Início História História: 1974, o ano que o Reino mudou, por André Bonomini

História: 1974, o ano que o Reino mudou, por André Bonomini

Se revisitarmos a história do Reino do Garcia, segundo as linhas do mentor Adalberto Day, talvez possamos perceber que, até um dado período, a segunda região mais populosa da cidade era quase como um universo paralelo dentro do município que o abrigava.

Este passado, permeado por histórias de criança, iniciativas industriais marcantes, grandes festas e até bola rolando era o que movia o ambiente, dava o clima da semana e do fim de semana e fazia justificar o nome de um de seus bairros: o Progresso.

No entanto, muita coisa mudou nesta realidade quando, num movimento empresarial, uma proeminente gigante têxtil absorvia as operações da vizinha de porta pioneira no setor na cidade. Foi com uma negociação pensada e longa que, em 1974, a já centenária Empresa Industrial Garcia (EIG) foi incorporada a Artex, o que, sem querer, causaria a metamorfose mais profunda que toda uma região viveria em sua história, seja na rotina, na geografia e, também, no esporte local.

Inícios

A Garcia nasceu em 1868, fruto do tino empreendedor de Johann Henrich Grevsmuhl, junto de August Sandner e Johann Gauche e um tecelão conhecido por Lipmann, que deram impulso às primeiras atividades da Johann Heinrich Grevsmuhl & Cia. Entre idas e vindas, fechamentos e aberturas de empresas, a EIG tornou-se o que seria de fato apenas em 1913, tomando emprestado o nome da região de onde viera a primeira família residente naquelas léguas: oriunda do Rio Garcia, em Camboriú.

Rua Amazonas, em frente da antiga Empresa Indústrial Garcia (EIG), por volta de 1971 (Foto: Adalberto Day)
Uma das tantas equipes do Amazonas Esporte Clube, fundado em 1911 nos corredores da EIG e “osso duro” nos jogos contra Palmeiras e Olímpico (Foto: Adalberto Day)

Junto dela nasceu também sua identidade para os campos. Foi em 1911 que uma reunião de operários amantes do futebol fez surgir o Amazonas Esporte Clube, o “anilado”, o “alvi-celeste” que protagonizava os grandes embates das tardes contra os primos ricos, nomeadamente Palmeiras e Olímpico. Seu estádio, ao lado da EIG, era considerado uma pérola, o mais bonito do estado, e era a praça de encontro da juventude, dos amantes do nobre esporte bretão e de uma comunidade toda em torno das grandes festas e solenidades.

Ao mesmo tempo que aqueles primeiros anos iam passando, surgia nos limites do Progresso o terceiro elemento dessa transformação, e aquele que seria responsável pela metamorfose que viria. Em 23 de maio de 1936, por iniciativa de Theophilo Bernardo Zadrozny, era fundada a Fábrica de Artefatos Têxteis, ou simplesmente Artex. Duelava de olho-com-olho no mesmo filão de negócio que a vizinha EIG e tinha nos seus primeiros quadros o tecelão que colocava ordem na casa: Otto Huber, vindo da porta ao lado.

O primeiro prédio da Artex, em 1936 (Foto: Reprodução)

Era assim que o Garcia vivia naqueles áureos tempos inocentes. No seu cercado, duas grandes empresas, um clube de futebol que era um trator na cidade e arrastava multidões. Um bairro que conviva com tragédias (como a enxurrada de 1961) e as superava quase de mãos dadas, refazendo suas instituições diante das dificuldades e das várias casas da vila operaria que formava-se.

E tudo ia bem, até que o progresso e as novidades dos anos 1970 começaram a bater a porta e entrar para nunca mais sair. E essa virada começa no 150 da Rua Progresso, em 1971.

Mudanças (e saudades)

Foi quando a Artex, mais bem estruturada e moderna tecnicamente, viu com bons olhos uma junção de forças com a vizinha centenária. Aquele começo de década não era tão fácil quanto a EIG pensava: mesmo com um Centro de Processamento de Dados (CPD) moderno, o maquinário antigo e as mudanças no panorama mercadológico daqueles tempos não eram mais os mesmos da época romântica.

No exterior, em Nova York, uma reunião de altos empresários colocou frente a frente os Hauer, administradores paranaenses da EIG desde 1918, e os Zadrozny. Seriam as primeiras conversas do que viria ser processado e finalizado em fevereiro de 1974, num movimento praticamente previsível: a incorporação das atividades da Garcia pela Artex. A casa dos Zadrozny passava a ser a maior indústria têxtil latino-americana, e a EIG, meramente, uma das marcas de seu portfólio.

O novo trajeto da Rua Amazonas, já depois de 1974. Com a incorporação, as mudanças na paisagem da região foram profundas, colocando a EIG na história e aterrando parte da memória do outrora glorioso Amazonas (Foto: Antigamente em Blumenau)
Praça Getúlio Vargas, na metade final dos anos 1970. e, suma nova localização (Foto: Antigamente em Blumenau)

Foi um movimento esperado? Diga-se que sim, embora os saudosos da EIG sintam as pontadas da saudade e indignação pelo fim de sua história como empresa independente. Tem quem diga que “a Artex jamais chegava aos pés da Garcia”, mas são papos de paixão latente que as tabelas e ideias empresariais não conseguem entender.

Em torno das empresas, o grande Garcia e seus bairros mudavam: a velha passagem por dentro da EIG era fechada e trocada por um novo caminho “por trás”, a Praça Getúlio Vargas era deslocada mais para o bairro Glória, a Rua Emílio Tallmann ganhava um novo acesso “indireto” para a Rua Amazonas, quase todo um quadro de funcionários trocava os uniformes e passava a emprestar sua força para a marca do cavalo-marinho.

As clássicas casas dos operários na Rua da Glória, em início dos anos 1970. Uma paisagem que, pouco a pouco, foi sumindo do mapa. Três destas tantas casas ainda restam na mesma região (Foto: Adalberto Day)

Mas uma ferida ainda seria rasgada até o fim daquele 1974. Com a incorporação, também era dado um ponto final na história cheia de nuances emocionantes do Amazonas nas quatro linhas. Aquele 1974 marcaria a possível volta ao profissionalismo depois de anos no amador (e muitas conquistas citadinas), mas as máquinas da Construtora Triangulo não esperaram qualquer decisão antes de começar a aterrar o estádio sem dó e nem piedade.

A decisão do fim fez a sede do AEC ser invadida e muitas de suas relíquias pararam nas mãos de torcedores apaixonados. Os 5 a 1 da equipe diante do Humaitá (de Nova Trento), na final da Taça Governador Colombo Machado Salles, foi o último suspiro do anilado Guardado nos livros, fotos e memórias de quem viu no campo os lances hipnotizantes de Nena Poli, Antônio Tillmann, Ziza, Nino, Deusdith de Souza (ele mesmo, o ex-vereador), Nilson (Bigo), Tigi, Meyer, Tarcísio Torres e tantos outros craques de seu tempo.

Uma das últimas equipes do AEC, na década de 1970. A junção de Artex e EIG sepultou o anilado, cujas memórias sobrevivem na mão de velhos admiradores. Em pé: Raul Cavaco, Nena, Girão, Eloy, Gaspar e Adir; Agachados: Werninha, Nelsinho, Bigo, Tarcisio, e Ademir.

Tudo aconteceu a luz de 1974, e olhar para trás depois de tudo, faz entender o porquê de tantos que moram ou conhecem este passado colorido do hoje “Reino” sintam as pontadas de orgulho, saudade, certas indignações e grandes reverencias. Os antigos recordam e os jovens, como eu e tantos outros, têm apenas o trabalho de tentar imaginar como era aquele Garcia tão diferente e de cotidiano tão único que existiu.

Muito desta história passada não sobreviveu ou continua nas mãos de terceiros, como a Artex e suas instalações, sob o controle da Coteminas e uso da própria prefeitura. Do Amazonas, apenas relíquias e memórias dos velhos torcedores que ainda devem ouvir a marchinha sempre que passam perto de onde era o antigo estádio. Do bairro velho, apenas três casas da vila operária sobrevivem como lembranças do dia-a-dia antigo.

Diante dos novos tempos da Hering e das promessas de que “não é o seu fim”, impossível não lembrar que, pelas terras do Reino, algo parecido já aconteceu. E tanta coisa mudou – física e socialmente – na história e cotidiano do sul de Blumenau. A história continua, preserva e segue em frente, como o Garcia a cada dia que vai e vem.

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Amante do rádio, da música, do automobilismo e da boa roda de amigos. Apaixonado também por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista. Atua no jornal A Cidade (Timbó) com coluna própria e como entrevistador. Quase todos os dias, traz à Boina uma visão diferente do cotidiano em vários assuntos, com opinião, história e reflexões para todos os lados e gostos, além de apresentar gente muito boa na escrita em crônicas e opiniões dos colegas de jornalismo e afins.

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