InícioMárcia PontesTrânsito: sua responsabilidade salva vidas, por Márcia Pontes

Trânsito: sua responsabilidade salva vidas, por Márcia Pontes

A mensagem parece óbvia e não é só no trânsito que a responsabilidade salva vidas, mas esse é o tema da Semana Nacional de Trânsito, realizada anualmente de 18 a 25 de setembro. Está no artigo 326 do Código de Trânsito Brasileiro e ações são realizadas em todo o país pelos órgãos do Sistema Nacional de Trânsito. O objetivo é conscientizar todos os envolvidos, sejam eles usuários do trânsito e principalmente os gestores, que planejam e administram o trânsito nas cidades.

Mas, se existe uma pergunta que não quer calar é: por que a sociedade se une em torno do tema trânsito seguro apenas em datas comemorativas e não em todos os dias do ano? Será que essas mensagens educativas da Semana Nacional de Trânsito sensibilizam mesmo as pessoas ou não passam de jargões que duram apenas uma semana?

Na última reunião do ano (2020) do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) foi aprovado o novo tema para as campanhas educativas de trânsito de 2021 utilizado para subsidiar todas as ações voltadas para a segurança viária organizadas pelos órgãos do Sistema Nacional de Trânsito (SNT). Todo ano é assim: escolhe-se um tema que será trabalhado por todos no país ao longo da Semana Nacional de Trânsito.

A veiculação da mensagem educativa relacionada ao tema escolhido é obrigatória nos meios de comunicação e em toda peça publicitária destinada à divulgação de produtos da indústria automobilística. Os gestores no topo do Sistema Nacional de Trânsito afirmam que o objetivo é salvar o maior número de vidas possível.

Impacto nas pessoas e na sociedade

A literatura mundial e as produções científicas na área de trânsito têm fundamentado e demonstrado que nos países mais pobres ou em desenvolvimento a violência no trânsito costuma ser maior em função da falta de uma cultura voltada à segurança viária. Cultura no sentido de práticas sociais no trânsito que constituem “o modo como fazemos as coisas por aqui.”

Infelizmente, ainda estamos distantes de uma preocupação de muitas pessoas em fazer a coisa certa no trânsito e quando não fazem soltam a voz no discurso de indústria da multa, que autuam as pessoas só para arrecadar, e por aí vai. Vergonhosamente, políticos usam desse discurso para tentar conquistar a simpatia e o voto de seus eleitores e acabam se somando aos que prestam desserviço à sociedade.

Infelizmente, no Brasil a Semana Nacional de Trânsito é só mais uma data obrigatória no calendário e muitas ações só são feitas nesse embalo. O ideal é que toda a sociedade se unisse em torno do assunto todos os dias do ano com a população sensibilizada para a seriedade do tema.

No país em que morrem por ano cerca de 50 mil pessoas em decorrência da violência nas vias, uma semana de engajamento é muito pouco. Não raro, os eventos comemorativos na Semana Nacional de Trânsito costumam envolver pouco a população e os especialistas e palestrantes acabam “pregando para convertidos”. O real infrator, o contumaz, o que dirige sem responsabilidade comprometendo a segurança não assiste palestras, não fica na plateia ouvindo os discursos de palanque, e é o que mais precisa das informações das campanhas educativas.

Só que se os gestores do trânsito não são convincentes em sua preocupação com a segurança ao longo de todo o ano, se as campanhas educativas não envolvem a população ela não se torna responsiva.

É um equívoco dizer que o objetivo da Semana Nacional de Trânsito é conscientizar as pessoas porque a consciência é própria de cada um e só a própria pessoa pode se conscientizar. O que as campanhas educativas de trânsito podem fazer é sensibilizar as pessoas para a conscientização e para isso, para sermos francos, precisa-se de compromisso e envolvimento de todos ao longo de todo o ano.

Frases como “Se beber não dirija” acabaram sendo banalizadas e o próprio motorista a repete com o copo cheio de bebida alcoólica numa mão e a chave do carro na outra. O nome disso é anodinia, indiferença.

Parte-se do princípio de que até os motoristas infratores têm consciência do que seja “responsabilidade”, mas o comportamento de cada um, aquilo em que acreditam, as suas práticas sociais no trânsito e as suas escolhas é que definem o que eles vão fazer cada vez que assumirem qualquer papel como usuários do trânsito.

O ideal é que se falasse de trânsito para além dos congestionamentos, engarrafamentos, das obras e dos transtornos que tudo isso causa. O ideal é que as pessoas praticassem os deslocamentos seguros como pedestres ou motorizados cuidando uns da vida dos outros até que isso se cristalizasse em uma cultura presente nas atitudes de cada um. O que nos salva e diminui a proporção da tragédia são aqueles que agem assim, mas ainda resta muito a ser feito.

É simples: ao sair de casa pergunte-se o que você vai fazer hoje para não se machucar e não machucar ninguém no trânsito. Dirigir com atenção sempre prestando atenção em tudo, sem se distrair, antecipando-se aos riscos da via e sem colocar a própria segurança nas mãos dos outros. Os cuidados são simples, só que desprezados.

Que a Semana Nacional de Trânsito não seja só uma data comemorativa com ações obrigatórias que não tocam as pessoas no seu âmago. Que as ações para sensibilizar a população de um jeito que envolva as pessoas e as tornem responsivas aos apelos para a prática de autocuidados no trânsito sejam duradouras, planejadas, integradas e sistêmicas. Dirija e comporte-se no trânsito com os mais altos cuidados pela vida todos os dias.

Confira abaixo uma reflexão em vídeo sobre o tema:

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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