InícioHistóriaHistória: o BEC e um velho sonho, por André Bonomini

História: o BEC e um velho sonho, por André Bonomini

Tarde cinzenta em Indaial. Poucos torcedores (muito por conta das consequências da pandemia), cheiro de novo misturado ao de grama molhada da chuva do dia anterior, gente de camisa, calção e chuteira e, outra vez, futebol pelas terras do Vale.

Corte rápido, beiras do fim do jogo: quando o grande Evandro Corbari cantou a plenos pulmões o gol de Juazeiro ao fim da jornada contra o Caravaggio, estava tirado das costas de um velho lobo das quatro linhas o peso de tantos problemas, indecisões, desmandos e temores. Um passado ainda recente, doído, mas que de todo sirva para alguma lição nestes novos momentos.

Hoje, resolvi emular meu distintíssimo colega Emerson Luís, até porque o esporte, em seus meandros passados, suscita o mesmo que também trabalho nas minhas linhas: a história. E de histórias, o futebol de Blumenau vive, e por vezes respira mesmo em dias tão atribulados para o esporte como este. O Blumenau Esporte Clube – o BEC, para os íntimos do “mais querido” – tem várias delas no seu bojo: de aventuras, vitórias, desesperanças e sumiços que culminaram, felizmente, com aquele pontapé tranquilo no simpático Estádio Erwin Blaese.

Antes de mais nada, é preciso saber que, apesar de uma relação conturbada e pesada, Blumenau e futebol tem memórias que vem de décadas e décadas de bola rolando. O nobre esporte bretão começou a virar assunto por estas plagas por volta de 1910, quando a antiga Sociedade Ginástica (Turnverein Blumenau) formou o primeiro time que se tem notícia e, um ano depois, disputou a primeira partida por estas terras: uma derrota contra um combinado de oficiais da Imperial Esquadra Naval Alemã por 5 a 2, em partida disputada em um campo improvisado próximo ao Hotel Holetz.

O Turnverein Blumenau, time da Sociedade Ginástica, o primeiro clube formado na cidade. O primeiro jogo, uma derrota por 5 a 2 para oficiais da marinha alemã (Foto: Adalberto Day)

Pode parecer “piada do destino” rogar praga e dizer que o futebol de Blumenau não dá certo desde o princípio depois de começar com uma fragorosa derrota a sua longa e atabalhoada história, mas não é assim que a banda toca. Inciativas e clubes locais que agitavam clássicos citadinos (como Vasto Verde, Guarani, Amazonas, e outros) aqueceram o esporte por décadas, fornecendo além de grandes jornadas a matéria-prima que agremiações como Palmeiras e Olímpico precisavam nos seus plantéis nas provas estaduais.

Antes do BEC, Olímpico e Palmeiras

Aqui não nos apetece, pelo menos hoje, esmiuçar os caminhos do futebol em Blumenau, mas ao menos chegar até aquele pontapé no gigantão do Vale. Alias, por falar em Olímpico – ou melhor, Grêmio Esportivo Olímpico – é nas salas do clássico clube da Alameda Rio Branco que está aquilo que Blumenau sonha reviver há tanto tempo: uma taça de campeão catarinense, que por sinal, a turma grená tem duas.

Nascido em 1919 como “Sociedade Desportiva Blumenauense”, o Olímpico assumiu o nome famoso 30 anos depois, no mesmo ano que faturava a primeira taça de campeão. Um verdadeiro trator no campo, nenhum jogo acabou com menos de quatro gols grenás, nem mesmo as finais contra o fortíssimo Avaí, que terminaram em duas goleadas acachapantes: 6 a 1 na Alameda e 4 a 1 no antigo Adolpho Konder, na capital.

Um esquadrão bicampeão catarinense: eis o Olímpico de 1964, que somava mais uma estrela a conquista histórica do “trator” de 1949. Nesta foto, do jogo final contra o Inter de Lages estão (não sei se está na ordem) Paraná, Orlando, Nilson Greuel e Barreira. Paraguaio, Jurandir e Lila (depois Quatorze), Rodrigues, Mauro, Joca e Ronald (Foto: Grêmio Esportivo Olímpico)

Passaram-se 15 anos e viria a segunda taça, “numa verdadeira maratona”, como definiria o brioso Vilmar Minozzo: 42 equipes divididas em três zonas, clássicos contra Palmeiras e Guarani e, por fim, uma vitória de 3 a 1 contra o Inter de Lages fez o cansado time grená bicampeão e representante catarinense na Taça Brasil de 1965, ficando pelo caminho em duas derrotas para o Grêmio (RS).

Ainda deu tempo do Olímpico faturar um vice-campeonato estadual em 1970, onde foi superado pelo extinto Ferroviário de Tubarão. O futebol profissional desapareceria no mesmo ano, restando ao Palmeiras continuar a tradição, a toada do futebol com um toque de chopp. Nascido no mesmo ano que o GEO como “Brasil Football Club”, o alviverde da rua que emprestava-lhe o nome era o dono da casa mais tradicional do futebol citadino: o Estádio Adherbal Ramos da Silva, erguido em 1954 e principal palco dos grandes derbies dominicais.

A galeria de troféus do Palmeiras não tinha um título catarinense, como a do rival da Alameda, mas colecionava até aquele feita cinco vice-campeonatos (1927, 1928, 1932, 1947 e 1955) e alguns torneios citadinos de prestígio. Mas estamos nos anos 1970, e o tempo da força parecia ter-se ido, só não se apagavam do calendário dos blumenauenses adeptos do esporte os domingos de estádio movimentado, torcidas fervendo, palavrões para o juiz e bola na rede, quando esta não furava.

Uma das equipes do Palmeiras nos anos 1970, responsável por tocar, durante a década, o nome da cidade na elite catarinense. Cinco vices na galeria e uma trajetória entre altos e baixos (Foto: Reprodução)

Depois de Olímpico e Palmeiras, o BEC

A despeito dos tempos incertos e das incompreensões de hoje, em fins dos anos 1970 o desejo era de ser forte, unir torcidas em torno de uma única legenda. E nesse pensamento, somado a busca de empresários e de incentivos, é que o Blumenau Esporte Clube eclodiu. Nasceu na vontade, mas a ideia de união, de fato, nunca passou de uma fantasia de compêndios futebolísticos da cidade: o verde, branco e grená, apesar de simbolizar as cores de Palmeiras, Olímpico e Guarani, eram apenas símbolos, nada mais.

O esquadrão está feito: Em 1980, o BEC nascia prometendo medir forças e encarar o rival Joinville olho-no-olho. Demorou, o caminho não foi fácil (Foto: Reprodução)

Independente das fantasias, a vontade era grande, o desejo de fazer frente olho-no-olho com o rival Joinville (que nasceu de uma união propriamente dita de Caxias e América, em 1976) era tamanho que, ao findar o primeiro jogo da história do “novo” clube (vitória de 1 a 0 contra o Joaçaba, gol de Cabinho), a torcida já cantava o nome do novo clube a plenos pulmões: o BEC estava ali, contra os boicotes escusos e as derrapadas iniciais.

E quem pensa que tudo eram flores, engana-se. Como dito sempre, fazer futebol em Blumenau é quase como matar um leão a cada rodada de campeonato. Sucederam-se vitórias e derrotas, um primeiro rebaixamento a segunda divisão e a volta em 1987, até que o dia parecia ter chegado, aquele do antigo sonho de muitos: a conquista de um título catarinense. E pela frente, um adversário emblemático: o mesmo Avaí que, lá em 1949, foi massacrado pelo Olímpico em dois jogos que deram a cidade seu primeiro caneco estadual.

Doído: festa de um dos dois gols do Avaí no jogo decisivo do Catarinense de 1988. Itamar assinalou um tento de cabeça, mas a reação não foi o suficiente. Restou a vaga inédita para a primeira Copa do Brasil (Foto: Reprodução)

Infelizmente, na penúltima rodada do hexagonal decisivo, a vitória que faltava para virar o jogo escapou da mão tricolor. Um 2 a 1 diante de uma Ressacada lotada fez a azurra estourar de alegria diante de uma porção de corajosos tricolores que ostentavam bandeiras e tentavam empurrar o time para frente na busca da grande glória. Foi-se o caneco, ficaram os grandes momentos, e um deles foi de fazer acreditar que tudo era bem diferente: a Copa do Brasil.

Diante do Operário-MS, a primeira alegria, a primeira vitória em escala nacional nunca competição nacional. Pena (ou talvez não) o caminho da equipe cruzar com um Flamengo ainda inteiro, de Zico, Leonardo e Cantarelli. Duplo 3 a 1, com Walbert entrando para a história e deixando o seu tento tanto no jogo no Maracanã quanto na apoteótica noite no Monumental do Sesi, com público recorde, gritaria, fumaça no campo e BEC dando suador aos rubro-negros no começo dos trabalhos.

Os anos se seguiram, idas e vindas no Catarinense e participações protocolares no Brasileirão das séries B e C, mas a força estava se indo. o BEC de fins dos anos 1990 não era mais o promissor esquadrão do início dos anos 1980 e os bastidores eram assustadores: crise financeira, rebaixamento, penhora de bens para quitação de dívidas e, em 1998, a desativação do futebol profissional, mas não o fim da teimosia. Longe disso…

Depois do BEC… o BEC

Retornos se sucederam, alguns deles com lances desesperadores e vergonhosos. As tentativas eram bem-vindas, mas o mal era sempre o mesmo que acomete o futebol blumenauense: descrença, falta de incentivo, opiniões contrárias, instabilidades financeiras e algumas arrogâncias. Para arrematar corações, o velho Deba, desapareceria dolorosamente, em dias de setembro de 2007, deixando um buraco impossível de preencher, na paisagem do Ribeirão Fresco e na mente de muitos torcedores do Mais Querido.

Quis então o Metropolitano tentar reviver esta glória antiga, e seria injustiça terminar esta coluna (já meio longa, mas necessária) sem dizer ao menos que os alviverdes seguem a mesma trilha do sonho que o BEC também segue. O Metrô nasceu em 2001, quando falar em BEC era mais para remeter passados do que pensar em futuro, e mesmo com tanto tempo passado, falar do verdão ainda soa jovem, fresco, algo novo diante de um futebol tão antigo e cheio de clássicos como o catarinense.

Tal e qual: Como o BEC, em 1987, Metropolitano celebra o título da Série B estadual em 2018. O verdão surgiu em tempos onde o tricolor remetia ao passado e rasgava em nostalgia. Vive do mesmo sonho em busca de uma gloria maior, mas como a história diz, enfrenta os mesmos esbarrões e incompreensões de se fazer futebol em Blumenau (Foto: FCF)

A equipe viveu seu apogeu, incomodou os grandes e tem seu caneco de segunda divisão como o Blumenau também o tem. No entanto, os mesmos males de descrença e falta de incentivo também fizeram do Metrô uma vítima, como nos rebaixamentos a segunda divisão estadual e a atual situação do time. E tanto Metrô quanto BEC seguem seus sonhos, seus desejos de voltar a figurar entre os grandes, mesmo que de olhos turvos procurando um horizonte, uma trave para se fazer o tal do gol.

Mas muito além disso, o futebol de Blumenau, mesmo com todo o caminho ruidoso a percorrer, ainda sonha em ver novamente aqueles domingos áureos de bola rolando, estádio cheio, emoção e conquistas. Falta tudo, mas não falta vontade de teimar contra tudo, como se essa realidade complicada e as verborragias de quem fala que “este esporte não é importante” só existisse hoje. Não mesmo! Pergunte a quem sabe ou viveu tudo isso.

E assim, passados 102 longos anos, chegamos a aquele pontapé no Erwin Blaese. Se os fantasmas passados estão superados, se o sonho de ser grande será bem organizado dentro e fora de campo, isto só o futuro dirá, mesmo que ele pareça tão incerto. Depois do gol de Juazeiro, o velho sonho continua para os tricolores que ainda acreditam teimosamente, como eu, que “o pavilhão verde, vermelho e branco veio para ficar e vencer”.

Pode apitar, juiz!

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Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), filho do Progresso, do Reino do Garcia. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como produtor e locutor da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é poeta “de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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