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Trânsito: o medo de dirigir e os acidentes por imperícia, por Márcia Pontes

No mês da atenção pela vida, em que todos os apelos são por respeito e responsabilidade no trânsito, existe uma parcela grande de motoristas que não pode ser esquecida: pessoas com medo e dificuldades para dirigir. Afinal, são cerca de 2 milhões de brasileiros que têm algum tipo de dificuldade que causa o medo de dirigir e deste universo 80% são mulheres.

O fato é quem todas essas pessoas sofrem com o medo de dirigir ao ponto de caracterizar a amaxofobia ou fobia de dirigir. A maioria apenas tem dificuldades causadas pelo modo tradicional de ensinar, onde as pessoas são jogadas no trânsito sem saber o que fazer e acabam tendo experiências negativas. O que as pessoas com medo de dirigir mais sofrem é com a incompreensão de pessoas próximas que equivocadamente acabam as empurrando para o trânsito e o resultado são os acidentes por imperícia.

O medo de dirigir tem várias causas que podem ir desde o não saber o que fazer, movimentos muito lentos porque a coordenação motora não foi treinada até a influência de traços de personalidade combinados com crenças limitantes que levam ao fracasso. Nos casos mais delicados, em que existe realmente uma fobia associada ao ato de dirigir, a ajuda de um psicólogo é fundamental para que, por meio da terapia adequada, a pessoa possa ressignificar os seus pensamentos, sentimentos e emoções em relação ao medo de guiar.

Se aprende a dirigir em menos de 24 horas?

Durante muitos anos, antes de iniciar um trabalho de apoio online às pessoas com medo de dirigir, eu dei aula de condutas preventivas no trânsito e ensinei muitas mulheres e homens a reaprenderem a dirigir. Posso dizer com propriedade que muitas dessas pessoas não aprendem porque não compreendem o tradicional decoreba do modo tradicional de ensinar a dirigir no Brasil. Afinal, o que se aprende em 20 tempos de 50 minutos? Somando tudo não chega a 24 horas de aula de prática de direção e já no primeiro dia o aluno vai para o trânsito para fazer um monte de coisa que não sabe ao mesmo tempo.

Dirigir é coisa séria demais e quando feito com imperícia pode custar vidas – motivo pelo qual ensinar e aprender a dirigir no país deveria ter a mesma seriedade com que se forma cirurgiões. Já imaginaram se os cirurgiões aprendessem a operar como se ensina a dirigir, no melhor estilo aprender fazendo? Vai abrindo o paciente e aprendendo…. ops… atingiu uma artéria importante aqui! Então por que aprender a dirigir tem que ser do jeito que é?

Fábrica de pregos tortos

Infelizmente, o processo de formação de condutores no Brasil é uma fábrica de pregos tortos, que depois de habilitar os novos condutores precisa que se abra fábricas de desentortar pregos, que são os treinamentos para habilitados e outros serviços neste segmento. Por outro lado, nem sempre quem busca esse tipo de serviço sai dirigindo sozinho sem dificuldades porque os instrutores são formados pelo mesmo sistema que impera no processo de formação.

Ajuda emocional e prática

Pessoas com medo de dirigir não podem ser empurradas para o trânsito com aquele velho discurso de que fulano aprendeu sozinho vendo os outros dirigirem ou porque foi jogado no trânsito de uma só vez. Também não adianta cobrar perícia e movimentos rápidos de quem está aprendendo a dirigir ou é recém-habilitado, porque o cérebro deles ainda não automatizou os movimentos.

Caso esteja no processo de formação e fazendo aulas na autoescola há exercícios específicos que podem ajudar durante as aulas. São os exercícios de coordenação motora para movimentos de pedais, achar o ponto da embreagem, empunhadura de marchas, aumentos e reduções com o carro desligado.

Para quem já é habilitado é importante escolher uma rua calma, tranquila, e fazer os exercícios para sensibilidade dos pés nos pedais, treinos de noção de espaço e de controle do carro em baixa velocidade para dominá-lo como se dominasse o próprio corpo. Só depois de dominar o carro com quase nenhuma velocidade e ficar craque nas manobras é que se vai aos poucos dirigir nas primeiras vias menos movimentadas.

Caso você perceba que uma pessoa com imperícia está no trânsito e deixa o motor do carro interromper sem justificativa, não buzine! Aliás, uma das maiores reclamações de instrutores de trânsito e de motoristas aprendizes é a impaciência de motoristas experientes que buzinam e assustam quem está atrás do volante.

Se você é habilitado ou está no processo de formação de condutores e quer aprender exercícios com carro desligado ou mesmo para melhorar a passada das marchas, a sensibilidade dos pés e não trocar pedais, visite o canal de Educação para o Trânsito online que leva a assinatura desta colunista.

São conteúdos para alunos e instrutores de trânsito melhorarem as suas práticas com acolhimento emocional e exercícios específicos (inclusive com carro desligado), para melhorar a coordenação motora e facilitar a aprendizagem da direção veicular.

O importante é que tanto quem está ensinando quanto aquele que está aprendendo compreenda que não se vence medo de dirigir passando medo, dirigindo de qualquer jeito por tentativa e erro nas vias. Jamais empurre para o trânsito uma pessoa recém-habilitada, pois a prática vem com treinos específicos que nas autoescolas não se tem tempo de fazer.

Empurrar uma pessoa com medo e outras dificuldades para dirigir é aumentar o risco de acidentes por imperícia. Respeito e responsabilidade é o tema do Maio Amarelo deste ano e também se aplica a quem está aprendendo a dirigir, seja habilitado ou não: respeito por suas dificuldades e responsabilidade em estimulá-los a dominar o veículo com treinos específicos e depois sim, ir aos poucos para o trânsito.

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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