InícioHistóriaHistória: sem trem, só trilhos, por André Bonomini

História: sem trem, só trilhos, por André Bonomini

Sabe aquela hora que os olhos brilham? Ao menos, para quem aprecia a história, não tem como não sentir algo diferente. Encontrar uma peça do passado, por mais no “por acaso” que seja, traz a tona antigas histórias de um passado e uma sensação de surpresa indescritível. É um elo perdido, um comprovante material da existência ou do que sobrou dela num canto qualquer de uma cidade de 300 mil habitantes tão mudada com o tempo.

Recentemente, uma simples construção de calçadas revelou um pedaço de memória de cinco décadas atrás. Trabalhadores se depararam com uma barra metálica enquanto escavavam o trecho de um novo passeio público na Rua Bahia, nas proximidades do antigo Pudim Medeiros. A principio, um pedaço de metal de alguma edificação antiga, mas no olhar mais profundo, o brilho de quatro letras e cinco décadas de saudade: EFSC.

Uma composição da EFSC cruza a Rua Bahia, próximo ao trecho onde estavam os trilhos localizados. Muito pouco ainda é feito para preservar o passado ferroviário de Blumenau. Foto: Canal Cesar Blumenau

Em 14 de março de 1971, o saudoso jornalista Luiz Antônio Soares ilustrava as páginas do antigo jornal A Cidade com uma crônica de fazer marejar os olhos: “Sem Trem”. Título curto, conteúdo carregado de lembranças ainda frescas depois da última passagem da locomotiva 331 pelos trilhos da antiga estrada de ferro. No seu caminho ficavam lembranças, prantos, trilhos, fumaça, amigos, tempos que o progresso era movido a vapor e aquelas máquinas mais deslumbravam do que assustavam.

Ascenção e queda

A Estrada de Ferro Santa Catarina (EFSC) surgiu em 1909, fruto da ideia de construtores que sonhavam alto mesmo em tempos difíceis. A ambição era grande: ligar o ainda pequeno Porto de Itajaí até a Argentina, com um entroncamento na linha Rio Negro-Vacaria, em Ponte Alta (trecho entre as cidades de Curitibanos e Lages, na serra) e outro no ramal Itararé-Uruguai, em Herval d’Oeste, até chegar a fronteira, na distante Dionísio Cerqueira.

Parece loucura pensar que tudo isso foi pensado no inicio do século XX. Cidadãos “malucos”, estavam “viajando na maionese”. Como fazer um empreendimento destes a toque de braço? Só na base do sonho não daria pra chegar até o encontro dos hermanos. Mas sabe, eles não chegaram, mas rasgaram trechos, levantaram estações e escreveram passagens hoje perdidas, seja em memórias de velhos senhores, estruturas abandonadas ou preservadas ou, como neste caso, entre trilhos e túneis soterrados pelos dias de hoje.

Primeira estação de trem de Blumenau, no espaço onde, atualmente, está a Prefeitura. Construída em 1909, serviu como principal ponto de parada dos trens na cidade até 1937, quando a operação foi mudada para o novo prédio, na atual Avenida Martin Luther, e que ainda resiste. Foto: Antigamente em Blumenau / Reprodução

Eram coisas de uma Blumenau visionária, que sonhava grande e, por vezes, assumia o protagonismo econômico de um estado inteiro. Antes mesmo que a EFSC nascesse, a máquina já estava aqui: a Macuca, uma locomotiva pequenina mas que foi a desbravadora primeira, abrindo o trecho até a região do Warnow, em Indaial, com seu apito semelhante ao canto dos macucos que a rodeava nos primeiros crepitares nos trilhos.

A EFSC partiu do pequeno porto de Itajaí e foi subindo o Vale: Blumenau, Indaial, Ibirama, Ascurra, Apiúna, Rio do Sul, Agrolândia e Braço do Trombudo. Pronto, dali do Alto Vale ela não passou mais. Com a abertura até a estação São João, já nos anos 1960, a ferrovia que sonhava em chegar na Argentina não passou dali. Os sonhos pareciam ter se acabado, as visões empreendedoras e de “progresso pelo vapor” começavam a esbarrar em outro obstáculo: o isolamento, somando-se ao caminho da então jovem BR-470, que começava a tomar o lugar das máquinas.

Outros dois elementos da EFSC nos livros de história: a Macuca, primeira ferrovia da linha, quando ainda em pleno serviço. Abaixo, a Farroupilha, favela que margeava o Itajaí-Açu, formada em grande parte por ferroviários. Comunidade foi “removida” para a atual Rua Araranguá, as vésperas do centenário da cidade. Foto: Canal Cesar Blumenau

A viagem de trem, outrora programa glamoroso de casais apaixonados e viajantes apressados, foi dando lugar a um saudosismo que não pagava as contas. O trem, esta máquina metálica, ainda era o deslumbre da garotada e a fonte de renda mensal de muitos que, pelos anos 1950, subiam os morros da Farroupilha, nas imediações da Ponte de Ferro, depois de um dia em meio ao carvão e ao calor das caldeiras. Uma comunidade esquecida pela elite, mas outra das marcas que as locomotivas deixaram nos livros e nas fumaças daqueles tempos inocentes (e, por que não, sofridos).

Veio 1971, e no passo do avanço nos transportes, o descaso governamental, o isolamento e o sucateamento pareciam o prelúdio de um momento inevitável: a erradicação. A alegação de ser “antieconômica” pesou na assinatura da ordem que decretou seu fim, e a EFSC estava condenada. Sob o comando de um nervoso José Pacheco, a 331 estalava os trilhos pelas cidades que a estrada de ferro cortava pela última vez.

Lenços, lágrimas, crianças correndo e as linhas de Luiz Antônio Soares, que diziam assim…

Ouço ainda, na meditação das minhas reminiscências, com meus ouvidos de criança, aquele barulhento passar do trem, gostoso como só, amassando as nossas maldosas pedrinhas sobre os trilhos, que as vezes, por serem mais que pedrinhas, resultavam num bom raspe de mão do bigodudo maquinista.

Lembro-me bem do apito. Ele era longo, pontual e por causa dele, na hora da correria, muita bolinha de gude eu perdi. Tenho ainda na memória as marcas das varadas que levei bem aqui, pela imprudência de me aproximar – como numa gigantesca e perigosa aventura – daqueles vagões que ajudei a desbotar com meus dedos, ainda manchados de um vermelho surrado de sol.

Quem ficou verdolengo à beira dos trilhos não esquece. Não pode esquecer. O trem foi o brinquedo grande das crianças pobres. Aquela gente toda nos abanava e nós sorríamos contentes e orgulhosos quando alguém nos jogava um bombom ou um simples papel colorido.

Agora esse golpe. Quem poderia imaginar que as crianças de amanhã não terão a a mesma sorte que eu tive? A delicia de furtar uma voltinha de vagonete na ostensiva distração do feitor. O saltitar infantil sobre dormentes que apodreceram aos nossos pés descalços. E aquele calor afetivo quando nos deitávamos sobre o trilho, ouvindo o barulhinho distante, anunciando que o trem já vinha.

É de não se conformar! Já se viu meu Deus, já se viu criança a beira dos trilhos, nem ver o barulhento passar do trem?”

Crianças e pessoas cercam a locomotiva 331, na última viagem do trem, em 1971, na estação de Indaial. Sucateamento e isolamento foram determinantes para a erradicação da EFSC, por decisão federal. Foto: Canal Cesar Blumenau

E o que resta?

Os anos passaram, muito foi retirado, arrancado, demolido ou cruelmente abandonado. Algumas cidades como Indaial e Rio do Sul mantiveram vivas suas estações servindo a outros fins. São João (Agrolândia), a ponta final da linha, se perdeu no mato. Outras como Ilhota, Apiúna e Trombudo Central viraram residências.

O resto? Se não foi apagado do mapa sem vestígios, foi tomado pelo mato em pontos onde só mesmo facão e muita perna pra bater são precisos para se chegar, como a fantástica Ponte 16, em Lontras. Em Apiúna, na localidade de Subida, o trecho da Ferrovia das Bromélias, recuperado há alguns anos pela Associação Brasileira de Preservação das Ferrovias (ABPF) é a única lembrança operacional da velha estrada que sonhava chegar a Argentina e que, hoje, leva turistas a passeios recheados de charme e história.

Acima, locomotivas abandonadas próximo as antigas oficinas da EFSC, atual Campus 2 da Furb, esperando o desmonte. Abaixo, o estado de abandono da valente Macuca diante da prefeitura. Atualmente, a primeira locomotiva está isolada do público e aguardando a merecida – e correta – restauração. Foto: Antigamente em Blumenau / Reprodução

E Blumenau? As cicatrizes da EFSC ainda persistem teimosas ao tempo, cada uma com sua sorte para lhe salvar de outros destinos. A primeira estação da cidade sumiu abaixo da prefeitura, lugar onde repousa maltratada e isolada a velha Macuca de tantos desbravamentos. A segunda estação é, hoje, uma clinica veterinária na Avenida Martin Luther, a única das três que sobraram na cidade já que Salto Weissbach e Passo Manso desapareceram.

A parada do Capim-Volta ainda está de pé no Vorstadt, grafitada depois de anos largada na longa reta diante da Rua São Bento. A Ponte de Ferro (Aldo Pereira de Andrade) e a Ponte dos Arcos (Eng. Antônio Vitorino Ávila Filho) servem ao tráfego de veículos, bem diferente de velhas estruturas abandonadas na Rua Bahia e na Rua São Paulo, entremeadas pelo mato. As imponentes oficinas da Itoupava Seca hoje abrigam o Campus 2 da Furb, e os apitos dos trens foram trocados pelo burburinho de jovens buscando o futuro.

Muito? Diria até pouco, muito distante de uma cidade que merece redescobrir este passado como ele merece ser revisto. O achado dos trilhos na Rua Bahia parece um alento em meio a tantos desvios de nossa preservação histórica (a “nova Havan” que o diga). Pedaços de metal que parecem pouco mas significam muito, muito por descobrir, muito mais do que fotos e livros pode contar.

Acima, uma composição cruza a Ponte de Ferro, quando esta ainda servia a EFSC. Abaixo, a locomotiva 232 cruza uma viaduto na Ferrovia das Bromélias, em Subida (Apiúna), único trecho em uso da antiga ferrovia, para fins turísticos. A consciência de preservação da memória ferroviária blumenauense precisa sair dos planos e tornar-se, de fato, algo verdadeiro, como na pequena vizinha do Alto Vale. Fotos: Antigamente em Blumenau / Reprodução

É preciso sentir, ver, tocar e, quem sabe, sentir hipoteticamente o calor daquelas máquinas metálicas que faziam furor em meio ao trabalho em nome de um romântico progresso. Cinco décadas depois, sonha-se em pedir mais com tão pouco. Quem dera se aqueles trilhos vissem um trem novamente.

Sonhar é o que se resta para uma loura cidade germânica que ficou sem trem, sem sonhos, só apenas com enlameados e silenciosos trilhos.

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Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), filho do Progresso, do Reino do Garcia. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como produtor e locutor da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é poeta “de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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