InícioHistóriaHistória: e o chucrute da Hemmer, para onde vai? Por André Bonomini

História: e o chucrute da Hemmer, para onde vai? Por André Bonomini

Se você é blumenauense da gema, conhece produtos de procedência vindos dos antigos livros de receita da oma ou já fez pesquisas culinárias acerca da gastronomia germânica na certa já deve ter passado por este nome em alguma prateleira de supermercado: seja um pacote de chucrute ou um vidro inocente de verdes pepinos em conserva (o que os gringos chamam de “pickles”).

No universo empresarial blumenauense, de tantos nomes fortes ainda atuantes ou desaparecidos no correr dos tempos e das cifras, a Hemmer pode considerar-se uma legítima instituição do ramo alimentício na cidade. A trajetória de 106 longos anos, o fato de estar no cotidiano e na boca de muitos apreciadores da boa comida e a relevância sem igual no mercado a fazem ter este merecido cartaz, sem contar a história rica em perseverança vinda dos tempos de uma próspera e laboriosa vila como tal era Blumenau naqueles idos.

Nesta quinta-feira última (23), a velha fábrica de Herr Heinrich e família, um patrimônio do Badenfurt, foi o mais novo alvo de uma multinacional. Despertando sentimentos dúbios de alegria, temores e revoltas, a empresa foi comprada pela gigante Kraft-Heinz, nada mais do que uma multinacional responsável, entre outras coisas, pelo berço do ketchup de tomate como o conhecemos. Só para quem não sabe, o fundador da marca – Henry John Heinz – fez de seu preparado de tomates uma saída para os inconvenientes de se alimentar em tempos de comida estragada (acredite, isso era real!).

A sede da Hemmer, na década de 1930 (Foto: Angelina Wittmann)

E dessa fonte vermelha, a Hemmer também bebeu, mas antes de tudo, a fabriqueta ficou mais conhecida por uma iguaria germânica, responsável por abrir os caminhos de outros condimentos típicos da mesa de qualquer blumenauense. Enquanto Heinz vivia seus últimos anos de vida (ele morreria em 1919), um devotado comerciante do norte da cidade transformava o repolho que plantava no inigualável sauerkraut, ou chucrute, o mais famoso daquelas bandas.

Foi em 1915 que Heinrich Hemmer começou a empreitada de fazer dinheiro e salada dos repolhos que cultivava. O conhecimento do preparo do afamado chucrute veio dos antepassados alemães do bom agricultor e a teimosia era natural de qualquer empreendedor daqueles idos: numa modesta carroça, seu valioso sauerkraut era levado para venda no centro da pequena cidadela, enfrentando estradas ainda vicinais e longos trajetos para o produto chegar ao consumidor final.

Logo, a pequena iniciativa foi se assemelhando cada vez mais ao que Heinz havia feito nos EUA com muito sucesso: de um trabalho teimoso, o chucrute de Herr Heinrich foi se tornando referencia e não demorou muito para que, do sauerkraut, se passasse a outros produtos em conserva, como os pepinos e beterrabas, até hoje famosas pelo sabor caseiro e de saudade de muitos.

Um catálogo de produtos da Hemmer na década de 1970 (Foto: Antigamente em Blumenau)

Logo, também os condimentos juntavam-se ao mix, e se você nunca comeu uma mostarda Hemmer – seja escura ou amarela – você possivelmente está mentindo, é quase unanimidade em muitas mesas, cozinhas, lanchonetes, restaurantes, por ai. Seguindo a história, a fabriqueta virou um respeitado complexo industrial que não parava expandir operações para vários tipos de produtos, importando tecnologias de cultivo e produção e, claro, virando um selo indelével de referencial gastronômico, sem exageros ou desvios de rota.

Longevidade, presença popular, forte e sábia participação familiar e solidez rara entre as empresas da cidade. Pode até ficar incredulidade a quem cuida deste rótulo, mas o respeitado complexo industrial que a Hemmer tornou-se as margens do Itajaí-Açu pouco diz sobre aonde ela já chegou com os produtos que de lá saem.

Mais de 300 itens compõem o portfólio da marca, chefes de cozinha famosos a tomam como primeira opção em pratos, sobretudo os da gastronomia alemã, isto sem contar a vastidão de clientes fieis de Blumenau, que atrelam suas memórias gustativas a um pepino, uma mostarda ou um chucrute, pura e simplesmente a origem da casa de Herr Heinrich.

Isto é apenas uma pequena parte de um mix de mais de 300 itens que a Hemmer comporta hoje (e que a Heinz tem nas mãos depois da negóciação anunciada nesta semana) (Foto: Reprodução)

Talvez por isso e por algo mais que este review de história feito tenha se esquecido é que dá, de alguma forma, um certo aperto ao ver a tradicional Hemmer virar outra marca em um portfólio internacional. A Dudalina seguiu este rumo, a Hering está entrando nele e ainda pouco sabe-se sobre como serão as operações blumenauenses ou como será a presença da marca a partir de agora.

Por isso é até entendido que muitos temam, chegam a “prever o pior” e alguns, ligando justamente este atrelar a uma multinacional, não escondam a revolta por mais uma marca de nosso cercado seguir este caminho. Mas não dá para brincarmos de videntes agora. O destino da Hemmer pode parecer desconhecido, mas o passar do tempo talvez diga sobre a escolha da globalização ser certa ou errada.

O que esperamos mesmo dos gringos da Heinz e seus objetivos é apenas uma coisa: não nos tirem a história encravada, tem muito mais entre pepinos, mostardas e sacos de chucrute que as paredes centenárias do que a casa de Herr Heinrich podem oferecer: tradição, confiança e uma boa história.

Se não sabemos para onde a Hemmer vai, só esperamos que não falte chucrute para nós até lá. E a vida, como o produzir das coisas em seus caminhos, assim segue.

O chucrute, responsável pelo começo de tudo: o teremos no futuro do jeito que ele é? (Foto: Reprodução / Twitter)
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Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), filho do Progresso, do Reino do Garcia. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como produtor e locutor da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é poeta “de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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