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História: A ousadia de Carlos Koffke e uma amizade especial, por André Bonomini

Eu realmente tenho os melhores amigos do mundo. Não quero me gabar com essa frase, longe de mim isto, mas no nosso caminho encontramos pessoas especiais que sempre nos ensinam algo, compartilham momentos bons ou nos ajudam a superar os ruins, e marcam nossa vida de forma especial com suas características únicas, independente da distância em que estão da gente.

É estranho pra você eu começar falando de história com este pequeno trecho sobre amizade, mas faço questão de iniciar destacando exatamente isso no conto desta sexta-feira. Entre meus caros amigos desta vida, tive a oportunidade de encontrar uma moça que, além de seu gênio forte, inteligência e aquele inconformismo saudável que todos nós tempos com o que está ai, tem no seu sobrenome uma parte basilar da memória comercial blumenauense.

Carlos Koffke (Foto: Blumenau em Cadernos)

Conheci Fernanda Luiza Koffke ainda nos primeiros semestres da faculdade de Publicidade (sim, comecei fazendo PP) no IBES (hoje Unisociesc). Sem papas na língua, de opinião forte e que misturava doçura e valentia num ser só, a querida Fê não deixou esconder, em nossas primeiras conversas, quem era um dos mais ilustres integrantes da família que, aquele tempo, vivia no começo do Bom Retiro: ela é bisneta de Carlos Koffke, o homem vindo de Indaial que ousou ao sair do padrão “secos e molhados” para o que é considerado o primeiro “supermercado” do estado, em linhas gerais, ainda na década de 1940.

Carlos veio do Carijós, naquela cidade que, recém-saída dos domínios blumenauenses, ainda tinha cara de ponto de parada de viajantes. Em Timbó, abriu o primeiro comércio, em 1919, antes de seguir a carreira militar por dois anos. Partiu para Blumenau depois de uma malfadada sociedade em outra firma e, em 1929, abriu seu armazém de secos e molhados no início da Rua XV, próximo ao Clube Náutico América.

No primeiro endereço, mais tarde abrigando a Breitkopf, Koffke fez seu nome na cidade que o acolheu e o movimento era intenso todos os dias. Não eram apenas os clientes comuns de todo o dia, mas também demais comerciantes de vários pontos do Vale, em busca de bons preços no atacado para seus pequenos armazéns. Lá pela década de 1930, meu avô – Godofredo Heiden – foi um deles, procurando o armazém de Carlos para comprar, em atacado, os mantimentos para sua loja de secos e molhados no alto do Progresso (onde, hoje, eu resido).

Interior da loja na década de 1940, ainda com espaços de atendimento no balcão (Foto: Antigamente em Blumenau)
Interior da Casa Carlos Koffke, em 1963, já com as feições de supermercado (Foto: AHJFS)

Despistando o aluguel do primeiro endereço, Koffke partiu para um novo prédio, na esquina com a Rua das Palmeiras, nas antigas instalações do Hotel Brasil. Não demorou muito e o pequeno prédio precisou ser ampliado, e foi o que fez: era um magnífico prédio de dois andares que seria inaugurado em 1943, antecipando o que, no Brasil, só viria para valer 10 anos depois: O conceito do supermercado, do “self-service”, de uma grande loja de gêneros para a comunidade, não apenas dos de primeira necessidade, mas todas as utilidades necessárias (ou não).

E como disse acima, não é exagero referenciar a Casa Carlos Koffke como o primeiro supermercado do estado. A forma de venda dentro do estabelecimento misturava-se entre o clássico secos e molhados com o ainda desconhecido sistema “pegue-e-pague”, uma novidade para a época. Tudo isto 10 anos antes da iniciativa de Mario Wallace Simonsen com o Supermercado SirvaSe, em São Paulo, em 1953.

Para quem não acredita no que, de fato, era a loja e seu tamanho, saiba que o YouTube nos brinda com um velho filme de autoria de William Gerke (o mesmo que documentou a Cia. Jensen, anos depois). Trata-se, em suma, de um “comercial”, um passeio pela empresa que tornara-se aquela modesta loja de secos e molhados do cidadão de Indaial que quis ser ousado na sua forma de fazer comercio. Veja:

As mesmas histórias que meu avô contava, compartilhei sempre que possível a querida Fê nas breves caminhadas entre a sede do IBES e esquina com a Rua Hermann Hering, quando ela despedia-se de mim indo rumo a casa. O que o velho Godofredo contava à mim remete a tempos de movimento intenso em armazéns, com gente fazendo pedidos nas janelas e abarrotando os espaços, cadernos de marcação como primeira forma de crédito e que eram acertados religiosamente no dia de recebimento de salário e por ai afora. A nostalgia pura numa forma de relação comercial que nem se pensa mais nestes tempos frios que vivemos.

Não sei exatamente qual era o nível de relacionamento entre os dois, embora meu avô contasse que ele e Koffke tinham boa proximidade, mas se Godofredo teve prosperidade nos negócios, uma parte certamente se deveu a Carlos e sua grande loja no Centro. A casa comercial de Carlos Koffke fechou em 1972, dando lugar a um hotel, uma confeitaria, a sede da Cetil Informática, a Secretaria de Saúde e, por fim, a Câmara de Vereadores, que lá está desde 2013.

O Sr, Koffke, aposentado depois de anos de trabalho na loja, faleceu em 1975, aos 87 bem vividos anos. O velho Godofredo deixou meu convívio em outubro de 2014, aos longevos 101 anos. Talvez os dois, lá de cima, estejam acertando as contas passadas e dando algumas risadas olhando aqui para baixo. Fora isso, ganhei uma amizade para a vida toda de uma gentil moça ruiva, e a memória de Blumenau ainda recorda-se quando o rancho do mês levava todos a sempre confiável casa comercial de Carlos Koffke.

Foto: A BOINA
Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Amante do rádio, da música, do automobilismo e da boa roda de amigos. Apaixonado também por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista. Atua no jornal A Cidade (Timbó) com coluna própria e como entrevistador. Quase todos os dias, traz à Boina uma visão diferente do cotidiano em vários assuntos, com opinião, história e reflexões para todos os lados e gostos, além de apresentar gente muito boa na escrita em crônicas e opiniões dos colegas de jornalismo e afins.

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