InícioHistóriaHistória: uma Casa Branca no Stadtplatz? Por André Bonomini

História: uma Casa Branca no Stadtplatz? Por André Bonomini

Eu vou ser bem sincero em dizer a cada leitor da coluna que gostaria, sempre, de contar a todos sobre histórias passadas de Blumenau. É o objetivo e nunca mudei ele desde quando pisei pela primeira vez aqui no Portal Alexandre José falando do sócio inglório de Dr. Blumenau. Desvendar verdades, recordar fatos fazem parte deste espaço, sempre com descontração e poesia.

A riqueza histórica de Blumenau é algo que espanta, tanto pela quantidade de momentos não contados a um grande público como também pelo desconhecimento de tantos com elementos que, por vezes, fazem parte do dia a dia de todos.

Você entra no Shopping H sem saber que, ali naquele terreno, começou a Cia Hering. Você frequenta o Carlos Gomes sem saber que ele já se chamou Frohsinn. Você ouve a Rádio Clube sem desconfiar que ela foi a primeira rádio de Santa Catarina.

Um dos primeiros registros do “Stadtplatz”, em 1868. Foto: Adalberto Day

É normal este desconhecimento? É sim! Ninguém é obrigado a saber de tudo, mas buscar o conhecimento da história que o cerca é o começo para entender onde você está, o que tudo a sua volta significa e, de quebra, não repetir erros do passado (como repetimos ultimamente). E é nesse ponto que coloco você na Palmenalle, Boulevard Wendeburg, Alameda Duque de Caxias ou, na linguagem coloquial, a Rua das Palmeiras e seu entorno.

Você anda por ali, talvez frequente ou trabalha na Câmara de Vereadores, almoça na Thapyoka, pega livros na biblioteca, já visitou o Museu da Família Colonial ou até, em tempos passados, lembra de alguma farra no Pedro Linguiça ou gritou gols nas arquibancadas do Deba. Pois saiba que este pedaço de chão no começo da XV, entre o Ribeirão Fresco, o Vorstadt e o Garcia, é o ponto basilar de Blumenau, o começo de tudo, o Stadtplatz.

Esse palavrão – que muita gente do “conselho” não conhece – é simplesmente o termo em alemão para “lugar da cidade”. O marco central de Blumenau é na Rua das Palmeiras, está lá até hoje cercado de casarios e histórias que os livros e registros salvos nos desvios do tempo contam para todos.

Ali foi a primeira concentração urbana da cidade, a primeira casa administrativa da colônia era naquela região e, dali, eram demarcados os primeiros lotes aos colonos que rumavam nas direções concedidas para recomeçar a vida.

Stadtplatz em 1880, depois da maior enchente de Blumenau, que atingiu 17,10m. Foto: Antigamente em Blumenau
Entrada da Rua XV, vista da esquina da Rua das Palmeiras, início do Sec. XX. A direita, o primeiro casarão, é a Cia. de Importação e Exportação de Gustav Salinger, atual Museu de Hábitos e Costumes. Foto: Antigamente em Blumenau

Aquele pedaço de chão era onde a vida da colônia acontecia. Famílias importantes, pequenos e grandes comércios, clubes, vida religiosa, tudo girava por ali. Basta a gente enxergar em volta e, quem tem o mínimo de senso memorial, pode perceber que cada canto tem uma história pra contar, uma coluna para se escrever, tamanho o simbolismo despercebido no nosso dia a dia.

Dr. Blumenau morou ali, nas mesmas imediações. Gustav Sallinger prosperou com seu negócio de importação e exportação aproveitando-se da proximidade com o porto e virando sinônimo de prêmio empreendedor.

O América é, ate hoje, o orgulho do esporte mesmo sob a sombra de um esqueleto resistente ao tempo. Ali, Carlos Koffke abriu o primeiro modelo de supermercado do estado. A Empresa de Força e Luz tinha a sede administrativa utilizada até hoje pela Celesc.

O Palmeiras – e, posteriormente, o “mais querido” Blumenau – lotava as imediações nos derbies dominicais do futebol. E, para os religiosos luteranos, a recepção é na Igreja do Espírito Santo, no fim do trajeto.

Stadtplatz nos anos 1950. A esquerda, o Supermercado Carlos Koffke e, do mesmo lado, a sede da Empresa de Força e Luz, atual sede blumenauense da Celesc. Foto: Antigamente em Blumenau
Stadtplatz, Rua das Palmeiras, nos anos 1960. Foto: Antigamente em Blumenau

Mas o tempo, esse implacável corredor de memórias e coisas, fez com que o Stadtplatz fosse, de importante, a apenas uma referência do começo de tudo. Muita coisa por lá mudou e o progresso desenfreado e descompassado com a história praticamente faz as jocosas placas de “Bem-Vindo ao Centro Histórico” uma mera formalidade. Se a falta de conservação falha, alguns dos lugares foram tomados pelo abandono ou pela ruína, ou simplesmente pela demolição completa da arquitetura que simbolizavam.

Infelizmente, nestes tempos que vivemos, assistimos tudo que conta e registra histórias sendo tomado pela mão da ignorância ou pela voz da negligência, como o caso da Cinemateca brasileira na noite desta quinta-feira passada (29) e tantos outros monumentos e museus brasileiros.

Blumenau tem (ou teve) a chance de dar o exemplo dando ao Stadtplatz o lugar digno e a proteção que ele merece. Mas há tempos, pensar em preservação é uma ofensa sem tamanho e atravanca os negócios.

É por isso que revolta quando, em nome de uma solução “empregatícia” e de “segurança”, arremata-se da forma mais suspeita e polêmica possível a construção de uma loja da Havan num espaço como este.

Estamos falando de um desrespeito a memória do local, inserindo ali um modelo arquitetônico brega, destoante de tudo, que não representa a cidade e, sim, o negócio de uma única pessoa. E tudo isso com a triste conivência de entidades que tinham o dever cívico de impedir a afronta a o passado, incluindo ai a própria Secretaria de Cultura.

Foto: Divulgação

Empregos se geram com um modelo desse em outro lugar da cidade. Segurança se faz com um modelo de construção no local que respeite a história e seja útil para a cidade inteira.

Lamentavelmente, e por mais uma vez, Blumenau perde a oportunidade de negar o “comum” em nome de um passado cada vez mais fragmentado. Avais são dados para desmantelar arquivos e borrar o patrimônio com produtos falsos e sem nexo, vide a até hoje polêmica lei de isenção de impostos para construções que imitem enxaimel que forraram o Centro de “casinhas germânicas” de mentira nos anos 1980.

Respirando fundo e tratando as contrariedades de quem ler isto como “qualquer coisa, menos argumento”, digo nos olhos de quem planeja executar o plano: A casa branca não é parte da história.

A Casa Branca não foi ideia de Dr. Blumenau e nem mesmo veio da Alemanha como arquitetura. A Casa Branca não conhece a importância da história, apenas os cifrões que representa. A Casa Branca não é digna de estar no ponto inicial de uma história de 160 anos como a de Blumenau. Já o faz suficientemente bem estar na antiga Moellmann, como bem o fez anos atrás.

Ainda há tempo, e a memória da cidade pode pensar em outros caminhos com a sanidade de cabeças certas e atitudes corretas.

Termino recordando a frase direta dita pelo representante da OAB na reunião de quarta-feira (28), Dr. Herley Rycerz Júnior e que faz todo o sentido: “esta obra não se enquadraria bem ao lado da Torre Eifel, do Coliseu, da Torre de Belém ou da própria Casa Branca, em Washington”.

Consequentemente, também não o é no Stadtplatz, onde toda esta Blumenau heroica, confusa e – eternamente – provinciana começou.

Trecho vídeo: Angelina Wittmann, 1992

#salveocentrohistórico

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Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), filho do Progresso, do Reino do Garcia. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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