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História: De volta ao Grande Hotel, por André Bonomini

Estes dias passados, o Portal Alexandre José completou três primaveras de atividades, histórias, manchetes, jornalismo puro e aplicado, família, cafés com cuca e sonhos por vir. E quantos sonhos de um time jovem, alucinado e casado com os interessas da informação e, claro… da história que contamos e recontamos.

E falando em história, hoje, caminhando pelo Centro na hora do almoço, a memória de nosso natalício refletiu diretamente a um ponto histórico da região central, testemunha não só de grandes histórias, mas também de um dos meus primeiros trabalhos “complexos” aqui dentro desta redação.

Foi naquele pedaço de esquina outrora nobre que, há uns dois anos atrás, embarquei na empreitada com a maninha Jamille Cardoso e o xará André Santos para recontar, entre as ruínas e sujeira, o passado refinado do então combalido Grande Hotel. O sucessor do histórico Hotel Holetz já estava fechado desde 2014 e havia ganho um novo dono há pouco tempo: o simpático Lindomar Vasconcelos, dono da rede Oscar de hotéis e homem de jeito simples vindo do norte que nos recebeu para um breve papo sobre os próximos passos do processo de compra.

“O hotel mais conhecido do lugar. Limpos quartos ventilados. Cozinha de primeira classe. Sala para mostruário à disposição dos senhores viajantes. Auto Garagem à disposição. Localizado no centro da cidade” Peça publicitária do Hotel Holetz, pro volta dos anos 30 (Foto: Adalberto Day)

E enquanto Jamille fazia sua parte com o novo administrador, eu olhava em volta sem disfarçar o fascínio de estar ali, naquele espaço de história que escondia a sofisticação abaixo de poeira. Impossível você, apaixonado por história e tomado pela lamentação de presenciar o abandono cruel, não se transportar no tempo em que, naquele lugar, eram fechados negócios, recebidos hóspedes ilustres, servidos os mais requintados pratos, vividos dias de sol na esquina do Garcia com o Itajaí-Açu.

A matéria conduzida pela Jamille diz mais do que qualquer relato. Tirando os sapatos cheios de gordura podre do chão da cozinha, o resto é puro fascínio. Clica no play.

Agora, é impossível contar mais se a gente não recordar seu antecessor. Imponente, moderno e alcunhado de “majestoso”, o Hotel Holetz ocupou a esquina entre a Alameda e a XV por quase seis décadas, entremeando-se entre enchentes, momentos históricos e inovações. Era a continuidade da obra do imigrante Moritz Holetz, chegado a cidade em 1854 e que, em setembro de 1902, transformou a simpática hospedaria em um refinado hotel.

Linhas clássicas, aspecto imponente, localização estratégica e serviço de primeira, o Holetz era referencial de viajantes ilustres e simples que o tomavam como lar por alguns dias ou meses enquanto estavam em Blumenau. O salão de festas que integrava a instalação seria, alguns anos depois, testemunha das primeiras exibições de filmes da cidade, sobretudo depois que o visionário Frederico Busch iniciou ali mesmo as operações do cinema que levava seu nome, em 1919, mas que terá suas memórias contadas aqui em outro momento.

O Hotel Holetz, precursor do Grande Hotel, em tempos de apogeu (Foto: Antigamente em Blumenau)

De volta ao Holetz, os tempos passavam e o hotel outrora moderno já dava sinais de desgaste. Novos hotéis na cidade impunham uma concorrência dura e a modernidade batia a porta cada vez mais até que, em 1959, o prédio clássico desaparecia por completo por sobre uma pilha de escombros. Era o primeiro passo para o que seria, três anos depois, o Grande Hotel Blumenau. Tão ousado que, por anos, seria também considerado o edifício mais alto do estado.

Eram 11 andares, 88 quartos sendo 12 destes suítes de luxo, um completo e refinado restaurante e um moderno centro de convenções com três auditórios que colocaram a cidade na rota de vários congressos, simpósios e encontros de caráter nacional. Uma estrutura moderna e apropriada para os novos tempos de cidade turística e de negócios que Blumenau se propunha ser. Junto a estrutura ainda estavam a sede blumenauense do antigo Banco Inco (hoje Bradesco) e a clássica Confeitaria Aquarium, um dos tantos sinônimos de doces finos na cidade no passado.

O Grande Hotel em três tempos: a Confeitaria Aquarium, uma panorâmica desde a ponte sob o Ribeirão Garcia e a esquina entre a Alameda e a XV, com o antigo letreiro do Banco Inco, hoje Bradesco (Foto: Antigamente em Blumenau)

Mas como o Holetz, a majestade do Grande Hotel também teria um fim melancólico. Envolto em uma dívida de R$ 20 milhões, o tradicional ponto acabou tendo a falência decretada pela justiça em novembro de 2014 sem pagar nenhum centavo da dívida. Foi um baque sem precedentes para a hotelaria blumenauense que, quase no mesmo período, assistia ao fechar das portes do Viena Park Hotel, no Garcia, também manchado por problemas financeiros.

Desde 2019, quando Vasconcelos comprou a estrutura para integra-la a rede Oscar, o prédio segue em silêncio, parado no tempo apenas dando abrigo aos poucos trabalhadores que limpam a estrutura, cuidam de pequenas reformas e protegem o espaço dos vândalos que, em outros tempos, até incêndio já provocaram no local. A pandemia do novo coronavírus atrasou ainda mais os planos do empresário do Norte, mas o fato de haver um horizonte já é, talvez, um aconchegante alívio depois de anos de degradação.

Um sobrevivente guardado com este colunista: um pirex do Grande Hotel, lembrança de uma grande aventura (Foto: Arquivo Pessoal)

Nas prateleiras de minha casa, está lá como um troféu de um dia inesquecível uma única lembrança do lugar: um pirex personalizado com a logotipia do Grande Hotel. Parte de uma aventura entre ruínas e trevas de um passado de luxo, requinte e classe hoteleira que deseja-se ver de volta naquela esquina, não apenas pelo aconchego do turismo mas pelo bem de uma fascinante história.

Assim seja.

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como locutor e produtor da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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