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Trânsito: A prisão perpétua que cumprem as vítimas e suas famílias, por Márcia Pontes

Muita gente pede prisão perpétua para crimes de trânsito, mas nem todo mundo percebeu que ela já existe às avessas e quem cumpre essa pena até o último suspiro do final de seus dias são as vítimas e seus familiares, na maioria expressiva dos casos. De como os réus e suas famílias se sentem pouco se sabe, porque eles se blindam de qualquer demonstração de arrependimento, não se desculpam perante os mortos e seus órfãos, perante a sociedade, não admitem os erros, fogem de responsabilidades e é sempre comum vê-los sorridentes vivendo a vida por aí. Se máscara ou realidade feita de indiferença não se sabe, mas a única certeza que se tem é de que quem paga essa conta e cumpre essa pena perpétua são as vítimas e seus familiares. Por isso, a coluna de hoje é dedicada com muito respeito a eles e a quem os sentenciou.

Pena perpétua

Fernando era motorista profissional e dos bons! Um cara que virou meu amigo pelas redes sociais porque insistia em me procurar para manifestar a indignação em relação à irresponsabilidade e às lambanças de muitos motoristas que faziam e ainda fazem do trânsito um lugar arriscado. Da última vez que nos falamos, Fernando contou sobre a fina que tinha levado de um motorista e que sentiu a morte de perto. Uma semana depois o meu amigo era manchete por ter sido morto por um motorista que dirigia sob o efeito de álcool a níveis de crime de trânsito.

A esposa do Fernando e o filho que ele deixou quando ainda era uma criança não são mais os mesmos: a busca por ajuda psicológica para tentar seguir a vida virou uma constante. As postagens e fotos em redes sociais são de dor, tristeza e sofrimento. Mudaram de endereço, mas continuam carregando a ausência, a angústia e o sentimento de injustiça por onde vão. Sabem que continuarão pagando a pena perpétua cuja sentença foi dada por quem bebeu, dirigiu e matou. Lá se vão anos e o processo não anda, parece não ter mais fim. Do motorista que matou, o que se sabe é que continua vivendo a vida adoidado!

Histórias de dor sem fim!

Desde 2013, a cada dia 29 de março os pais de Ismael Cavalheiro visitam a cruz que está fincada no local da sua morte, na Rua Bahia. Ele tinha 19 anos e seguia de moto atrás do carro da família. Tinha bebido litros de refrigerante no encontro que reuniu outros parentes, que era para matar a saudade, mas um motorista sob o efeito de álcool acabou transformando numa despedida. Na volta para casa, o pai de Ismael não viu mais a moto do filho pelo retrovisor e resolveu voltar para ver o que tinha acontecido. Já o encontrou morto e atirado longe pelo impacto da batida.

O motorista abandonou o carro e fugiu do local a pé, mas foi detido pela PM próximo do local do acidente: disse que ficou com medo porque tinha bebido antes de dirigir, o que foi comprovado no teste de etilômetro. Desde então é comum se ver muitas cruzes colocadas por outras famílias nos locais onde os seus queridos foram mortos por irresponsáveis e covardes ao volante.

Também foi em 2013 que o casal de namorados Maria Isabel e Vitor perderam a vida na Via Expressa. Um veículo desgovernado conduzido por um homem sob o efeito de álcool e sem habilitação atravessou o canteiro e provocou a morte e a pena perpétua também de seus familiares e amigos. A Justiça para essas pessoas também nunca veio.

Em 2014, Fernanda Fagundes, que tinha só 25 anos, esperava o ônibus para o trabalho em um ponto na Rua Frei Stanislau Schaette, por volta das 5h. O trabalhador Jacir, de 47 anos, esperava o mesmo ônibus quando um veículo em alta velocidade, desgovernado, conduzido por um motorista sem habilitação e alcoolizado, os atingiu matando-os na hora. Esse motorista estava acompanhado de mais duas moças e fugia de uma viatura da PM. Em entrevista à TV o motorista disse: “não fui o primeiro e não serei o último”, dando um golpe sem misericórdia nas esperanças das famílias e da sociedade por uma justiça que nunca chega.

Fernanda morava e cuidava dos pais idosos e estava toda feliz porque tinha acabado de conseguir um emprego depois de muito tempo. Mas, além da pena da ausência e do sofrimento perpétuos, os familiares contam que o mais duro, difícil e desumano foi ter de aguentar a indiferença e o sorrisinho de canto de boca do réu nas audiências. Era como se tripudiasse, pisasse e limpasse os pés imundos em seus corações. Logo depois os pais de Fernanda passaram a ter sério problemas de saúde física e emocional. Até hoje não se conformam com a pena branda que foi aplicada ao réu.

Uma justiça que nunca chega

São tantas histórias que sequer caberiam nesse artigo e todas com uma coisa em comum: quem continua pagando a pena até o fim de seus dias são as vítimas sobreviventes e suas famílias que continuam morrendo um pouco a cada dia. Vítimas que pagam diariamente a pena perpétua de viverem o resto de seus dias no fundo de uma cama, de uma cadeira de rodas convivendo com a dor física, emocional e mental. A pena de perder os movimentos de seus próprios corpos que não obedecem e de voltarem a ter os cuidados de um bebê que precisa ter as fraldas trocadas, ser alimentado, banhado e consolado constantemente para terem no que acreditar dali para a frente.

Processos que andam a passos de lesma esbarrando em recursos dos recursos dos recursos movidos pela indiferença de quem se tivesse os visitado pelo menos uma vez para terem consciência do estrago que causaram não aparentariam tanta desumanidade para tentar salvar a própria pele.

E o que dizer desses pais, dessas mães, desses irmãos, desses sobrinhos, dessas esposas, maridos e amigos que ficaram órfãos pela irresponsabilidade de outros que sequer conheceriam nessa vida, mas que acabaram cruzando os seus caminhos para trazer uma dor e sofrimento que sequer suportariam?

O que os réus sentem?

Se tem uma coisa difícil de se saber é o que os réus sentem de verdade: se estão arrependidos, se mudaram as suas condutas na vida e na via, se continuam bebendo e dirigindo escondido, se a consciência os cobra, se a culpa os assombra, se eles veem os rostos das vítimas do que provocaram. Nunca se sabe se eles assumem essa culpa perante eles mesmos, se conseguem dormir, olhar nos olhos de seus filhos e das pessoas que amam com a dignidade que deveriam ter.

Eles nunca falam diretamente, só perante as palavras medidas e bem elaboradas (nem sempre, é verdade) por seus advogados nas peças judiciais. Deles mesmo nada se sabe porque não movem um músculo em suas caras mudas que lembram rostos de esfinges enquanto as vítimas se foram ou pagam junto com suas famílias a pena perpétua da dor e sofrimento sem fim. Sempre de pires na mão mendigando algum tipo de punição justa pelo mal que causaram.

Empatia

Eu vou te dizer uma coisa que talvez você não tenha parado para pensar: ninguém está livre, protegido, isento ou blindado de passar pelo que essas vítimas e suas famílias estão passando, nem os réus e as famílias deles. O que se sabe é que há muito motorista com atitudes irresponsáveis no trânsito e que uma hora levarão dor e sofrimento a inocentes que eles nunca pensaram em conhecer. Assim como na vida, na via há laços que nos prendem mesmo quando somos desconhecidos uns dos outros.

Queremos sempre ligar nossas vidas às vidas de outras pessoas por laços afetivos, de felicidade e bem comum, mas basta que uma infração dê errado para você se ver ligado pelas consequências da irresponsabilidade que comete. Todo mundo se machuca, mas quem continua vivo sempre tem a chance de lamber e curar as suas feridas. Quem se vai não tem mais nenhuma chance.

Tirar a vida de alguém, determinar quando essa vida acaba ainda que por culpa, ainda que assumindo os riscos de ferir o que há de mais sagrado e deveria ser o tempo todo protegido é um dos piores crimes. Deveria ter justiça exemplar, rígida, e que ainda que não fosse perpétua, que lhes fizesse ensinar alguma coisa de útil para o resto de suas existências muitas vezes vazias.

E como se não bastasse pagar dia após dia a pena perpétua da dor sem fim, as vítimas e seus familiares costumam ser mortas mais uma vez pela desumanidade de quem diz que indenização não traz os mortos de volta, que só pensam em dinheiro, em tirar vantagem do “coitadinho” do réu que decretou a pior sentença de todas. A sentença do “você não vai mais viver pelo que fiz”, “você nunca mais vai respirar, abraçar, sentir o cheiro de uma comida, de uma flor ou de quem você ama”.

Aquela sentença de quem ignorou os resultados de sua conduta irresponsável e prolatou: “você não conhecerá o amor da sua vida e se conheceu não viverá para viver com ele; você não terá filhos, não os verá crescer, se formar, se casar, te dar netos e nem morrerá feliz por ter vivido tanto.” A sentença das consequências das atitudes dos réus são as mais gravosas, dolorosas e perpétuas e para isso não existem recursos, embargos ou justiça que seja feita, a não ser pelas atitudes que eles tomarão daqui para a frente em relação às vítimas, às suas famílias, perante eles mesmos e a sociedade. Sabe aquelas coisas que o dinheiro não compra e quem tem dinheiro para garantir o jus sperniandi ad infinitum não conseguem ver além de cifras das quais recorrerem o tempo todo?

Enquanto o corpo da Suelen se decompõe debaixo de uma lápide fria e na urna com as cinzas da Amanda florescem as rosas que ela tanto amava, as famílias delas e de outros órfãos de mortos no trânsito seguem pagando a pena perpétua. Empatia é colocar-se no lugar do outro para tentar compreender a dor que eles sentem, mas nem todo mundo consegue. Humanidade é aquilo que dinheiro nenhum no mundo compra e o que nos diferencia dos outros seres vivos, que apesar de não serem humanos são capazes de reações e sentimentos que muitos humanos jamais terão.

Eu sonho com o dia em que a empatia e a humanidade possam ser sentidas e desse sentir resultem atitudes dignas. Aquelas que dinheiro no mundo paga e que podem ajudar a fazer com que esses corações sofridos e órfãos possam continuar batendo com fé e esperança na Justiça. E isso vale para as vítimas, para as suas famílias, para os réus e para os homens e mulheres da lei que julgarão esses casos, principalmente os que envolvem bebida e direção.

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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