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História: Guitarras, Mamonas, Oktober e Skol Rock, por André Bonomini

Barão Vermelho, Capital Inicial, Biquíni Cavadão, Paralamas do Sucesso, Ira!, Kid Abelha, Raimundos, Titãs, Lobão, Ultraje a Rigor, Leoni, Nenhum de Nós e um certo Mamonas Assassinas ainda em ascensão. Uma seleção de pesos-pesados assim reunida no meio dos anos 1990 dava um cast de respeito de um festival dos bons em uma grande cidade como São Paulo ou Rio, na beira de uma praia, num parque ou num estádio de futebol.

Mas, e se eu te contar que esse povo todo do primeiro parágrafo tocou, arrepiou, causou e extasiou plateias na provinciana e conservadora Blumenau? Num lugar onde guitarra era acompanhamento de trompete em bandinha, ver ela soando em forma de Rock era uma espécie de grito de rebeldia de uma juventude que, entre termologias alemãs do cotidiano, queria ouvir som pesado, aquelas melodias que flutuavam entre a rebeldia e a reflexão.

Você ainda duvida que tudo isso aconteceu aqui? Olha, você anda precisando ler mais sobre Blumenau, e neste caso em específico, a história escrita foi tamanha que virou livro, escrito por uma das cabeças pensantes de toda uma aldeia reunida na Prainha nos fins de semana de três edições da Oktoberfest noventista. Quem já manjou, sabe que falo do Skol Rock, e quanto ao livro (Skol Rock: O Festival que Você Não Viu), me refiro ao ex-professor, jornalista e “eterno jovem” Fabrício Wolff.

Foto: André Bonomini

Nesta semana de Dia do Rock, nada melhor do que voltar a este capítulo alucinante da juventude blumenauense dos anos 1990. Aquela década assistia, cada vez mais, o florescer de mentes joviais cada vez mais envolvidas no mundo a volta, descobrindo prazeres e perigos aliando suas loucuras a tal da desconhecida informática, as cores berrantes e aquela sede de liberdade depois de anos repressivos, no restinho de gritaria pós-impeachment de Collor.

O livro escrito por Wolff é de 2016, mas a pesquisa e conteúdo já estavam prontos desde 2009 nas prateleiras do jornalista. Foi preciso a mão de cada um num processo de crowdfunding para que o compêndio se tornasse real. Nas 160 páginas da obra, uma viagem entre 1994 e 1996, três anos em que a tensão dos bastidores misturou-se com os sonhos de uma geração vendo, olho no olho, aquela turma do primeiro parágrafo no quintal de casa, além de outros ilustres do Rock regional mandando ver diante das fachadas enxaimel da Beira-Rio.

O Skol Rock nasceu em 1994, em paralelo a já consagrada Oktoberfest, e reuniu em três anos mais de 300 mil pessoas no saudoso point do bairro Ponta Aguda para tardes de muito Rock. A ideia de Fabrício, à época assessor de assuntos para a juventude do governo Renato Vianna, soava como afronta aos conservadores: “ora, esse ritmo de gente cabeluda, esse barulho que tocam… vão fazer festival disso aqui?” Dizia alguma conversa de choperia perdida.

A primeira edição, em 1994. Foto: Caio Santos

A resistência de setores do governo e da sociedade quanto a realização paralela a Oktoberfest, as criticas veladas contra a ideia de um evento de Rock, os contatos e contratos com as bandas – entre choros, vitórias e derrotas – de tudo um pouco aconteceu no princípio do festival. Mas quem gritou contra teve que engolir em seco e aturar. E a juventude que sonhou, pode bater cabeça e sacudir o cabelo, o Rock, finalmente, fincava a bandeira no solo da Prainha.

No palco do festival, 111 bandas – entre nacionais já citadas e os grupos nascidos na cidade e em outros cantos do estado – deixaram seu som. E neste contexto, vale a gente situar, musicalmente, onde estávamos: Era um período onde ainda se sentir os respingos do que foi o Rock oitentista, com uma carga ainda mais elaborada e forte e onde muitas bandas lá presentes tinham suas raízes na década perdida, cantando os amores e problemas de um Brasil recém-saído da era dos remarcadores.

O livro de Wolff conta bem mais curiosidades: a conquista do contrato e as frescuras d’Os Paralamas, o extasio de Frejat com a cidade, o inusitado transporte e as confusões no hotel com a turma do Camisa de Venus. Mas, a maior delas rede um capítulo a parte, quando num golpe de sorte e muita lábia, a organização puxou pra cidade uma turma nascida em Guarulhos (SP) para cantar seus versos loucos para uma turma mais louca ainda.

Em 1995, o inesquecível show dos Mamonas Assassinas no Skol Rock, o maior da banda segundo os próprios. Abaixo, Julio e Dinho, num clique aleatório. Foto: Caio Santos
Foto: Caio Santos

E qualquer velhão que se preze, nessa hora, vai falar a mesma coisa que falo agora: “ah, ouvi falar dos Mamonas em Blumenau”. O grande momento da edição de 1995, sem dúvida, foi quando Dinho e seus comandados pisaram em Blumenau para virar a Ponta Aguda de cabeça pra baixo. A banda estava começando a estourar, mal havia lançado “Pelados em Santos” quando passou pelo palco do festival e, claro, parou uma molecada inteira naquela tarde. Isso sem contar que, de tão surpreendente a presença, o grupo não constava nem na lista de atrações.

Foram três anos, três alucinantes anos de cerveja, Hollywood e Rock ‘n Roll, dividindo atenções com a “tão certinha” Oktoberfest. Depois de 1996, as guitarras parecem ter ficado mais cults, mas nunca mais largaram nosso universo nas noites do Vale. Muitos daquela juventude passada são os senhores e senhoras de hoje, bem mais enluarados ou um tanto quadrados, e das tantas despedidas, a mais sentida talvez seja a dos Mamonas, que no mesmo 1996, desapareceram na mata da Serra da Cantareira para só voltar nos discos e livros de história.

E quando ao livro de Wolff, não se sabe se ele saiu totalmente de catálogo, mas é possível encontra-lo, com alguma procura, nos sebos de Blumenau ou em algum outro lugar perdido desse Brasil. Um retrato pintado de Rock entre as flores da cidade-jardim, para desespero dos “quadradões” e alegria da garotada. Afinal, Blumenau é Brasil, é mundo, e o Rock está por tudo.

Vida longa ao Rock! Vida longa ao Skol Rock!

Vídeo: Caio Santos
Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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