sorriso de orgulho um pedaço do labor e história de Blumenau, mesmo o físico de tudo tendo virado uma pilha de cruel entulho engolida pelo mato.

Saudosas manhãs de simplicidade, inocência e sonhos dourados. E tudo regado ao bom e puro leite pasteurizado… nem cru, nem cozido, pasteurizado!

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Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), filho do Progresso, do Reino do Garcia. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como produtor e locutor da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é poeta “de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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