InícioHistóriaHistória: Hering, o brinquedo que soa bem, por André Bonomini

História: Hering, o brinquedo que soa bem, por André Bonomini

Inocente e chocante, não? O comercial abaixo trata-se de uma das mais tradicionais marcas de brinquedos de um passado distante no Brasil. E não me espantaria se você, em um estalo de dedos, começasse a lembrar daquele acordeon, flauta, piano ou xilofone de brinquedo que ostentava essa marca que, para o leigo, é sinônimo de camisa. Veja o vídeo:

Fundada em 1923 por Alfredo Hering (que não tem parentesco com Hermann e Bruno, das camisetas), a Fábrica de Gaitas Alfredo Hering foi, por anos, ponto de referência, quer seja da Itoupava Seca ou de como se fazem as mais famosas harmônicas do país. Em outros tempos, gaitas de boca eram só “mais um” numa linha que ia de gaitas-ponto, acordeons e até os maravilhosos harmônios, favoritos das igrejas do passado.

A Fábrica de Gaitas Alfredo Hering em dois momentos. Era nesta confluência das ruas São Paulo, Cel. Feddersen e Bahia onde a musica soava em forma de acordeons, gaitas de boca e brinquedos musicais inesquecíveis (Foto: Antigamente em Blumenau)

Pela década de 1940, a empresa tornou-se uma sociedade anônima, e por ali começaram a surgir os primeiros brinquedos musicais de que se tem notícia. Era a magia de uma garotada sonhadora ostentar, mesmo em escala reduzida, uma pequena gaita-ponto para fazer barulho ou seguir os passos da musica desde a tenra idade. Sucesso no setor que não tardou a crescer até mais do que a tradicional fábrica de gaitas, adquirida pela alemã Hohner e controlada por ela entre 1966 e 1979.

Mas o foco aqui não são os instrumentos (só a trajetória das premiadas harmônicas dá mais uma coluna), mas sim os brinquedos musicais. Em se tratando deste setor, a Hering virou referencia insuperável. O país inteiro passou a reconhecer, na marca blumenauense da Cel. Feddersen, o primeiro e o último nome neste setor. E não se fala aqui só das famosas gaitinhas de boca ou do acordeon Hering Junior (que eu tenho um e na caixa, bem guardado), a gama é enorme, de xilofones, saxofones e clarinetes de plástico aos pianos de todos os tamanhos: de idades iniciais aos modelos maiores e refinados.

Nas páginas de revistas em quadrinhos de circulação nacional, uma das maiores vitrinas da Hering para incentivar a musica entre os pequenos. Abaixo, um exemplo deles, uma gaita Hering Júnior, exemplar bem cuidado por este colunista (Reprodução / A Boina)

Não a toa, sonho de criança naqueles idos era, ou carrinhos e bonecas ou um instrumento de brinquedo da Hering. E não duvido que, entre os leitores desta crônica, existam alguns músicos que, no sonho tenro de infância, começaram tocando suas primeiras notas em instrumentos da marca do velho Alfredo. Soma-se a estes, uma breve parceria com a alemã Rasti, para a fabricação de blocos de montar sob licença, que durou durante a década de 1970 e meados da de 1980.

É, quando dizem que a música fascina, o negócio é da tenra idade em diante. Pelas redes sociais e sites de compras e leilões, os antigos brinquedos e catálogos da Hering sempre estão entre os itens de colecionismo clássico mais desejados, tamanha a raridade dos modelos. Quem tem um brinquedo Hering ainda bem guardado tem um verdadeiro tesouro nas mãos, lembrança da inocência de do sonho de um natal ou aniversário em que as primeiras notas eram ouvidas, de qualquer jeito ou forma, por parentes e amigos.

Uma caixa com kit completo de montagem de um avião da Hering-Rasti. Fabricação de blocos de montar sob licença da marca alemã também marcou época para muitas crianças (Reprodução / Mercado Livre)
As ruínas da velha fábrica, fechada em 1994 e que permaneceu abandonada até sua demolição completa. No local está a Praça dos Músicos. Já a pequena fábrica de harmônicas foi salva graças ao empresário Alberto Bertolazzi e segue fabricando gaitas de boca numa simpática instalação na Itoupava Central (Reprodução)

A Hering, infelizmente, não teve dias felizes por muito tempo. Em 1986, a fábrica foi comprada pela Trol, gigante dos brinquedos do passado que chegou a pertencer ao ex-ministro da economia Dilson Funaro, mas os descaminhos da economia nacional ruíram a empresa, que foi salva do fogo em 1994, pelo empresário paulista Alberto Bertolazzi (falecido no início deste ano), resgatando a empresa e toda uma história do fim.

No entanto, a compra da Hering salvou as harmônicas mas não os brinquedos, mortos definitivamente quando da falência da Trol, em 1991. E na esteira das gaitas de boca, as simpáticas harmônicas infantis fabricadas atualmente são uma lembrança distante de anos dourados de instrumentos coloridos recheados de fantasias, imaginação e de saudade, doce e musical saudade.

E então, já decidiu o que você prefere que seu filho tenha nas mãos?

Um adendo

Recebi, por estes dias, a incumbência de fazer um adendo necessário à coluna, e este é preciso fazer pois a história, em si, continua (e mais forte do que se pensa). Desde 2017, a Hering atende pelo nome de SHG, sem deixar de usar o sobrenome histórico diante da apresentação ao público. E a frente da administração da empresa, desde o mesmo ano, um cidadão que conhece muito onde pisa: Horst Schreiber.

Vindo da ferramentaria da antiga Gaitas Hering, Schreiber tem nas mãos hábeis de outros tempos a responsabilidade quase sacra de conduzir uma marca de relevância histórica como a Hering, sob a bandeira da SHG. É a única fábrica de harmônicas do Brasil, e quanto a isto é só um dos tantos pontos de responsabilidade que cada gaita fabricada lá carrega consigo.

Daiane, gratidão por esta! Adendo mais que necessário.

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), filho do Progresso, Reino do Garcia. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poesia, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

Quer receber as notícias do Portal Alexandre José direto em seu celular, pelo WhatsApp? Então clique aqui e entre em nosso grupo. Informação em tempo real, onde quer que você esteja!

Notícias relacionadas

Deixe uma resposta

Últimas notícias

    error: Toda e qualquer cópia do Portal Alexandre José precisa ser creditada ao ser reproduzida. Entre em contato com a nossa equipe para mais informações pelo e-mail jornalismo@alexandrejose.com