Início Márcia Pontes Trânsito: qual o fim da picada Velha-Garcia? Por Márcia Pontes

Trânsito: qual o fim da picada Velha-Garcia? Por Márcia Pontes

O estado da via nas obras no prolongamento da Rua Willi Henkels até o Zendron, após as chuvas dos últimos dias, preocupa bastante não só os moradores da região, mas aqueles que têm a lucidez necessária para compreender que a picada aberta em meio a uma área de alto risco geológico natural e induzido jamais será a legítima Ligação Velha-Garcia, conforme anunciado em campanha eleitoral. A promessa construída na lama que se forma pelas águas, barro e pedras que desbarrancam das encostas, em meio a uma área vulnerável à deslizamentos e movimentações perigosas de terra, se mostra cada vez mais com uma relação custo-benefício duvidosa.

Para começar, praticamente todo o trabalho feito ali até agora (e está só no comecinho) foi perdido e precisa ser recomeçado, sem falar na estimativa de alto custo para se fazer contenções eficientes que evitem tragédias anunciadas. Se vão insistir na teimosia, é bom começar a reforçar a sinalização, fechar e reforçar a proibição de qualquer passagem para os motoristas. 

Assim como existe uma parcela de pessoas que acreditou mesmo que a proposta de reabrir a Rua Willi Henkels por cerca de 6 quilômetros até o Zendron em meio a uma área de alto risco geológico e ambiental foi um ato de “coragem”, que nenhum outro foi “capaz” até agora, também existem pessoas e profissionais da área que não param de alertar para o alto risco da aposta.

Clique abaixo para assistir a reportagem de Jamille Cardoso e ver como está a situação no local atualmente:

Complexidade

Não se está falando de uma via qualquer, em que se passa a patrolinha para alisar o barro e tudo bem. Quem mora em rua sem pavimentação sabe muito bem que a patrola passa de manhã e a chuva da tarde já deixa tudo enlameado e esburacado de novo. Se no asfalto da cidade, a cada chuva já tem buraco fazendo fila para entrar na via (como na Rua dos Caçadores), imaginem uma via extensa, que liga dois dos bairros mais populosos (Velha e Garcia), que vai gerar uma alta demanda por circulação de veículos de todos os pesos e tamanhos. Não precisa ser muito inteligente para perceber que isso não vai terminar bem.

Para se ter uma ideia da necessidade de contenções eficientes para evitar que a via fique interditada cada vez que as encostas começarem a derreter naquele local, basta acessar o aplicativo Google Earth e visualizar o local do alto. Você verá um fiozinho vermelho representando a via em meio a uma imensidão de verde plantado em morros e acidentes geográficos que, na prática, representam alto risco de catástrofes naturais.

Foto: Reprodução / Google Earth

Custo-benefício

Patrolar a Rua Willi Henkels até o Zendron e entregar a via sem pavimentação para a circulação de veículos apresenta que custo-benefício? A estimativa de cifras no início do projeto pode mudar mais adiante e com uma frequência cada vez maior que corre o risco de tornar essa gambiarra viária mais cara do que o projeto original da legítima Ligação Velha-Garcia.

E depois da via aberta e entregue à circulação, em caso de acidentes com feridos e até mortos, quem vai pagar essa conta? O motorista que acreditou que aquela via não apresentava riscos? Azar o dele, que passou por ali porque acreditou no custo-benefício de cortar caminho e diminuir o tempo de viagem e de engarrafamento? Ou o poder público vai assumir a responsabilidade que lhe cabe na íntegra?

Cava, patrola, alisa o barro, cai encosta, vai mais dinheiro para contratar mais serviços, aditivar contratos, aumentar os custos e o fio de Ariadne nunca tem fim. Custos com iluminação tendem a ser dobrados, além do risco da ocupação irregular às margens da via, o que vai gerar mais problema ainda!

Foto: Jamille Cardoso / Portal Alexandre José

Força-tarefa

Já que quem teve a ideia de abrir uma picada com promessas de ficar melhorada não tirou aquela soneca para ver se a vontade de criar problemas passava, o jeito agora é ouvir outros geólogos, engenheiros, ambientalistas e especialistas nas demais áreas para se esquadrinhar detalhadamente o que se pretende fazer daqui para a frente. Uma análise minuciosa, detalhada, científica, apoiada em estudos sérios que possam apresentar mais dados, mais variáveis, mais projeções de resultados com base na realidade. E, de preferência, que essa força tarefa seja capitaneada pelo Ministério Público.

O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) diz em seu artigo 88 que nenhuma via pavimentada poderá ser entregue após sua construção, ou reaberta ao trânsito após a realização de obras ou de manutenção, enquanto não estiver devidamente sinalizada, vertical e horizontalmente, de forma a garantir as condições adequadas de segurança na circulação.

Tudo bem que o CTB fala em via pavimentada, mas isso não significa que não se deva ter as mesmas cautelas em relação à picadas, caminhos, passagens e estradas, de acordo com as peculiaridades locais e as circunstâncias especiais. Se não houver a seriedade que demanda e se espera em relação à rua de barro que vai cortar da Velha ao Garcia, não adianta depois dizer que a culpa é da torcida do contra. Ouçam os profissionais da área, atentem para o conhecimento técnico, revejam, refaçam as contas, as projeções, as estimativas, analisem criteriosamente os riscos e se aquele projeto é de engenharia, de geologia, se é ambiental ou eleitoreiro.

De fato, não se trata só de passar a patrolinha. Se a Rua Bruno Hering, ou a Rua do Morro da Cia como é mais conhecida, também é uma rua estreita, com sobe e desce, curvas fechadas e frequentes ocorrências de acidentes que trancam tudo, imagina uma via parecida sem pavimentação!

Nos últimos tempos, basta uma chuva mais forte para arrancar árvores, causar deslizamentos, desbarrancamentos e outros transtornos na área urbana. Imaginem em via rural rodeada de riscos de todos os tipos.

Lembrando que a responsabilidade de sinalizar adequadamente o local para impedir a circulação de veículos enquanto durarem as obras é da Prefeitura. Se coloca cavalete e alguns motoristas tiram do local ou jogam de lado, tem que ir lá e recolocar. Interditem com roletes de concreto, façam barricadas, trincheiras, mas deixem claro o compromisso e a responsabilidade de sinalizar adequadamente o local. Porque essa responsabilidade é objetiva independente de dolo ou culpa.

Formem uma força-tarefa composta por profissionais de áreas científicas correlatas. Reavaliem esse projeto. Se for seguro, se não for multiplicar prejuízos, se for viável e não gerar custos desnecessários ao município e aos cidadãos, façam. Se não for, envie-se daqueles releases para toda a imprensa com a desculpa de que a situação piorou desde o nascedouro da ideia e aceita que dói menos.

É o que se vai fazer daqui para a frente que vai determinar o fim da picada.

Ainda dá tempo de evitar o pior.

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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