InícioEmerson LuisEsporte: Um trampolim para os oportunistas, por Emerson Luis

Esporte: Um trampolim para os oportunistas, por Emerson Luis

Matheus Gabriel de Liz Corrêa vai realizar o sonho de todo atleta: disputar uma Olimpíada.

O marchador está na seleta lista de 216 nomes (26 no atletismo) já garantidos em Tóquio.

A vaga foi obtida no Torneio Cidade de Bragança Paulista SP, na prova dos 20.000 metros.

Matheus de Liz e Caio Bonfim. Foto: Wagner Carmo/CBT

Matheus ficou atrás apenas de Caio Bonfim.

O número 1 do Brasil que vai para sua terceira participação olímpica.

2012/Londres/39º.

2016/Rio/4º.

2019/Pan-Lima/3º.

2015/Pan-Toronto/3º.

Campeão por 10 anos consecutivos da Copa Brasil.

Está imbatível há muito tempo.

Por enquanto.  

Caio Bonfim é o principal nome do Brasil na marcha atlética. Foto: reprodução

Caio tem o DNA da marcha.

É filho do conceituado técnico João Sena e da também treinadora Gianetti de Oliveira Bonfim – sete vezes campeã brasileira.

Ambos fazem toda a sua preparação.

Caio Bonfim recebendo apoio da mãe. Foto: Reprodução

Caio Bonfim tem 30 anos.

É atleta do CASO (Centro de Atletismo Sobradinho DF).

Cruzou os 20 km após 1:20:13.68 – estabeleceu novo recorde brasileiro e sul-americano da prova.

Matheus de Liz tem 21 anos (faz 22 em agosto).

É atleta da AABLU (Associação de Atletismo de Blumenau).

Completou as 50 voltas em 1:20:49.13 – novo recorde brasileiro e sul-americano na categoria sub-23.

O índice olímpico é 1:21.00. 

Números próximos.

Coincidências na carreira.

Apesar da diferença de idade.

Matheus começou a marchar aos 13 anos de idade. Foto: Ivo da Silva

Caio Bonfim é um fenômeno.

Porém tudo conspirou e conspira para que se mantenha em alto nível e focado.

Além do essencial apoio familiar, possui toda uma estrutura profissional de médicos e especialistas para desenvolver seu talento – o projeto social onde atua conta com o incentivo da Caixa.

Meritocracia.

Matheus em treino no bairro Boa Vista. Foto: Blumarxa

Matheus dá mostras que pode trilhar o mesmo caminho.

O histórico aponta isso.

Em 2013, um ano após começar a praticar marcha, foi campeão brasileiro (e bateu o recorde da prova de 5 km) na sua primeira competição oficial da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), realizada no Ibirapuera em São Paulo.

Na época frequentava a Escola de Educação Básica Hercílio Deeke no bairro Velha Central.

Na mesma região, no Ristow, foi descoberto pela professora Marina de Gang em um polo de Iniciação Esportiva da Fundação Municipal de Desportos (FMD) na Escola João Durval Muller.

Foi encaminhado para os treinamentos especializados com o professor Ivo da Silva, que segue ao seu lado até hoje.

Ivo da Silva e Matheus de Liz. Foto: Blumarxa

O atletismo exige sacrifícios.

Manter a concentração e a motivação não são tarefas simples.

Se não existir um trabalho mental por trás da dura rotina e do sonho, tudo pode se fragmentar.

Um exemplo de provação aconteceu justamente em São Paulo.

Matheus viajou de carro.

Junto com Pedro Honório Nascimento (presidente da AABLU), Abel Curtinove (salto com vara) e Pedro Burmann (400m).

Saíram na quinta-feira (22) às 6h30 e chegaram às 18h30 em Bragança Paulista.

12 horas de viagem dentro de um comprimido Fox.

750 km de estrada (com direito a três paradas para se alimentar e esticar as pernas).

Viagem do quarteto para SP com a companhia das varas do salto em altura. Foto: AABLU

Matheus competiu no domingo (25).

Os parceiros no sábado (24).

Pedro Burmann (finalista nos 4×400 no Rio 2016) torceu o pé no aquecimento.

Pedro Burmann na “academia” da AABLU no Complexo Esportivo do Sesi. Foto: AABLU

Já Abel Curtinove foi medalha de ouro.

Salto de 5,40m.

Abel Curtinove salta para o ouro em Bragança Paulista SP. Foto: AABLU

Os quatro atletas foram de carro para São Paulo porque não conseguiram apoio de ninguém, muito menos da SME (Secretaria Municipal do Esporte), para o pagamento de um transporte, no mínimo, mais adequado e confortável.

Em dezembro de 2020 (também sem ajuda), o grupo se destacou no Troféu Brasil de Atletismo no Centro Olímpico em São Paulo.

Segunda melhor equipe do país no naipe masculino (atrás do Pinheiros SP).

Terceira colocada no feminino (1º Pinheiros SP – 2º Orcampi/Campinas SP).

O desempenho foi positivo porque deu tempo para se planejar e economizar.

O deslocamento dos 30 integrantes foi dividido em ônibus, carro e até avião.

Uma despesa de aproximadamente R$ 20 mil que só foi possível graças ao recurso do principal patrocinador, a Unimed, que faz um repasse mensal de R$ 3.500.

Pedro Honório Nascimento vibra com o troféu de vice-campeão masculino. Foto: Reprodução/AABLU

A verba de R$ 620 mil para futsal, basquete feminino e basquete masculino deixou os integrantes da AABLU ainda mais indignados – o vôlei masculino também foi beneficiado em outro momento.

Times que participam de competições nacionais.

Nada mais justo.

As despesas são altas.

Só que o atletismo também representa o município no Brasil.

E até no exterior.

No fim, todas as modalidades deveriam ser contempladas.

Cada qual com seu critério proporcional de resultados e participações em grandes eventos.

Há tempos a associação clama por auxílio junto à Secretaria Municipal do Esporte, Câmara de Vereadores e até mesmo Secretaria do Turismo.

Ofícios foram enviados e recebidos – sem retorno da maioria.

A exceção foi a Sectur que prometeu brigar por alguma coisa.

Para o Troféu Brasil, em junho, parece que será destinado um valor de R$ 25 mil.

Que servirá para reparar uma injustiça.

Ou surfar na onda olímpica produzida não só por Matheus de Liz como também por outros dois atletas confirmados em Tóquio.

Que foram contratados no começo de 2020 e representam Blumenau nos mais diversos torneios.

Felipe dos Santos, 26 anos, do decatlo (10 provas combinadas), é paulista e treina no Centro Nacional de Desenvolvimento do Atletismo (CNDA), em Bragança Paulista.

Vai participar da preparação final para os Jogos, em Portugal, em julho.

Felipe dos Santos. Foto: cob.org.br

A gaúcha Fernanda Borges, 32 anos, do lançamento do disco, aprimora sua técnica nos Estados Unidos e na Europa com todo o suporte oferecido pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

Fernanda dos Santos. Foto: Reprodução/AABLU

Assim como o também gaúcho, Anderson Freitas Henriques, 29 anos, do revezamento, que tem boas chances de índice olímpico e faz os preparativos no exterior.

Anderson Henriques treina nos Estados Unidos. Foto: Reprodução AABLU

Ou alguém acha que eles deveriam se aperfeiçoar na pista do Sesi?

“Eles não treinam aqui, não são de Blumenau”.

Esse foi um dos argumentos usados como critério na prioridade dos recursos.

Não colou.

Pista de atletismo do Sesi. Foto: Arquivo Portal Alexandre José

Quem também tem possibilidades, mas vive uma realidade totalmente inversa, é Abel Curtinove do salto com vara.

Seu caso é constrangedor para quem veste a camisa da “cidade referência do esporte amador”.

Abel Curtinove. Foto: Reprodução/AABLU

Abel é atleta da AABLU há quatro anos.

Também é treinador e vice-presidente da Associação de Atletismo de Jaraguá do Sul.

Gaúcho de Osório, 29 anos, começou na Sogipa de Porto Alegre e atuou por três anos no Pinheiros, em São Paulo.

É campeão do Troféu Brasil, vice-campeão do Grande Prêmio Brasil e recordista catarinense.

Abel Curtinove em ação em Bragança Paulista SP. Foto: AABLU

Sua melhor marca é 5,42m – o índice olímpico é 5,70m.

O problema é que com o conjunto de varas que possui, o máximo que pode alcançar é 5,55m.

Seu material está ultrapassado.

Salta com o que tem.

É o único atleta de ponta no país que usa varas com menos de 5 metros de altura.

Surreal.

Equipe do salto com vara liderada por Abel Curtinove. Foto: AABLU

Para tentar ficar entre os 32 melhores que garantem vaga em Tóquio, ele precisa de uma sequência correta de varas.

Com uma mais adequada pode chegar próximo de 5,60m.

Com duas, a possibilidade de chegar a 5,70m e 5,75m (e carimbar a vaga) são grandes.

Imagina com todas as seis.

Depende do modelo e da marca, mas em média, cada equipamento individual, custa entre R$ 8 e 10 mil.

É fabricada nos Estados Unidos.

Leva 60 dias para chegar.

Contudo, se houver o pagamento de uma taxa, é despachada em 15 dias.

Abel apelou para a Confederação Brasileira de Atletismo e para o Comitê Olímpico Brasileiro, mas seu pedido foi negado.

Como justificativa lhe disseram que as entidades apoiam apenas os profissionais que já estão classificados para as Olimpíadas.

Ele e demais integrantes da Associação foram homenageados em março, na Câmara de Vereadores.

Muitas bajulações.

Dinheiro que é bom, nada.

Parte da equipe de atletismo de Blumenau. Foto: AABLU

Abel Curtinove fez uma vakinha online em Jaraguá do Sul.

Arrecadou R$ 300.

Fez uma segunda em Blumenau.

Levantou R$ 500.

A AABLU também fez a sua na tentativa de auxiliar.

Conseguiu R$ 1.000.

Thiago Braz nos Jogos Olímpicos de 2016. Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

Vejam o abismo.

O atual recordista olímpico é o paulista Thiago Braz, 27 anos.

Marca de 5,82m.

É atleta das Forças Armadas – terceiro sargento da Força Aérea Brasileira (FAB).

É treinado pelo ucraniano Vitaly Petrov, o mais respeitado técnico de salto com vara do mundo, que tem no seu currículo Sergei Bubka, Yelena Isinbayeva e Fabiana Murer que é amiga e o orienta desde que ele tinha 15 anos.

O outro “rival” é Augusto Dutra, 30 anos, do Pinheiros SP.

Campeão Brasileiro e Sul-Americano e vice-campeão no Pan de 2019.

Também está garantido na capital japonesa com o salto de 5,80m.

Abel é o terceiro no ranking.

Terá pelo menos mais duas chances.

Entretanto se esse quadro não mudar, não terá como competir.

É humana e materialmente impossível.

Augusto Dutra durante os Jogos Pan-Americanos Lima 2019. Foto: Abelardo Mendes Jr/ rededoesporte.gov.br

R$ 10 mil é o valor médio de uma vara.

R$ 60 mil o conjunto de seis.

Estamos falando de um atleta com potencial olímpico.

Só o saldo dos encaixes e promoções técnicas (!) feitas internamente no esporte de Blumenau já resolviam basicamente o problema.

A vara não sai daqui se o atleta for embora.

Permanece no município.

Fica para a atual e para as futuras gerações.

É um legado.

Para todos os envolvidos direta e indiretamente.

Bônus e ônus.

Matheus Liz em Bragança Paulista SP. Foto: AABLU

Notaram como a façanha de Matheus de Liz teve pouco eco?

Simplesmente porque ele não voltou para Blumenau.

Ficou lá mesmo em Bragança Paulista SP onde se incorporou à seleção brasileira.

Tomou um avião na segunda-feira (26) e zarpou para Guayaquil para a disputa da Copa Pan-Americana de Marcha, dias 8 e 9 de maio – o governo equatoriano exigiu que os brasileiros chegassem ao país com 10 dias de antecedência por causa da Covid-19.

O garoto foi poupado das exageradas e intermináveis sessões de fotos, selfies, stories, das visitas em gabinetes, moções.

Só ele sabe quem de fato tem importância na sua conquista.

A pandemia nos prestou um favor.

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