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História: Doces memórias da Saturno, por André Bonomini

Ahhhhh, o chocolate! Quantas histórias um alimento tão rico e cobiçado pode guardar? Não digo apenas do sabor e dos seus antepassados astecas, onde o cacau era quase deus, mas sim da riqueza em memórias de quem viveu tempos doces, sobretudo quando comprar ovo de Páscoa não significava “deixar o rim no caixa”.

A riqueza do chocolate, puramente falando, também passa pelas memórias de sabores passados, aquele comprado na vendinha perto de casa com o dinheirinho dado pela mamãe e que, quando acabava, ficava um gostinho de “quero mais” impossível de controlar.

É falando em riqueza de histórias do chocolate que provoco, nesta Páscoa isolada que vivemos, as memórias industriais e as papilas gustativas dos “experientes” cidadãos de Blumenau, e isso bem antes da febre das chocolatarias artesanais, com seus produtos caros, quase de grife.

Setor de embalagem da Saturno. Na mesa, deliciosos coelhos de chocolate e ovos de Páscoa (Foto: Arquivo Histórico)

Fundada em 1923 no número 50 da Rua Paulo Zimmermann, no então clássico Centro de Blumenau, a Fábrica de Chocolates Saturno marcou época entre os saudosos de outros tempos, seja por trabalharem por lá ou degustarem do que saía de lá. Não a toa, sua qualidade era tamanha que, seis anos depois de ser fundada, ganhou um prêmio especial em um evento da época por conta do esmero e sabor de seus produtos, que carregavam nas embalagens anos depois o dizer “3X mais gostosos”.

Das cozinhas da Saturno saiu uma variada gama de produtos de chocolate e outros tipos de doces, dos mais comuns a alguns com o toque germânico. De figuras de chocolate, bombons, waffers, doces de frutas e os clássicos coelhos ao pão de mel, o famoso Pumpernickel (pão de centeio alemão) e balas. Seja na Páscoa ou no Natal, a pedida sempre era um bom chocolate Saturno, entre bombons sortidos e afins.

Com o sucesso de anos e anos, era preciso ampliar. Assim, em 1971, a Saturno foi transferida para o seu endereço mais conhecido: a Rua Marechal Rondon, no Salto do Norte, ocupando as antigas instalações da Porcelana Condessa, o que permitiu contribuir no desenvolvimento de toda aquela região de Blumenau ainda pouco explorada industrial e residencialmente. Eram tempos de mudanças no perfil do consumidor, e organizações com perfil mais “artesanal” tinham que rebolar para acompanhar os giros do mercado.

Instalações da Saturno (prédio branco) em meados dos anos 1970, antiga fábrica da Porcelana Condessa, no Salto do Norte (Foto: Arquivo Histórico)

Mas longe dos cifrões, o que mantinha a Saturno em evidência, tanto na cidade como fora dela, era seu público cativo que apreciava seus produtos, sendo impossível para algum blumenauense daqueles tempos não lembrar de doces recordações vindas das iguarias fabricadas por lá. Era o deleite de crianças e adultos que corriam para lojas com o Kieckbusch, a antiga Cobal ou o gigante Pfuetzenreiter em busca dos produtos que saíam daquele prédio da Marechal Rondon.

Mas o tempo as vezes cruel, não deixa margem para administrações antigas e, as vezes, mata o clássico. A Saturno entrou na década de 1990 envelhecida e já com problemas para se manter firme mesmo diante de seu público fiel. Foi passada as mãos da J.C. Textil, de Jair Cordeiro, em 1992.

Já enfrentando problemas financeiros terminais, a velha fábrica de chocolates fechou as portas para sempre em 1995, restando um prédio abandonado até pouco tempo depois, quando um incêndio atingiu a estrutura, deixando para os anos seguintes apenas ruínas do que foi um passado doce.

Foto: Andreas Strelow

Atualmente, o local abriga uma empresa de gestão ambiental de resíduos e rejeitos, aproveitando o velho nome da clássica marca de chocolates e nominando-se Saturno Ambiental, mantendo respeitosamente o referencial daquele endereço. Na sede, restou apenas uma parede do antigo prédio, aquele pedaço de memória que mistura-se ao aroma doce de chocolate e açúcar de saia de lá, provocava frisson em crianças e adultos e, hoje, é mais uma página saborosa de um passado saudável de Blumenau.

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Amante do rádio, da música, do automobilismo e da boa roda de amigos. Apaixonado também por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista. Atua no jornal A Cidade (Timbó) com coluna própria e como entrevistador. Quase todos os dias, traz à Boina uma visão diferente do cotidiano em vários assuntos, com opinião, história e reflexões para todos os lados e gostos, além de apresentar gente muito boa na escrita em crônicas e opiniões dos colegas de jornalismo e afins.

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