InícioHistóriaHistória: o Frohsinn, sete anos depois, por André Bonomini

História: o Frohsinn, sete anos depois, por André Bonomini

Era um começo de noite de quarta-feira em Blumenau quando isso aconteceu. Estava vivendo meus últimos momentos como acadêmico de Jornalismo na hoje Unisociesc e caminhava normalmente para a aula, ouvindo alguma música nos ouvidos e observando, como qualquer cronista o faria, o corre-corre final da cidade nos derradeiros momentos da tarde.

A noite começava a tomar conta do céu azul que aquele dia tinha e o inevitável era observar as primeiras estrelas chegando. O Hilário orientava nossa travessia na Beira-Rio quando, num lance insólito, deu pra reparar uma mancha negra saíndo de um dos picos mais famosos da cidade. O fogo era como apunhalada, cena final de uma novela que arrastava-se, até aquele momento, entre o certo e o duvidoso nos corredores do poder.

No alto do Morro do Aipim, já no Vorstadt, o Frohsinn ardia em chamas. Palco de grandes noites de jantares e chope, o velho restaurante que já estava há dois anos sem exalar o delicioso aroma de marreco recheado agora emanava uma fumaça preta, fruto do vandalismo que tomou contra do casebre nos últimos tempos.

Nem preciso dizer que era o assunto mais falado da faculdade naquela noite. Eu era aluno do oitavo semestre cumprindo matérias junto com a turma do segundo período, e a curiosidade sobre as primeiras informações que chegavam do local era o clássico sinal de que a agoniante ânsia de um jornalista estar por dentro tinha florescido em todos. Mas a minha primeira preocupação nem vinha direto do que tinha causado o incêndio. Era algo maior.

Naquela mesma noite, publiquei pela minha própria iniciativa algo sobre o incêndio na famosa página Antigamente em Blumenau, no Facebook. O debate e as manifestações de revolta foram gerais, desde o vandalismo e a delinquencia juvenil a críticas ao poder público, deixando-se arrastar a situação desde 2012 sem nenhuma solução concreta para o uso do espaço público. Até a hora de dormir, os recados no meu celular de mensagens e cometários continuaram aparecendo, intensamente.

Sete anos depois, e perto de voltar as atividades sob a gestão de um novo dono, voltar as cenas do incêndio do Frohsinn reabrem debates antigos sobre, justamente, a gestão do espaço construído em cima de uma herança direta do fundador: o Morro do Aipim, um monte privilegiado com, talvez, o mirante mais belo do centro da cidade, sem falar no espetáculo do nascer e fim do dia visto de lá.

O morro do fundador

O Morro do Aipim era de propriedade do Dr. Blumenau e foi doado a municipalidade em 1911, pela palavra e documentos do filho do fundador, Pedro Hermann. Palco de mobilizações na defesa da recém-proclamada república em 1893, Pedro foi claro e direto no desejo que fez ao passar o legado do pai adiante: que deveria ser utilizado principal ou exclusivamente para manifestações culturais e turísticas, como espaço multicultural, expográfico e museológico.

Passou-se exatos 58 anos até que algo desse, de fato, utilidade ao pico do filho do fundador. O pedaço de terra que remetia aos instrumentos de amolação de facas (também chamado de “morro do amolador”) agora seria palco de um moderno restaurante adornado com o nome que, anteriormente, já foi sinônimo de teatro: Frohsinn, ou “estado de alegria” em alemão. O projeto em técnica enxaimel ficou a cargo do arquiteto August Heinrich Herwig e foi entregue em agosto de 1969.

O Frohsinn em 1975, em tempos de apogeu, luxo germânico e marrecos cozidos em 40 horas (Foto: Antigamente em Blumenau)

Por anos, falar em Frohsinn era algo que remetia a culinária, mais precisamente a pratos do tempo do opa e da oma. Uma das marcas do lugar era o marreco com repolho roxo preparado como no tempo da colônia: 40 horas, sem tirar e nem pôr. Noites de natal, de kerb, grandes jantares, autoridades, fatos da sociedade, era a rotina da casa por mais de quatro décadas, entre o classicismo social e as contradições de “espaço público”.

Decadência, controvérsias e renascença

Eis que, um dia, a decadência chegou. Em 2012, um processo de reintegração de posse ao município e já sem a saúde financeira de antes, o clássico restaurante fechou as portas. O vazio de um recanto gastronômico como o Frohsinn não havia mais no ar com a constante evolução do meio, entre seus “artesanais” e novos nomes na praça. Incomodava mesmo e causava debates ferozes debates era o vazão de uso que o Morro do Aipim acabava tendo, com o local entregue ao vandalismo e aos crimes.

Se julgarmos pelas linhas do desejo de Pedro Hermann, o sentido “público” da palavra nunca foi, de fato, cumprido. Servido a uma pequena classe de privilegiados com os banquetes postos por lá, o Frohsinn jamais teve a função de ser usufruto de uma comunidade em si. Em cartas que o passado guarda, chegou a ser sonhado até um museu sobre a colonização naquele espaço, mas apenas uma ideia de um papel escrita em nanquim que ficou perdida no tempo.

Houveram tentativas de buscar usar o espaço para a cultura propriamente dita: lá por 2013, o coletivo Vamosiuni!? propôs o chamado “vandalismo inverso”, ocupando o espaço com a melhor intenção de misturar cultura e limpeza do local. Foram algumas tardes de reuniões coloridas que deixavam, ao menos, o recado claro no ar: o de que era possível fazer valer o desejo de Pedro Hermann e do fundador da cidade com relação aquele espaço privilegiado na região central.

Um pouco mais acima, o coletivo Vamosiuni!? em ação de 2013, buscando voltar o debate do uso do Frohsinn ao interesse público e cultural. Debates arrastados e ideias conflitantes acabaram culminando na cena da noite de 20 de agosto de 2014 (foto acima), num misto de ferida e letargia (Fotos: Jaime Batista / Edson Pasold)

Mas os debates pouco evoluíam e o destino parecia certo para a venda contra os pedidos de mantê-lo público. Foi quando o incêndio veio e a pancada ficou maior ainda. Como na recente questão da Havan, até mesmo entidades que deveriam zelar pelo público acabaram seduzidas por promessas vãs e o lugar, por tempos, ficou isolado por tapumes até que houvesse, de vez, a merecida revitalização.

Sete anos depois daquela fumaça negra e daqueles dilemas, o Frohsinn ainda encontra-se em obras, vazio e sem vida. Tem destino certo: voltar a ser restaurante, desta vez sob o comando da Indaiá Eventos, conceituada empresa do segmento de grandes eventos que, além de retornar a votação gastronômica, deve ser o novo ponto de eventos e visitações. Um “público” sem ser tão público, sejamos francos.

O novo projeto para o Frohsinn, cuja concessão de 25 anos está nas mãos da Indaiá Eventos. O renascimento de uma história clássica, mas ainda distante do público geral (Foto: Prefeitura de Blumenau)

Mas, do alto de todas as controvérsias possíveis, assistir o reerguimento do velho Frohsinn tem um sentimento dúbio de alívio misturado com o inconformismo. A concessão pública, novamente, terá a restrição a poucos que desfrutarão de uma vista de Blumenau que todos deveriam de contemplar.

É do Morro do Aipim que se percebe a cidade do pai de Pedro Hermann sob um ângulo impossível de imitar, e mesmo distante dos tempos de marrecos, hackepeter e chope, seguirá o Frohsinn nesta trajetória entre a gastronomia, a história e a controvérsia.

Aguardemos setembro de 2022, e espero que eu esteja errado.

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é WhatsApp-Image-2020-09-11-at-11.17.10.jpeg
Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), filho do Progresso, do Reino do Garcia. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como produtor e locutor da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é poeta “de fim de semana”, blogueiro e colunista.

Quer receber as notícias do Portal Alexandre José direto em seu celular, pelo WhatsApp? Então clique aqui e entre em nosso grupo. Informação em tempo real, onde quer que você esteja!

Notícias relacionadas

Deixe uma resposta

Últimas notícias

    error: Toda e qualquer cópia do Portal Alexandre José precisa ser creditada ao ser reproduzida. Entre em contato com a nossa equipe para mais informações pelo e-mail jornalismo@alexandrejose.com