InícioHistóriaHistória: Oktoberfest, nascida do "cancelamento", por André Bonomini

História: Oktoberfest, nascida do “cancelamento”, por André Bonomini

Cancelamento. Muito além da aplicação moderna do termo nas redes sociais, o verbo tem sido a constante maior no mundo dos eventos nestes tempos de pandemia. Alguns a levam ao pé da letra mesmo que o encontro seja o mais tradicional, para o aperto incontido de corações. Outros, por ignorância velada ou fome de lucros e prestígio, fingem que nada existe, as coisas acontecem, os casos pipocam.

Nesta ciranda de sentimentos e diante de um inimigo pesado, ouvir a frase “a Oktoberfest está cancelada” por mais uma vez é dolorido. Não falo como folião que nunca fui, daqueles loucos por festerê, mas como blumenauense, cidadão que cresceu ouvindo falar de nosso maior cartaz, que já trabalhou por ele e que, como qualquer bom blumenauense, deixou-se levar por ele mesmo com aquele sentimento de sufoco com a cidade mais cheia nos meados de outubro.

Nesta sexta-feira (23), aconteceu de novo. Decisão sábia, mesmo que pareça demorada, mas compreendendo as conversas, estudos e panoramas que atingem a todos envolvidos no espetáculo. E em meio a tudo dito pelo prefeito Mario Hildebrandt e pelo secretário de turismo Marcelo Greuel, uma frase chamou atenção pelo tom poético que soou no ar: “a casa da Oktoberfest acolheu e cuidou do povo blumenauense quando ele mais precisou”.

De fato, ao entrar na combalida Vila Germânica dos últimos tempos de “guerra”, a sensação é de sentir um tempo parado. Tudo ficou para trás para partir para luta diante do Covid, que tantos já levou dos pavilhões do futuro. E do alto deste vazio, entre paredes ainda decoradas em enxaimel, que a mente me pega de susto: afinal, no distante 1983, havia um cenário de céu no teto do pavilhão A (antiga Famosc) quando o Itajaí-Açu oscilava entre calma e enchente.

Numa dessas, lembro da primeira entrevista jornalística que fiz na vida: diante de um simpático e tranquilo Dalto dos Reis, perguntava sobre a Oktoberfest, mas especificamente as origens da festa. Entre uma palavra e outra, o espanto de uma descoberta que, pra você que lê, pode ser a destruição de um “sonho de infância”: em 1983, no mesmo ano da famosa enchente, o plano era, enfim, iniciar a história que conhecemos hoje.

Este jornalista, ainda nos tempos de acadêmico de jornalismo, e Dalto dos Reis. A primeira entrevista da carreira na notícia revelou detalhes interessantes do começo da festa. Foto: Arquivo pessoal

A bem da verdade, o plano de uma festa neste molde já existia desde fins dos anos 1970, mas o próprio Dalto assinalou, naquele papo em 2013, que o “fator financeiro” tenha sido o maior empecilho para a não-realização da Oktoberfest muito antes. Uma recordação dele nos remete ao prefeito Ramiro Ruediger, que assumiu o cargo no lugar do então titular da casa, Renato Viana, quando este partiu para uma deputação estadual, em 1982.

À época, a Secretaria de Turismo estava sob o comando de Adolfo Ern Filho, e ele, junto com o então candidato à prefeitura Dalto, expuseram o plano de uma festa deste porte e nome à Ramiro. O bom velhinho que hoje tem parque com seu nome deu o veredito mais certo para o momento: a nova prefeitura estava sendo terminada na Beira-Rio, a Rua dos Caçadores estava sendo pavimentada, isto fora outras tantas obras que estavam a caminho.

Nova prefeitura em construção, em 1982. Uma das obras que o então prefeito Ramiro Ruediger conduzia durante aquele ano. Foto: Antigamente em Blumenau

Plano arquivado, a ideia era aplica-lo em 1983. Era parte da campanha de Dalto e dos planos do então secretário de turismo no novo governo: o idealista Antônio Pedro Nunes. E tudo levava a crer que seria naquele ano que veríamos nascer a festa como conhecemos. Pois nessa hora, outra personagem aparece no conto: a professora Thereza Palmas Ribeiro, com um testemunho que, desde meu tempo de faculdade, nunca mais me saiu da cabeça.

Senhora de trejeitos e falas elegantes, finesse cultural e um sorriso sempre na cara, Thereza era incisiva nas histórias e pontos de vista que expunha, do alto de sua experiência de vida. Naquela mesma onda de entrevistas sobre a Oktober, ela contou a mim sobre o que viu em 1983, uma inocente e curiosa moça blumenauense que, ao passar pelas imediações da Proeb, flagrou homens trabalhando na decoração do velho pavilhão A. Eles apenas diziam que “era uma festa muito grande que estava para acontecer”.

Rua XV abaxo das águas em 1983. No primeiro ano de governo, um desafio para Dalto. Oktoberfest naquele ano? Sem condições. Foto: Antigamente em Blumenau
Foto: Arquivo Histórico

No entanto, a inconstância da chuva e a sequencia trágica de enchentes na cidade (entre elas, a devastadora de 15,34m, entre julho e agosto) botou os planos novamente por terra. Eles seriam reavivados em 1984, mesmo que uma outra enchente ainda maior que a maior marca do ano anterior (15,46m) e no mesmo período do ano atingisse a cidade novamente. Foram necessários pouco mais de 10 dias para as limpezas mais pesadas e a volta a uma normalidade para também voltar a se pensar na tal da Oktoberfest.

Ela, de fato, aconteceria em 1984 dentro de todas as perspectivas previstas, e para Dalto dos Reis, por mais controverso que poderia parecer fazê-la depois de tudo que aconteceu, era o momento certo, o clima certo, o tempo certo. Talvez, jogar os papeis de volta para o arquivo e pensar nela em 1985 seria um perigoso movimento que sepultaria a ideia de vez. Era a hora, a cidade precisava ser sacudida, e assim foi um tiro certo, tal como o alvo perfurado no Caça-e-Tiro.

O que veio dali em diante foi uma história ininterrupta que todos bem conhecem, mas cujas origens, teimosamente confundidas com a idílica história de criação para “animar o povo depois da enchente” correndo junto. Colegas de imprensa, saudosos ufanistas, professores com pouca profundidade e tantos outros que me desculpem a violência da afirmação, mas assim o é.

Foto: Arquivo Histórico

E esta é uma definição errada, mas facilmente explicada: tornar este fato o “motivo real” é errôneo, mas é totalmente aceitável e necessário para a construção da história e do sentimento de pertença afirmar que a primeira edição é um símbolo daquilo que José Nóbrega dizia, do “retemperar a alma deste povo imbatível”.

Não é desmerecer, mas clarificar uma origem que passou pela ideia inicial, enfrentou o cancelamento diante de uma enchente mortal e, diante da enchente, nasceu como rótulo deste renascimento. E é esse mesmo espírito de 1984 que parece correr no ar, uma vez mais, na expectativa que o a tal “enchente sem água” definida por Pancho Fresard baixe o nível em 2022 e permita, de fato, a 37ª edição sair dos planos e sonhos.

Por mais um ano, é preciso segurar o fôlego, o ímpeto das bandas e manter guardados cervejas e comida nas geladeiras. Tal como a intentona de 1983, tem algo lá fora que precise muito mais da nossa atenção do que uma festa precisaria. Depois de tudo, ai sim, a Oktoberfest nasce… ou melhor, renasce, como ela já fez em sua gênese.

Paciência segue sendo virtude e escritora de histórias. E ano que vem, as lições da “enchente sem água”, doença lodosa como o fogo, retemperarão a alma deste povo imbatível: o blumenauense (eu espero).

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Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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