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História: em uma noite (de tantas) com Os Montanari, por André Bonomini

A conjunção de fatores na hora de escrever qualquer coisa – seja crônica, matéria jornalística ou uma poesia – é algo que assusta quando, na nossa mente, vem o estalo. Em busca de uma história mais pra contar do passado de Blumenau, veio a mente a vontade de colocar alguma música pra puxar algum tema, alguma coisa faça coçar a mente de todos com aquele saudosismo gostoso ou a dolorida nostalgia (a história é assim mesmo).

E ai… divaga, vê algumas fotos, pensa por um momento até que: “bom, vou colocar uma musica d’Os Montanari pra ouvir. Faz tempo que não os ouço e uma canção típica ajuda a se ambientar no passado”. A faixa em questão era “Alles Blau em Blumenau”, do disco de 1972 (Volume 5) e a facilidade em saber o nome da faixa e o LP em questão é algo que vou contando por este texto, então não se assustem.

E sabe o tal do “estalo”? Durante a tentativa de raciocinar sobre um tema, lembrei da minha estimada amiga e jornalista Bianca Klemz, hoje uma sorridente funcionária na Clicheria Blumenau e dotada de um poder de transformar qualquer “olá” numa conversa deliciosa. Foi assim que voltei em mente a um dia tão especial quanto inesquecível, apoteótico, merecido: 1° de setembro de 2018, talvez o maior baile de uma banda (e amigos) que a Vila Germânica viu em se tratando de musica típica.

Tá, ninguém derruba do primeiro lugar uma Oktoberfest ou uma dessas festas de aniversário de rádio, mas soletrar, falar pausadamente “Os Montanari” é abrir um livro das mais fantásticas histórias e personas indeléveis da musica típica de Blumenau. Na bolsa, algumas Oktoberfest, incontáveis noites de kerb e uma coleção de LPs, cada um com suas faixas marcantes e lembranças de tempos de musica a martelo, na raça e no sorriso verdadeiro.

Nessa hora, meio que somos injustos em apropriar-se de um produto “made in Concordia”. A terra do presunto, dos frios e derivados, a cidade de Atílio e Omar Fontana, é o berço deste vulto, e aquela noite de setembro de 2018 – com participação especial da Bianca – foi tão inesquecível como histórica.

Aquele era o arremate de seis décadas de militância musical compartilhados com tantos fãs, resgatando lembranças, antigos embalos e, no palco da velha Oktober, fazendo o que sempre souberam fazer de melhor por lá desde 1985, ano da primeira presença na festa. E do alto da Vila Germânica lotada, uma sorridente dupla de irmãos contemplava e confirmava: “viu? Aquela nossa ideia deu certo!”

De Concórdia à Blumenau

Bruno e Oswaldo, os primeiros Montanari da chamada, foram os responsáveis pelo plantio da musica em meio a fatias de presunto e velhos Dart-Herald decolando, em 1958. A eles, juntaram-se a verve musical e fome de aventura de outros cinco moços concordianos: Fridolino Kiekov, Arthur Tessmann, Erwno Vatzlavick, Urbano Bloss e Werno Falk. Estava armado o espetáculo, ou melhor, o kerb com selo do Contestado.

Sete moços dentro de uma modesta Kombi, a legítima personificação de um antigo comercial do pequeno ônibus da Volkswagen, percorrendo rincões e rincões, estradas vicinais, poeirão e raros trechos de asfalto. Cidades grandes, pequenas, vistosos salões, diminutas casas de baile, onde houvesse a propensão de uma festa, lá estava Bruno, Oswaldo e seus companheiros, uma estrada longa até surgir o primeiro LP: “Pic-Nic na Floresta”, em 1969.

Vídeo: Xirú Brasiguaio
Um momento d’Os Montanari no início dos anos 1970 (Foto: Reprodução)

Claro, quem dizer que essa estrada foi perfeita desde o início, está enganado redondamente. Numa das paradas da banda, Oswaldo partiu precocemente, em 1971. Uma morte que sacudiu, mas não derrubou o kerb por terra. Foi preciso muita teimosia e força na mente para subir ao palco, gravar LPs e continuar a viagem mesmo com um espaço vazio dentro da Kombi, especialmente quando os filhos começaram a tomar parte no ofício da música.

Nessa altura, 1977, a região do Contestado ficou pequena para eles. O próximo destino fixado no alfinete do mapa era uma cidade que conciliava aquele progresso pujante de tempos sonhadores com dias e noites de chope, dança e boa musica. A musica deles próprios já dizia: “todos os caminhos levam a Blumenau”, e foi lá que o produto da terra dos Fontana fez morada, como todos os desafios que viriam a frente.

A banda em meados de 1977, já quando a sede era em terras blumenauenses (Foto: Reprodução)

E claro, novamente, a estrada perfeita é mito nessa vida de musico, sempre peleando na estrada, enfrentando perigos, a impiedade do relógio e dos compromissos, de palco em palco. Anos que passavam e perdas que vinham: Bruno foi encontrar o irmão no salão de cima, mesmo caminho que o versátil Darci também tomou em 2009, antes mesmo do show terminar em uma noite em Pomerode. Novos aventureiros colavam, outros partiam, a pequena Kombi já era um ônibus vistoso, Os Montanari já eram grife musical na germanicidade, o show precisava continuar.

A história tem sua crueldade mas a musica, dentro de sua doçura e alegria pura, deixa espaço para reverencia, gratidão aos antigos e ansiedade pelo futuro. E quando 2018 bateu a porta, era preciso celebrar a altura tanta coisa construída, tanta musica tocada. A festa estava armada, as pequenas Kombis partiam ao encontro dos fãs como este, que da perolada Timbó se preparava para o encontro com os amigos que tinha feito desde 2009, sem esconder o grito: “eu sou fã confesso d’Os Montanari”.

De Blumenau à Concórdia

Foi na PG2 que encontrei-me, com um bruto sorriso na cara, com Beto e Darci Junior. Perguntas, delírios de fã e uma amizade enfim consolidada desde que escrevi as primeiras linhas sobre a história da banda, ainda como colunista do mentor Adalberto Day.

Inestimável: uma Kombi MP3 e um ingresso para uma parte da história. O show vai começar. Foto: A Boina

Os presentes estimados depois da visita soaram como convocação: a miniatura de Kombi em forma de aparelho de som e carregada de musicas da banda, somando-se a um ingresso para a grande noite: o baile de 60 anos do conjunto, naquele começo de setembro. Deu tempo ainda de receber das mãos da inabalável Nane Pereira uma credencial em nome da PG2, o que já tornava ato obrigatório, impossível de faltar.

Ainda bem que não ouvi minhas vontade de me entregar a noite de leve chuva que caía e enfrentei a Vila Germânica. O brilho da coisa se sentia ao longe, a meia-luz que precedia o grande acontecimento era um convite, e não só para um simples baile, quem estava lá ia entrar, de mãos dadas, no maior kerb que a antiga Famosc já viu.

Recortes de uma noite daquelas, de kerb e amigos: A esquerda, com Darci Júnior (acima) e Bianca Klemz (abaixo). A direita, com o primo Walter Luiz Heiden (acima) e com a colega de microfone Tamara Caroline e o vereador Diego Nasato (abaixo)

E o desfile estava armado: Vox 3, D’Fiebes, Cavalinho, Nova Alegria, Champagne, Tropical Band, Hausmusikanten, Os Velhos Camaradas, até mesmo uma pitada de sertanejo com Dany & Rafa, um gigantismo merecido. Eles não seriam os últimos, mas era esperado que o momento iria ser apoteótico, com todas as pompas e circunstâncias.

Eu e Bianca travamos. Imagine o pais dela – o querido psicólogo Luiz Carlos Klemz e a querida dona Isolde Klemz – na mesma reação que a nossa. Assim como eu, Luiz é um admirador daqueles da banda, e o brilho no olho era idêntico quando, no súbito movimento, a luz baixou, um velho motor 1300 ouviu-se zunindo no fundo, um par de luzes acendeu-se num canto convidando a todos para montar uma verdadeira estrada humana: a Kombi d’Os Montanari percorria o caminho mais alegre de seis décadas.

Vídeo: Corupá FM

E se nós, ali fora, estávamos contendo as lágrimas colados ao trajeto da velha corujinha, quem diria eles dentro dela: um filme de 60 anos corria por ali, dos primeiros kerbs, as batalhas mais duríssimas, os companheiros e familiares partidos, alegrias e tristezas, choros de dor e apoteose. O carro parou, a turma saiu e, como do jeito antigo, empunhou os instrumentos em mão para aquela marchinha clássica: eles estavam ali, o kerb legítimo – com leilão de boneca e tudo – ia começar pra valer.

Ai, não tinha mais o que segurar na mente. Na primeira parte, um revival de grandes sucessos de LPs passados (inclusive “Dançando em Ijuí”, do disco de 1974, uma das minhas favoritas!). Depois, o autêntico festerê a lá Oktoberfest, como o ambiente pedia. Danças, trenzinhos, goles de chope, gritos coordenados, até o Beto Montanari rasgando a “Fuga da África” no acordeon… dá pra descrever mais em palavras de uma crônica?

De repente, aquelas voltas que a história não prevê: como um sinal de que as origens jamais são esquecidas, de que a raiz de tudo sempre terá Concórdia na base, a velha Kombi, brilhante e jovial novamente, foi sorteada entre milhares de pessoas. Quis o destino que a corujinha verde, símbolo de passados idílicos, fosse voltar pra casa: a mesma Concórdia onde tudo começou, onde as primeiras melodias e desafios foram escritos nestas voltas que a música caprichosamente dá.

2018 já vai meio longe… mas você acha que essa história acabou? O verão sempre volta, e Os Montanari sempre estão por aí. Fotos: Samuel de Oliveira

E essa história acabou? Aquela noite está na história e esta crônica só foi parte de um caminho que ainda se segue. Nem a pandemia é capaz de parar a velha Kombi, quem dirá os sonhos e melodias que os herdeiros de Bruno e Oswaldo serão capazes de escrever em mais 60, 120, 200 anos.

Como o verão, que “sempre vai voltar”, um dia a alegria de uma Oktoberfest ou de um simples kerb também volta. E lá estarão eles, Os Montanari, suas musicas e suas histórias, o show sempre continua, ele vai continuar.

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Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), filho do Progresso, do Reino do Garcia. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como produtor e locutor da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é poeta “de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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