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História: À Nereu, à Rodolfo, por André Bonomini

Permitam-me, amigos, voltar em mente saudosa lá pelos idos, entre 1996 e 2000 e alguma coisa. Tinha eu apenas a responsabilidade de ser um estudante exemplar, dentro do que meus breves momentos de brincadeiras e bagunças me permitiam.

Eram, ainda, tempos inocentes, quando a gente tateava a realidade ao nosso redor, e tudo era um mistério, tinha os “porquês” que nos faziam coçar a mão de curiosidade, e o rádio, essa minha cachaça diária, ainda era uma caixa cheia de gente falando, cantando e fascinando corações, como o meu.

Das minhas lembranças do rádio de Blumenau, me vem a mente o domingo após as eleições municipais de 1996. No tempo do voto em cédula, a apuração rasgava de um dia para o outro. E aquele ano foi meio maluco, com quebra-pau televisivo, viradas inesperadas e um candidato correndo por fora como vencedor. Décio Lima, para refrescar a mente.

O rádio da cozinha estava cravado em 760 AM. Vinha de lá a notícia que enfureceu minha mãe e parou a cidade: Décio Lima era eleito prefeito numa eleição maluca. Entre papos, correrias da notícia e o medo da híbrida cair, estava ali feito meu primeiro contato com uma das frequências mais queridas da cidade: a Nereu Ramos.

Rodolfo Sestrem, na festa de bodas de Evaldo Moritz, 1978 (Foto: Marilene Lider)

Dizem que gosto por algo sempre tem uma origem, e minha paixão avassaladora pelo rádio também tem parte no velho 760. Era quase um turno inteiro ligado na Nereu, das 6h, quando meu pai chegava do terceiro turno da antiga JC (hoje, Luli Malhas) até as 12h, bem na boca do almoço e perto da hora da escola.

E nesse interim, talvez também por influência da família, que o conhecia bem, acabei tendo contato com um senhor gordinho, de voz levemente anasalada e que, diante de tantos contemporâneos, era um gigante nos gramados, campos e páginas policiais. Foi numa madrugada de emoção no “Momento da Prece”, celebrando o aniversário de minha finada avó, que soube de nossa proximidade com o velho Rodolfo Sestrem.

A Nereu tinha muito mais tempo de vida na boleia do que eu de vida. Ela é de 1958, operou em várias frequências no AM até se estabelecer no 760 por volta de 1975 e, de longe, era o principal arauto de notícias de uma Blumenau inteira. Gente que ligava cedo pra ouvir, tremendo os transistores dos receptores, os primeiros agitos da manhã ou as histórias entre o cabuloso e o esperançoso do meio-dia.

Foto: Reprodução

Estes dois períodos a que me refiro eram os horários em que me encontrava, radiofônica e inocentemente, com a voz de Sestrem. No Jornal da Nereu, que sempre lembro como uma das mais belas trilhas de jornalístico que já ouvi, a manhã começava frenética, já dentro das manchetes de uma noite agitada. As vezes, enquanto Rodolfo dava as notícias, a gente estava passando frio dentro do carro levando meu avô para uma consulta na Policlínica… Tempos aqueles, meu!

Mas o meu pedaço de recordação maior nesse período reside-se, justamente, próximo ao meio-dia. Enquanto preparava os deveres de casa na mesa da cozinha, o galo ia dissecando os boletins policiais. Eu já tinha traquejo com esse tipo de jornalismo, afinal eu e minha avó assistíamos o violento “Aqui Agora”, no SBT, e eu achava tudo o “máximo”. Mente de criança…

Sestrem era mago no que fazia. Pouquíssimo ouvi-o em jornadas esportivas, onde os saudosos da Nereu diziam ouvir uma apoteose, uma perfeitíssima descrição de emoção profunda do que o narrador via diante dele. As minhas memórias recordam do leitor detalhista, quase um poeta da contramão da lei, como diria Alexandre José. Leitura densa, misteriosa, quase fantasmagórica em plena luz do dia.

E, como num passe mágico, Sestrem saía do submundo do crime e partia para a esperança. Doações, ajuda a gente necessitada, boas práticas e iniciativas. O seu programa terminava assim todo santo dia. E eu, moleque deslumbrado, fui me acostumando com a presença do rotundo locutor dia a dia, manhã a manhã, como parte obrigatória de um início de dia completo.

Mas ai… o galo morreu. O último cacarejo, ousado, teria sido trocar a Copa de 2002 pela canonização de Madre Paulina (hoje Santa Paulina), no Vaticano. Na minha cabeça, ainda corre a frase capital de Rodolfo diante do feito do Papa João Paulo II: “Madre Paulina é Santa a partir deste momento!”. Ela estava em looping na minha cabeça quando minha família soube de sua morte repentina, numa manhã de sábado de 2002, curiosamente, no Dia da Imprensa, aos 54 anos.

Você achava que ele não existia? Tá ai, o xarope e composto Magaraz, famosos na voz de Rodolfo Sestrem (Foto: Reprodução)

Anos depois, ouvi da boca de Luiza, a querida sobrinha-empresária e nostálgica pelo tio, outros detalhes daquele dia. Não minto, ouvi-la naquele dia, num encontro com ela nos corredores da União FM, foi como reencontrar, por breve, o velho Rodolfo amigo da família, que não poupava palavras quando falava de meus avós no rádio em dias festivos, que não media seu lado poeta e narrador no esporte e na polícia, que não deixava sair da minha cabeça o xarope Magaraz ou o pão quente da Irma na Padaria Saxônia.

Bem, o galo Rodolfo foi-se, e a minha história e a da Nereu, tão longa quanto, continuaram a correr com o tempo. Foram enchentes, visitas descompromissadas no tempo de acadêmico, amigos feitos naquelas paredes (PC e Theiss, o abraço a vocês, claro!), umas duas entrevistas encarando o ferino barba-branca J. Bernardes e, claro, contos e contos ditos e falados pelo gigante Edmilson Flores, um dos mais competentes editores de áudio do nosso rádio.

A minha vida cruzou com a Nereu, como também cruzou como tantos blumenauenses que tinham, nela, a sua fonte primaz de informação. Da cidade, puro sangue blumenauense, com nome de cidadão catarinense, com tanta história contada, dita e falada, com emoção ou sem emoção. E tudo isso, de uma forma ou de outra… terminou.

Não, a Nereu clássica ficou nos compêndios. Depois da mudança para o FM em julho do ano passado (um momento muito frio para um ponto tão importante), a casa de Evilásio Vieira veio meio que esperando o momento de entrar em rede com alguém. O dia chegou, a rádio também: a Jovem Pan toma conta do 88.7 e, de uma forma ou de outra, “sepulta” o nome Nereu Ramos do cotidiano blumenauense.

Kombi da Nereu Ramos (a direita), na cobertura de um desfile de 7 de setembro, nos anos 1960 (Sibila Vollrath)

Das circunstâncias levadas a cabo, os porquês, o que faltou ou sobrou para o bem ou mal, essas críticas prefiro fazer em outros momentos e em outras questões. Com um certo frio no ar, resenhei em algumas linhas os traços de uma memória de um jornalista que reverencia personagens históricos e um nome histórico. Há muito o que dela contar, mas dizer que é um “descanso merecido” à Nereu Ramos, talvez seja exagero.

E assim, fico com minhas memórias plantadas em algum lugar do passado recordando, em looping mental, a voz do meu hoje companheiro das manhãs da 96.5, Joelson dos Santos, dizendo com voz forte o prefixo mais famoso do radiojornalismo blumenauense:

ZYJ 742, 760 KHz, Radio Nereu Ramos! De Blumenau para Santa Catarina! Música, esporte, notícia!

À velha Nereu, ao velho galo Rodolfo… é isso ai.

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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