InícioEmerson LuisEsporte: Passado radical, por Emerson Luis

Esporte: Passado radical, por Emerson Luis

Como era previsto após o brilhante desempenho dos brasileiros em Tóquio, cresceu o número de praticantes de skate.

Naturalmente no Parque Ramiro e em espaços particulares.

Parece haver um envolvimento maior dos pais, uma motivação extra, que vai além do aspecto lúdico.

Embora seja uma tarefa árdua, que depende de vários fatores, onde muita coisa precisa conspirar à favor, é possível vislumbrar um cenário de competitividade e profissionalismo.

Pista da Prainha na década de 90. Foto: George Gonçalves

Não é oportunismo de informação.

Bato na mesma tecla faz tempo, antes do “boom” das Olimpíadas, outrora a esta e outras administrações.

É difícil se conformar com tamanha falta de opções para essa “tribo” em uma cidade desse tamanho, com mais de 360 mil moradores.

Há uma resignação coletiva.

Uma cumplicidade que não combina com nosso passado.

Um conformismo que aflorou a partir nos anos 90.

Blumenau cresceu bastante.

Centenas de prédios brotaram nos arredores do centro.

Os bairros se expandiram.

Bem como a quantidade de habitantes no asfalto e nos morros.

Região da Alameda no Jardim Blumenau. Foto: Michele Lamin/Divulgação

Muito trabalho.

Pouco lazer.

Obras no Galegão começaram em 1968. Foto: Arquivo histórico José Ferreira da Silva

O Ginásio Sebastião Cruz (Galegão) foi entregue em 1969.

O Complexo Esportivo Bernardo Werner (SESI) em 1978.

O Parque Ramiro Ruediger em 1994.

Não consigo lembrar de uma outra grande obra ligada ao esporte.

Seja pública ou privada.

Temos, é verdade, dezenas de associações e clubes, com estruturas invejáveis, que ao longo do tempo até flexibilizaram o acesso do público, mas que ainda cobram um valor considerado alto para a população economicamente menos favorecida.

Parque Ramiro Ruediger. Foto: Reprodução/Internet

Mesmo com 40 mil metros quadrados, o Parque Ramiro fica pequeno nos fins de semana, sobretudo aos domingos.

Não é preciso ter um parque desse tamanho em cada canto.

Seria utópico achar que isso é possível.

O que nos falta para amenizar a lotação são praças – conservadas e arborizadas.

Parque das Itoupavas. Foto: Reprodução/Internet

Demoramos quase 27 anos para construir uma nova grande área de lazer.

O Parque das Itoupavas, liberado oficialmente em abril deste ano, com 14 mil metros quadrados, foi entregue pela metade.

Deixou de contemplar justamente os adeptos dos esportes radicais.

No projeto original serão (seriam) construídos uma pista de skate e outra de BMX.

Talvez seriam porque soube que uma nova área para os skatistas deve ser erguida no bairro Água Verde, ao lado do terminal de ônibus, e não mais na Itoupava Norte.

Sobre a pista de BMX, nenhuma novidade.

Enquanto isso a turma treina em um circuito particular no bairro Fidélis.

E de vez em quando vai para Jaraguá do Sul, Brusque, Itajaí, Balneário…

Diante desse quadro, bikes, skates e rollers dividem o mesmo ambiente no Ramiro.

Projeto original do Parque das Itoupavas. Arte: Reprodução/Internet

Até temos uma pista de skate que pertence a uma área pública no Boa Vista.

A rapaziada do bairro se uniu, adaptou obstáculos e transformou a quadra em uma alternativa para quem curte o esporte.

Até competição já rolou por lá.

A luta para conquistar um território.

Pista adaptada no bairro Boa Vista. Foto: Reprodução/Internet

Enquanto isso municípios da região evoluíram.

Para ficar em apenas um exemplo, lembro que Gaspar tem duas pistas.

Uma no Centro Integrado de Eventos Prefeito João dos Santos e outra no bairro Gasparinho.

Pista de skate em Gaspar no Centro de Eventos. Foto: Prefeitura de Gaspar

Precisamos olhar no retrovisor.

E lembrar da importância cultural, social e esportiva da Praça Juscelino Kubitschek, a Prainha.

Valorizar o que por lá já foi produzido.

Prainha na década de 90. Foto: Acervo pessoal
George Gonçalves em ação na Prainha. Foto: Acervo pessoal

Torneios de skate, vôlei, festivais e concertos musicais, manifestações artísticas…

Chafariz, concha acústica, playground, Vapor Blumenau, quadras de areia, pista de esportes radicais…

Tudo foi se esvaindo.

Prainha na década de 90. Foto: Reprodução/Internet

O iminente abandono motivou a criação da UBER (União Blumenauense de Esportes Radicais) em 1998.

Foram realizados os primeiros eventos (Help 1, 2 e 3) que tinham como objetivo restaurar a pista.

Com a verba foi possível finalizar a reforma.

A alegria durou até 2006 quando ela despareceu.

Manobra de George Gonçalves na Prainha. Foto: Acervo pessoal

A primeira remodelação da Praça Juscelino Kubitschek, em 2012, já não contemplou os esportes radicais (e nenhum outro).

E a atual revitalização também não.

Projeto de revitalização da Prainha. Arte: Reprodução/Internet

Entre 2006 e 2009 Blumenau ficou sem nenhum lugar para a prática de skate/bicicross.

Vários eventos foram realizados no asfalto do Parque Ramiro como forma de não deixar a modalidade cair no esquecimento e ao mesmo tempo pressionar as autoridades.

Torneio no Ramiro. Foto: Reprodução/Internet
Torneio na pista do Ramiro. Foto: Reprodução/Internet
Torneio no asfalto do Ramiro. Foto: Reprodução/Internet

Até manobras improvisadas no Ginásio do Galegão (antes da reforma de 2007) foram feitas.

Treino improvisado no ginásio do Galegão. Foto: Acervo pessoal

Também naquele período foi criado o Projeto Escola Radical nos colégios municipais com apresentações de skate, bike BMX e patins in-line para as crianças.

Projeto Escola Radical. Foto: UBER
Projeto Escola Radical. Foto: UBER

Deu resultado.

Em 2008, a Fundação Municipal de Desportos fez a doação do terreno no Ramiro.

A verba de R$ 130 mil para a construção do tão sonhado espaço veio do governo do Estado.

Foi entregue na gestão de Sérgio Galdino na FMD em 2009.   

Evento na pista do Ramiro. Foto: Reprodução/Internet
Torneio disputado no Ramiro. Foto: Reprodução/Internet

Depois disso, a UBER em parceria com patrocinadores e chancela da Federação Catarinense de Skate e Confederação Brasileira de Skate promoveram o Campeonato Brasileiro Street.

Foi aqui que surgiu a ligação de Blumenau com Rayssa Leal.

Ela se tornou campeã brasileira mirim no torneio que rolou no estacionamento do Shopping Park Europeu, em junho de 2015.

Primeiro título brasileiro de Rayssa foi em Blumenau. Foto: UBER

Após a “Fadinha” ganhar a medalha de prata em Tóquio, muitos oportunistas tentaram associar sua conquista à Blumenau, o que não deixa de ser um tremendo desaforo.

Pior que teve gente que caiu no blefe.

Cheguei a ler: “Que orgulho para a nossa cidade”.

Blumenau foi na verdade o primeiro degrau, seu primeiro título de expressão.

Foi importante.

Agora associar isso a um peso essencial na carreira é muita cara de pau.

Rayssa Leal em Blumenau. Foto: UBER

Méritos para os promotores da competição que no fim tiveram de passar a sacolinha para ajudar o pai, a mãe e a menina a voltarem para Imperatriz no Maranhão, pois eles não tinham dinheiro suficiente para a passagem.

Não houve premiação em dinheiro.

Troféus e materiais esportivos para os vencedores.

A colaboração do município, via Fundação Municipal de Desportos, foi com a premiação, os colchões e as salas da Escola Adelaide Starke, na Itoupava Norte, onde a família dormiu.

Escola Adelaide Stake. Foto: Jaime Batista da Silva

No mesmo evento, a blumenauense Manuella Bürger (filha do lendário Leke que chegou a ser 6º colocado no Campeonato Brasileiro) ficou em 4º lugar.

Na 2ª posição Isadora Pacheco, florianopolitana de 16 anos, que também competiu na Olimpíada, na categoria park, onde acabou na 10ª colocação.

George Gonçalves e Haroldo Leal, pai de Rayssa: Foto: Acervo pessoal

Trata-se de um nobre capítulo de uma modalidade onde Blumenau tem história para dar e vender, apesar de todos esses contratempos.

A primeira competição oficial de skate no Brasil foi realizada no Rio de Janeiro em 1974.

E a primeira pista da América Latina foi implantada em Nova Iguaçu RJ em 1976.

Justamente neste ano já tínhamos skatistas andando na ladeira da Pastor Stutzer, a rua da antiga maternidade, no Jardim Blumenau.

Registro dos primeiros skates em Blumenau em 1976. Foto: Reprodução/Internet

O pessoal já teve o direito de ir e vir cerceado.

Em 1995 foi criada uma Lei Ordinária que proibia andar de skate e veículos similares nas ruas, nas calçadas, nos corredores de ônibus, no perímetro que compreendia a Alameda Duque de Caxias até Amadeu da Luz e transversais.

Tempos inusitados onde Guarda Municipal de Trânsito e Polícia Militar faziam a fiscalização.

Caso a ordem fosse descumprida, os skates ficavam retidos no Seterb.

Para retirar só pagando uma multa de R$ 29 na época.

Audiência pública em 2007 para revogar a Lei Ordinária de 1995. Foto: UBER

O fato estimulou um editorial em letras garrafais com o título: “ABAIXO A REPRESSÃO”, com uma reportagem de 12 páginas da revista 100% Skate, de março de 2002.

A repercussão nacional foi grande.

Uma “nova” diretoria assumiu a associação, que não se chama mais UBER (União Blumenauense de Esportes Radicais).

Desde 2019 tem outra nomenclatura, UBEU (União Blumenauense de Esportes Urbanos).

O presidente é Rogério Augusto Groh, o conhecido Lelo, dono de uma pista de skateboard.

Tem como vice Rodrigo Corrêa que possui uma loja de skate em um centro comercial.

Lelo, à direita, é o novo presidente da UBEU. Foto: Reprodução/Internet

Já houve uma aproximação com a Secretaria Municipal de Esportes.

A ideia é focar no skate.

Montar uma escolinha gratuita.

Com o município pagando instrutores e até um profissional de educação física.

Ao menos essa é a expectativa.

Custo estimado de R$ 65 mil/ano.

Que não é nada comparado aos benefícios que irá produzir.

Encaminhamento e aprovação do projeto.

Dois meses para se inteirar do assunto.

Tomara que dê certo.

Mesmo assim, não vai sair do papel antes de 2022.

George segue orientando novos talentos. Foto: Reprodução/Internet

De certa maneira se pretende resgatar o trabalho implantado pela UBER sob o comando de George Gonçalves entre os anos 1999 e 2002 (Prainha) e 2009 a 2017 (Ramiro) quando cerca de 200 crianças e adolescentes (5 a 15 anos) aprenderam as primeiras noções do esporte.

A parceria mais uma vez foi com empresas privadas.

Escolinha de Skate de George Gonçalves. Foto: Acervo pessoal

George formou o campeão catarinense mirim Italo Spezia, em 2011, e Gustavo Bilibio, campeão catarinense amador em 2015.

Destaque ainda para Santiago César, que foi 6º no Brasileiro Iniciante de 2014.

Escolinha de skate de George Gonçalves. Foto: Acervo pessoal

Único campeão brasileiro na categoria Street Legend (45 a 49 anos), conquistado em São Paulo no Brasil Skate Camp, em 2017, o paranaense de Palmeira (chegou em Blumenau com quatro anos), fez muito pela modalidade.

Não dá para mensurar o tamanho da sua luta e contribuição.

São 51 anos de vida.

39 deles dedicados ao skate.

George Gonçalves merece todas as reverências e homenagens.

Assim como aqueles que sempre estiveram ao seu lado.

George Gonçalves é campeão brasileiro. Foto: Arquivo pessoal

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