InícioHistóriaHistória: uma Pornochanchada em Blumenau, por André Bonomini

História: uma Pornochanchada em Blumenau, por André Bonomini

Se, em 1967, o simplório “Férias no Sul” já foi uma devassidão para uma sociedade puritana como a Blumenau da década de 1960, é porque você não conheceu essa história tão obscura quanto surpreendente na relação da cidade-jardim com o cinema. E nesta história que vou contar nessa sexta-feira (9), vai muito além do que uma alça de sutiã a mostra ou cenas sutis de um casal na cama.

Quando participei, a convite da dupla dinâmica André Cantoni e Maurício Soares, do glorioso Blumencast, este foi um dos assuntos mais curiosos da produção de três horas de história que tivemos numa noite peculiar de terça-feira. E tudo começou numa noite de verão, quando o calor me forçou ligar o ar-condicionado (economia de energia, como sempre!).

Ao mesmo tempo, a TV fazia um barulho de distração até a temperatura do quarto ficar mais administrável. De madrugada, a TV é uma espécie de terra sem lei, alternando entre documentários, notícias, entrevistas inteligentes (como as reprises do Vox Populi, na TV Cultura) e filmes adultos, beirando o erótico que chamam por aí de soft porn, como as produções da Pornochanchada da Boca do Lixo que, há algum tempo atrás, eram destaque no Canal Brasil, se é que dá pra classificar assim.

E, para meu próprio espanto, foi justamente numa produção deste filão cinematográfico nacional que pulei da cama espantado. Não é o que o amigo ou amiga está pensando (e se for malicia, caia fora!). Foi uma descoberta que tem lá seu fundo de história, das mais obscuras da capital da cerveja: um filme pornô com cenas externas rodadas… em Blumenau!

Foto: Cinemateca Brasileira

A película em questão trata-se de Duas Estranhas Mulheres, produção erótica de 1981 do diretor Jair Correia, com um cast de atores nada conhecido do grande público, exceto talvez por Helio Porto e a figura carimbada em filmes deste gênero, Zélia Diniz, atriz de longo currículo e ex-Silvete (assistente de palco de Silvio Santos nos anos 70), como Zilda Mayo e Matilde Mastrangi, outras figurinhas do gênero.

O filme, segundo a sinopse, é uma história repleta de suspense e toques de erotismo, marcada pela referência a duas fortes figuras femininas: Eva, a primeira de todas as mulheres; e Diana, deusa romana da caça. Não quero me ater ao fato de que o filme, além de uma produção meio pobre de recursos como quase todo o filme da Boca do Lixo, é carregado de cenas de sexo, como toda película que vinha do mesmo lugar.

O mais espantoso foi no segundo seguimento do filme – Eva – onde o inocente oriental de nome China (John Doo), em um sonho maluco, encontra pela estrada a perdida Eva (Fátima Celebrini), que pede carona na beira de estrada depois que o motor do carro que dirigia fundiu. É ai que Blumenau e a recatada Pomerode (quem diria!) entram na história.

Os detalhes sobre a produção ainda são poucos, o que de mais gritante deu de notar, depois de prestar alguma atenção no filme em meio ao sono, é a passagem de Eva e China pelo Vale. A viagem de China começa logo por Curitiba, em trechos que vão desde a BR-116 e em partes que lembram muito a BR-470, no trecho pouco depois do trevo de junção com a BR-101, sentido Blumenau.

O relutante chinês dá aquela pestanejada quase mandrake, mas aceita dar carona a Eva, e os dois seguem viagem. O destino dos dois, na verdade, é Porto Alegre, ela para reconhecer o corpo carbonizado do marido no IML local e ele para vender traquitanas quaisquer, mas a inevitável passagem pelo Vale é quase impossível.

Na Henrique Conrad

Passagem do filme na Rua Henrique Conrad, próximo a Haco (Foto: Reprodução / Canal Brasil)

Depois de alguma conversa, o casal do segmento começa a passar com o Dodge Dart vermelho por um trecho da Rua Henrique Conrad, na Vila Itoupava (logo aonde!). Logo uma das cenas picantes do trecho, os devaneios de China, aparenta ser no trajeto sinuoso da Rodovia Guilherme Jensen (SC-474), no trecho da chamada serrinha.

Há outros trechos da película que se passam no caminho da Henrique Konrad, sendo uma das tomadas bem diante da Haco Etiquetas, um dos pontos mais conhecidos da região. Outra sequencia dá a impressão de se passar em Pomerode, mas falta clareza nas passagens.

Outro momento marcante é na parada em um restaurante, provavelmente dentro de Pomerode. Durante o almoço eis que o espectador é surpreendido por uma apresentação da então Bandinha Verde Vale, de Pomerode, executando a imortal Alte Kameraden (Velhos Camaradas) em playback.

Foto: Reprodução / Canal Brasil

O curioso é que o segmento, em grande parte, tem uma música dramática de fundo demonstrando os devaneios e a loucura que, aos poucos, tomava conta de China. Na cena do restaurante, é a própria Alte Kameraden que faz background pro momento romântico-suspense da fita.

Como disse, é pouco que se sabe sobre, e procurar saber mais pode ser sinal de inconveniência em assuntos que envergonhem os participantes. John Doo, o ator sino-brasileiro que interpretou China, faleceu em 2012. As atrizes Fátima Celebrini e Misaki Tanaka (Mii Saki), esta última a esposa de China no seguimento, estão afastadas da mídia ou seguem trabalhando em produções independentes ou em outras áreas.

Falar da Pornochanchada e da Boca do Lixo pode ser um assunto indigesto para qualquer um dos responsáveis, mesmo que o estilo hoje seja tratado com um pouco mais de respeito do que já fora tratado. Há ainda um elo possível para mais perguntas, o ator e diretor Waldir Siebert, então produtor de arte e efeitos especiais do filme, nascido em Blumenau e atualmente, segundo algumas pesquisas, vive em Atibaia (SP).

Para quem quiser confirmar a matéria, o filme está disponível completo no YouTube. No entanto, como trata-se de uma película para maiores de 18 anos, recomenda-se descrição antes de assisti-la e, por esta, vou evitar de compartilhar o filme por aqui. Para confirmar a locação, em uma breve pesquisa consegui comprovar o uso das cenas externas em Blumenau e Pomerode.

E uma anotação mental: às vezes, a história está nas coisas mais inesperadas. Basta ficar atento.

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Amante do rádio, da música, do automobilismo e da boa roda de amigos. Apaixonado também por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista. Atua no jornal A Cidade (Timbó) com coluna própria e como entrevistador. Quase todos os dias, traz à Boina uma visão diferente do cotidiano em vários assuntos, com opinião, história e reflexões para todos os lados e gostos, além de apresentar gente muito boa na escrita em crônicas e opiniões dos colegas de jornalismo e afins.

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