InícioHistóriaHistória: Farroupilha, passado e esquecimento, por André Bonomini

História: Farroupilha, passado e esquecimento, por André Bonomini

Se você é do tipo que ainda acredita que Blumenau é a tal da “Alemanha sem passaporte” propagada em outros tempos, consolidada na tradição germânica e construída pelas famílias ditas “tradicionais” que aqui vivem, talvez vai me chamar de “esquerdista” ou vai negar a memória escrita diante dos seus olhos, como tanto já foi visto neste país nos últimos tempos.

Acredite, meu amigo e amiga, Blumenau (e o Vale como um todo) não refletem, em muitos ocultos, a pujança econômica que tanto se propala pelos cantos dos grandes centros. Escondidas, quase desconhecidas, estão comunidades que sofrem com a carência de recursos, com a falta de atenção e oportunidades, vivendo a margem da verdade de um grande município e, por que não, esquecidas e marginalizadas pela sua condição de vida modesta, batalhada e sofrida de tanto tempo.

Foto: Adalberto Day / AHJFS

Dizer que Blumenau não tem algo, na sua paisagem, que se pareça ou seja mesmo uma dita “favela” (preferível chamar de “comunidade”) é demagogia ou eterna fantasia. Tantos que aqui chegam em busca de outra chance, tantos tangidos pelas dificuldades econômicas da vida ou (infelizmente) em busca de uma facilidade de uma vida a margem da lei vão a procura destes núcleos. Comunidades carentes que, mesmo com alguma coisa feita, muito precisam para consolidar a sua dignidade, o seu direito de serem, de fato, cidadãos blumenauenses.

Este texto é para lembrar que, nem sempre, a coluna de história é motivo para revirar o passado bonitinho e brilhante da loura Blumenau. A memória de tempos passados também reserva histórias de gente que não viveu a “agitação social” de uma cidade ainda jovem e cosmopolita. Muitos destes bateram ferro as margens da EFSC, na operação diária dos trens pelo Vale, tudo para chegar aos domingos e vibrar de alegria com um gol do Palmeiras nas tardes de futebol no Deba, ainda acessível a uma parcela destes.

Nas pequenas vielas da Farroupilha. Ao findo, a Ponte de Ferro, símbolo da atividade de muitos que lá viviam. Foto: Adalberto Day

Quem hoje passa pela Ponte de Ferro (Aldo Pereira de Andrade) talvez não conseguiria imaginar que o morro verde ao lado esquerdo, guarnecido pelo encantador Museu da Água no topo do Boa Vista, abrigou o que sabe-se bem ser tecnicamente a primeira comunidade carente da então cidade-jardim. Encravada naquele morro, modestíssimos casebres abrigavam famílias humildes sem o canto reservado para morada na cidade que as acolhia e contava com sua mão-de-obra diária.

A comunidade

A Farroupilha, nome pela qual era conhecida, era uma comunidade humilde, sofrida e doída, mas eclética e de porta aberta por várias etnias, ideologias, vivências. Homens que, na maioria, vieram para a construção de trechos da EFSC, como a própria ponte, o túnel e outros tantos ramais. Junto destes, outros tantos vinham à cidade em busca de vida melhor, recomeços, de uma nova chance para a si próprios e para a família.

De poucas casas feitas em restos de madeira e telhados, logo o local já ocupava boa parte do então Morro da Caixa d’Água, local da antiga ETA I (hoje Museu da Água). As primeiras (e únicas) imagens da Farroupilha datam das décadas de 1930 e 1940, sendo esquecidas sabe-se lá por quanto tempo em algum álbum ou arquivo. Já a denominação do lugar, que mais lembra um termo histórico gaúcho, podia soar como pejorativo, maltrapilho ou desleixado, mas tornou-se uma forma de tratamento sentimental de quem por lá vivia.

Uma comunidade vibrante, mas sofrida à margem da cidade que pulsa do outro lado do rio. Foto: Reprodução

Só que não se engane com tempos de flores em meio a vida humilde. Da mesma forma que as alegrias simples apareciam, a dificuldade diária era dobrada e imensa. A manutenção das vielas de chão batido era na base da picareta, na pá, no autêntico trabalho braçal.

Ao mesmo tempo, os moradores tentavam se defender das disputas judiciais contra um cidadão de nome Roberto Baier, um dos proprietários da parte oeste das terras ocupadas pela comunidade. A cidade pulsava no lado direito, e os obreiros do dia no lado esquerdo assumiam, no segundo turno do dia, as vezes de zeladores e defensores do quinhão grilado.

Mas a Farroupilha, no cerne, era agito, um canto de vida que, se não era “expressão” na cidade, tornava-se visível no futebol e de uma forma um tanto surpreendente. Os mais apaixonados torcedores do antigo Brasil/Palmeiras (o BEC como conhecemos hoje) vivam na Farroupilha e lotavam as arquibancadas tanto no Deba quanto na baixada, em dia de jogo ou do clássico contra o eterno arquirrival, o Olímpico.

Nsa tardes de jogo no Deba, a torcida do alviverde tinha o coro maior da turma da Farroupilha. Foto: Reprodução

Nas fileiras dos estádios, era como uma genuína torcida do povo. Não havia distinção de classe na torcida do clube verde da Palmenalle, onde ricos e pobres pulavam juntos a cada gol. De um punhado de loucos nascia a Torcida Farroupilha do Palmeiras, organizada com batuques e bandeiras verdes do clube pelas ruas, na primeira provocação aos simpatizantes grenás da “área nobre” da cidade, naturalmente a Alameda Rio Branco.

O fim, o problema e o esquecimento

Só que um dia, a história acabou tendo um fim e, em tempos de luxos e brilhos, a humildade teria que sair da paisagem pelas mãos do próprio município que viviam. Em 1949, por ventura dos preparativos para a comemoração do centenário no ano seguinte, a comunidade foi extinta. Os moradores foram transferidos para outros locais, sobretudo nas ruas Araranguá (Garcia) e Pedro Krauss Sênior (Vorstadt), que se revelaram “perfeitas para ocultar” aquele núcleo de famílias simples e construtoras do dia.

A incerteza, agora, passava a beirar o perigo quando o que restou da comunidade se amarrava em morros ainda mais íngremes no meio do mato quase virgem destes locais. Pode-se dizer, sem medo de errar, que o problema das moradias irregulares de Blumenau, passado para baixo do tapete no Centenário, tornou a ser a demanda que ainda hoje acalora debates e é, infelizmente, terreno fértil para a corrida política.

O auge de extensão da Farroupilha. Brigas de posse de terra e esquecimento acabaram com o desaparecimento da comunidade para locais nas ruas Araranguá e Pedro Krauss Sênior. Foto: Acervo Bruno Kadletz

Casas em morros, posseiros e outros elementos demonstravam ser as únicas opções de famílias humildes que criavam verdadeiras vilas em torno de um lote pequeno e amarrado a um morro alto. Nas grandes enxurradas e enchentes, registros de desmoronamentos de casas eram quase corriqueiros e, só agora e muito lentamente, o velho problema da regularização parece estar sendo debelado, no começo de um trabalho longo e que parece sem fim.

O esquecimento histórico, ao mesmo passo, pairou sobre a memória da velha comunidade e o que ela fez surgir, até por uma certa conveniência de ilustrar a tal “Alemanha sem passaporte” que dissera no primeiro parágrafo. Por vaidade ou por forma de vender a imagem de cidade “100% bonita e sem pobreza”, a Farroupilha virou uma espécie de tabu histórico e caiu de tal forma no underground citadino que frases como “Blumenau não teve (nunca teve) favelas” viraram habito. Negligência nada velada.

Isto perdurou, de certa forma, até 2007, quando a jornalista Magali Moser resolveu promover uma espécie de choque de realidade aos vaidosos teimosos com uma verdade tortamente construída. Nas páginas do clássico Jornal de Santa Catarina eram expostas para quem queria (ou não) ver a tal Farroupilha que tanto era falada as escondidas e ocultada. Lá estavam elas, as famílias em casebres simples, demonstrando que aqui também haviam as tais favelas que ninguém em Blumenau (ou pelo menos os mais bairristas) queriam saber.

O choque: jornalista Magali Moser abre a realidade de passado e presente das comunidades em Blumenau, desde a Farroupilha. Foto: Reprodução / JSC / Antigamente em Blumenau

Felizmente, a memória não é cruel com quem sabe a história que foi escrita e que não há botão de reset para ela (neste caso, nem deveria). A memória da Farroupilha, tão oculta e esquecida, jamais deve ser apagada, sobretudo em memoria de quem também (e verdadeiramente) ajudou a construir a cidade do passado que reflete no hoje, e como tantos grandes centros do Brasil, foi empurrado para uma margem oculta por tradições caducas, sombras que a dita “sociedade” teima em não enxergar e enfrentar.

E nesta crônica fica um pouco do que aquelas famílias, dos simples casebres do Morro da Caixa d’Água, fizeram para a cidade. Se por um momento a história lhe virou as costas, esta tem o dever de lembra-la como exemplo e como recordação verdadeira e sem ocultismos.

À Farroupilha, o respeito. Sem mais.

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Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), filho do Progresso, do Reino do Garcia. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como produtor e locutor da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é poeta “de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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