InícioMárcia PontesTrânsito: sobre pais, filhos e comportamento nas estradas, por Márcia Pontes

Trânsito: sobre pais, filhos e comportamento nas estradas, por Márcia Pontes

Pink e Cérebro são irmãos nascidos de uma família que sempre enfrentou dificuldades para sobreviver. Os pais iam para a beira da rodovia vender as frutas e verduras que produziam na pequena roça de casa. O tempo passou e a vida deu uma guinada: os pais se tornaram donos de uma rede de supermercados.

O carrinho de mão com roda furada foi trocado por carros importados, potentes, e tanto Pink quanto Cérebro também passaram a dirigir veículos de luxo – só que estão fazendo os pais se arrependerem dos presentes caros que lhes deram.

Os dois só aprontam, se envolvem em brigas de trânsito, já causaram acidentes sob efeito de álcool, racha, borrachão, “zerinho”, cavalo de pau e grande parte das demandas jurídicas importantes da família passaram a ser em torno das peripécias de Pink e Cérebro. Tristes, agora os pais se perguntam onde erraram.

Essa é uma situação muito mais comum do que se pensa em que famílias de origem simples, sem muitas posses e que sempre passaram por sérias dificuldades financeiras e depois de uma guinada tornaram-se empresários de sucesso. Só que a “gurizada” segue na contramão e acumula histórico de mau comportamento e até crimes de trânsito.

Quem abandonaria um carro de luxo sem sequer recolher a carteira com documentos ou as latas e garrafas de bebida alcoólica depois de um capotamento com indícios de alta velocidade? Pink e Cérebro já fizeram isso em ocasiões diferentes. Quanto aos pais, não são poucas as vezes em que foram acordados de madrugada pelos filhos com cabelos desgrenhados, vestes desalinhadas e com aquela cara de que aprontaram mais uma.

A versão dos filhos

Arroubos da juventude, não foi nada, apenas tinham saído de uma festinha e nem imaginavam que o outro motorista “ia para cima deles” daquela maneira. Ou foi aquela curva fechada na rua tal, um buraco que não viram, o pouquinho que aceleraram sem perceber, e por aí vai seguido daquele “mãe, pai, eu juro que não fiz nada”!

A versão dos pais

O pai leva as mãos à cabeça, diz que tem vontade de socar o filho até ele desmaiar e pensa no quanto vai ter que gastar dessa vez. A mãe se agarra no terço, chora, se ajoelha, ergue as mãos para cima e se pergunta onde foi que errou. Será que não deveria presentear os filhos com carros potentes? Será que já não devia ter tirado os carros de Pink e Cérebro ou, pelo menos, trocado os carros de luxo por veículos populares?

A prevenção que vem de berço

Educação para o trânsito vem de berço desde que o ser em formação pega a sua primeira carona na barriga da mãe. É na família que a criança aprende pelo exemplo a respeitar as pessoas, os mais velhos, as leis e normas de vida em sociedade. É de berço que se aprende a atravessar a rua olhando para os dois lados, a se comportar na via, a prestar atenção, e por aí vai.

As pessoas são resultado das vivências, aprendizagens e experiências ao longo da vida e a todo o momento vão demonstrando a educação que têm ou não. Mas no caso de Pink e Cérebro, em que os pais os criaram com exemplo de trabalho duro para conquistar as coisas, honestidade, os ensinaram a ser bons cidadãos? O que deu errado nessa trajetória?

A relação pais x filhos nos dias atuais têm sido complicada porque vive-se a vida em ritmo desenfreado. Não há nada de errado em os pais quererem dar aos filhos o que eles nunca puderam ter, assim como não tem nada de errado em ser jovem, bem sucedido, ter uma gorda conta bancária e dirigir carros de luxo.

O que pega mesmo é o modo como outros Pinks e Cérebros ricos ou pobres vão se comportar em sociedade e na via pública trazendo prejuízos constantes para quem cruza com eles e para o patrimônio público.

Talvez você, leitor, esteja passando pela mesma coisa com seus filhos ou pessoas na família e diz o bom senso que é hora de parar de deixar correr solto. Hora de colocar freio para que a situação não fuja de controle e você acabe pagando a conta junto.

Construir limites desde cedo

Negocie limites com os seus filhos desde cedo. Não sejam pais permissivos que tentam compensar com presentes caros o longo tempo de ausência porque estavam trabalhando duro para que seus filhos e sua família tivessem o melhor.

Procure conhecer e interpretar os comportamentos, os primeiros sinais emitidos por seus filhos de que algo não vai bem. Uma boa conversa, construir limites e acordos juntos, estabelecer regras a serem cumpridas por todos na família. Isso evita desgostos futuros e o preço muito alto da falta de controle, de limites, da vergonha em público e em família.

Poupa sofrimento para todos. Inclusive para Pink e Cérebro, que na hora de separar os homens dos meninos se encaminharão para a fila certa.

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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