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História: Beto, o mentor, por André Bonomini

Hoje estou com a bolsa vazia de histórias. A correria dos dias e a falta de uma efeméride ou assunto em destaque que crie links históricos não deixa a cabeça pensar como queremos. Recontar a história de Blumenau é uma mania minha, que aprendeu a ouvir as memórias dos “velhos” com curiosidade do passado que não vivemos, tentando imaginar o que eram aqueles tempos antigos que eles viveram.

E entre esses “velhos” – ou melhor, “experientes”, pois são eternos jovens – um deles é a personificação daquilo que, um dia, meu colega jornalista Michel Imme Sabbagh ensinou a chamar de “mentor”. A pessoa que te inspira a ser ainda mais curioso pelo passado, dar valor as memórias orais e preencher com elas – e outros elementos de época – as lacunas que faltam em memórias de Blumenau, sobretudo no Reino do Garcia, onde eu e ele vivemos.

Hoje, ele está num tranquilo apartamento nas imediações da Polícia Militar, mas dizer que ele deixou de ser um cidadão do Reino seria blasfêmia. Conheci Adalberto Day ainda muito jovem, já curioso pelas histórias que aquele magro torcedor anilado e patrimônio da Empresa Industrial Garcia (EIG) compartilhava com a cidade, sejam elas de Blumenau como um todo ou do nosso canto de terra no sul da capital da cerveja.

Antiga Pecuária Blumenau LTDA, de Walter Puhler, o primeiro texto sobre história escrito para o blog de Adalberto Day (André Bonomini)

Os arquivos mais antigos do seu blog datam de novembro de 2007 (e ele vai me corrigir por isso, com certeza), e dentro daquele endereço eletrônico estão fotos, relíquias, testemunhos, pedacinhos de uma Blumenau antiga que ele guarda há anos na memória, em fotos e objetos. Dizer que lá é uma fonte preciosa de pesquisa sobre a cidade é algo muito óbvio vindo da mente de um puro entusiasta, um cidadão fascinado pelo que estuda e conta.

Meu primeiro texto para o blog do Beto foi em 27 de junho de 2008, contando sobre a antiga Pecuária Blumenau LTDA, do vizinho Walter Puhler que, em 1968, criou uma pequena potência na criação e abate de gado. Tudo isso vindo de um recorte antigo do Jornal de Santa Catarina de 1973. Foi a primeira de algumas contribuições em crônicas ainda primitivas, cheias de erros de português mas recheadas de curiosidade, plantada pela inspiração do cara que me chamava de “Doril” quando eu sumia sem notícia.

Parte do acervo de maquinas fotográficas de Beto Day. Abaixo, a câmera fotográfica de Otto Huber, parte preciosa de seu acervo (André Bonomini)

Dos pequenos textos para os primeiros encontros olho-no-olho. Tempos depois, o encontrei na sua casa, ainda na curva da Júlio Heiden. Uma bela casa encravada num elevado daquele lugar que guardava não apenas ele e a simpatia e receptividade de Dalva, sua amável esposa, mas um relicário de encher os olhos, tudo ciceroneado pelo entusiasmado Beto que nos guiava, em detalhes, por um tempo que dava cada vez mais curiosidade de viver.

Ferramentas, equipamentos de escritório, máquinas fotográficas, fotos, documentos… tudo isso acompanhado de um farto café e muita, muita conversa. Como neto de persona histórica do Garcia, não faltavam contos e causos. Dos corredores da EIG aos campos onde o Amazonas Esporte Clube pisava, não escapava nada. E, já naquele tempo, a saúde de Beto era frágil, o historiador das curvas do Progresso já lutava contra um violento câncer sem deixar-se cair no ringue.

Cenas de uma noite de encontros, com o mentor e com a amiga em comum, a querida escritora Urda Alice Klueger (Arquivo pessoal)

Foram vários encontros, emails trocados, ligações telefônicas de horas e horas permeadas, sempre, por história, história e história. Foi junto dele que conheci a amabilíssima Urda Alice Klueger, escritora de mão cheia e mamãe orgulhosa do Athaualpa, em uma noite que sobrou para mim umas doses a mais de champanhe e chope fora do roteiro, admito.

Eu era o aluno, ele era o mentor. Não éramos catedráticos, mas contávamos para quem quisesse a história da cidade sempre que aquelas primeiras correrias nos permitiam. É claro, não sou um aluno perfeito, já derrapei muito na consciência do Beto: sumia, escrevia algo errado, esquecia-o, tomava os puxões de orelha por não ser tão aplicado por vezes, mas o mundo estava mudando meus caminhos rapidamente e nossas rotinas foram se distanciando.

Já faz algum tempo, admito, que não o vejo mais. Não só a pandemia, mas o cotidiano e algumas outras coisas nos afastaram um pouco. parte de seu acervo, até onde lembro, está conservado numa sala da EEB Gov. Celso Ramos, lá na Rua da Glória, entre documentos antigos e o famoso rádio de baquelite valvulado que era a jóia entre as peças da coleção. Um dia, talvez, ainda veremos um museu nascer de lá, nunca saberemos.

Hoje, como todos sabem, continuo escrevendo histórias entre as rotinas do dia aqui no Portal Alexandre José, dando continuidade a uma mania minha desde outros tempos. As vezes falho, mas não tardo e sempre tento fazer de cada crônica um texto simples e tranquilo, que traga para os curiosos a memória e os acontecimentos que moldaram nosso canto aqui no verde Vale do Itajaí.

O famoso rádio de baquelite valvulado. Ao invés de frequências de dial, os países que sintonizava (André Bonomini)

Mas, como eterno aluno, ainda não esqueço das lições do mentor. Beto Day é uma dessas figuras blumenauenses (e do Reino, sempre) que merece exaltação pelo trabalho que faz. Dia a dia, contando memórias, fragmentos diminutos e preciosos de uma cidade que perde-se no agito diário e esquece de si mesma quando jovem.

Por trás dos óculos e da boina cinza que ostenta, está um senhor, pai, marido e sábio que inspira uma legião de blumenauenses a despertar aquela curiosidade sobre o passado que todos nós temos, ao menos os que amam esta breve volta no tempo em preto-e-branco, cores borradas, empresas e pessoas passadas, histórias para sempre lembradas.

E por que falo de Beto hoje? Amigos, homenagear, perdoar e lembrar com carinho e reverencia se faz em vida, não depois quando tudo se acaba. Não sei eu, dentro da minha modéstia, se um dia voltarei a ver o mentor, mas que esta crônica dentre tantas contando histórias chegue as mãos de Beto como uma carta simples e afável, gratidão por tanto inspirar e motivar seguir os passos, mesmo tão longe estando eu de seus “puxões de orelha”.

Hoje não contamos história, mas contamos a história de alguém que nos inspira a contar história. Gratidão sempre, Beto, o mentor.

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista.

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