Início História História: o passado e o presente do Castelinho, por André Bonomini

História: o passado e o presente do Castelinho, por André Bonomini

Nem de longe, ele deve ser considerado um prédio “em enxaimel”, para não ofender os arquitetos, mas olhar para ele emana de tudo um pouco no coração da sempre movimentada Rua XV no dia-a-dia. Comparado ao casario histórico, sua memória ainda é recente demais, quase jovem, mas não precisa tanto tempo para se tornar um ícone como ele o é, arredondando as contas, há exatos 43 anos.

E quando recordamos esta quadra tão marcante da Rua XV, logo percebe-se que, mesmo parecendo um tanto recente, ele guarda histórias que remetem ao passado comercial da cidade. Momentos presenciados por ele que passam pelo auge como sede de uma das lojas mais queridas de outros tempos. Ele também já viveu o obscurantismo que beirou o abandono e, hoje, encontra nova vida como sede de uma conhecidíssima marca do comércio de departamentos brasileiro.

E, que me desculpem os modernos e “corretos” de hoje, mas este jornalista-historiador continua referencia-lo, até hoje, como sua mais histórica passagem: o “castelinho da Moellmann”, marca que ganhou por ser ali a sede da Moellmann Comercial S.A., especialista em ferragens e materiais de construção, que passou de mera razão social à cartão postal, e que torna impossível falar do castelinho, sem falar dela.

Moellmann: da Capital ao Vale

A Moellmann foi fundada em 25 de outubro de 1869 por Carl Moellmann, em Desterro (Florianópolis), onde chegara também a abrir uma filial. Era referência em ferragens, tintas, ferramentas diversas e outros produtos de construção e manutenção. Tinha sua popularidade na capital e boas perspectivas de crescimento comercial, estas responsáveis pela abertura da terceira loja, a segunda filial, aqui em Blumenau, em 1919.

Tanto o primeiro prédio, datado de 1913, quanto o castelinho que viria posteriormente, estão no mesmo endereço: naquele tempo, próxima ao Hotel São José (atual Tunga), na esquina com a Rua República Argentina (à época, com saída na Rua XV). Ao chegar, a Moellmann logo conquistou a confiança dos blumenauenses que ainda construíam a cidade lentamente desde os idos de 1850, sempre bem movimentada e falada na cidade.

No entanto, se os negócios iam bem em Blumenau, na capital do estado as coisas não eram lá tão positivas. Em 1921, a família Moellmann fecharia a matriz e a filial de Florianópolis e concentraria as atividades em Blumenau, que passava a ser a sede da empresa. Depois da turbulência dos primeiros anos, a loja consolidou-se definitivamente como uma grande empresa no ramo da construção e utilidades, tornando-se referência na cidade que lhe acolhera.

Foto: Antigamente em Blumenau

Castelinho: da Alemanha à Rua XV

Consolidada, voltando suas vendas também à presentes e utilidades domésticas e com filiais em Balneário Camboriú e Joinville, a Moellmann chegava sólida ao fim dos anos 1970 e pedia uma nova estrutura em substituição ao velho prédio de 1913. A loja também havia perdido espaços úteis com a continuação das obras da Avenida Beira-Rio, que alcançariam o seu ponto final (próximo ao terreno da atual Prefeitura) em 1978.

Então, em 1977, a ideia que vinha não era apenas de construir um mero prédio comercial, mas sim de deixar algo maior e marcante ao centro da cidade que, naqueles tempos, descobria cada vez mais sua vocação turística. Na ideia do empresário Udo Schadrack, a construção de um prédio de características germânicas sem perder a imponência. Visão esta de Schadrack compartilhada com o arquiteto Henrich Herwig, o mesmo que construíra, em 1969, o belo Restaurante Frohsinn, no alto do Morro do Aipim.

Era uma ideia fora da curva, mas ela se venderia por si só nos anos seguintes. Construir um castelo no meio da Rua XV soava visionário, mas nada espantoso para aqueles tempos imaginativos. A inspiração de Herwig era a Prefeitura de Michelstadt, cidadezinha ao sul da Alemanha, cuja Prefeitura era sediada em um pequeno castelo datado de 1484. Na construção blumenauense, o estilo “falso enxaimel” deu a graça final, aproveitando os benefícios da polêmica lei que concedia descontos nos impostos – IPTU e tarifas comerciais – para construções que apostassem neste estilo nas fachadas.

Controvérsias a parte (e não eram poucas), nascia em 1978 um dos símbolos mais icônicos de Blumenau e, mais tarde, o que seria um dos cartões postais mais fotografados do país. Por trás dele, a face de um comércio que sobrevivia aos revezes de tempos difíceis, como as enchentes de 1983 e 1984, sem maiores danos. Apenas a título de nota, outra filial foi aberta nos anos 1980, na Itoupava Central.

A Prefeitura de Michelstadt, prédio de 1484, usado de inspiração para a arquitetura da Moellmann. Foto: Reprodução

Tempos difíceis e a volta à glória

Passariam 21 anos e, apesar da vitalidade do castelinho, a Moellmann em si não seguia o mesmo ritmo. Os tempos haviam mudado no centro da cidade e a economia, naquele fim dos anos 1990, estava ainda em processo de reconstrução depois da criação do Real e dos baques das crises econômicas em países vizinhos. Impactos que, somadas as dificuldades financeiras, levaram ao encerrar das atividades da loja, em 1999.

Ao mesmo tempo, era o preludio de que algo não estava bem no comércio blumenauense. A Moellmann fechou em um momento crítico do segmento na cidade, onde muitos nomes tradicionais encerravam as atividades, fazendo correr na boca popular o infame apelido de “latinha” à cidade-jardim. As eleições municipais de 2000 foram reflexo deste momento, tendo o castelinho sendo usado como grande exemplo da “decadência comercial” da cidade.

O castelinho ficou um grande período sem uso até ser destinado para duas ações: A residência do Papai Noel no evento “Natal em Blumenau”, quando o prédio era de propriedade da Malwee; e as atividades do sesquicentenário da cidade, como QG oficial das festividades, em 2000. A secretaria de turismo também usou o castelinho como sua sede, em 2002, mesma época que a Fundação Catarinense de Cultura (FCC) tombaria o prédio como patrimônio histórico, mesmo que as condições da construção já não fossem as melhores.

Isto que apenas o castelinho era ocupado, permanecendo abandonadas as demais instalações da loja, sem um destino definido. Esta situação perdurou até 2005, quando uma consagrada loja de departamentos chegava em Blumenau e, com eles, os planos para utilizar-se do castelinho como uma de suas sedes, fato que aconteceria em 2008, mesmo com o baque da catástrofe que abateu-se sobre o estado.

Depois de anos de incertezas e uma presença preocupante, o castelinho simpático da Rua XV era, novamente, o bom e velho cartão postal que encanta turistas e não deixa nenhum blumenauense inerente a sua presença que passa dos 40 anos presenciando histórias, momentos, turistas e embelezando fotografias e postais de todos os tipos e tamanhos.

O castelo de linhas imponentes e simpáticas, mesmo em “falso enxaimel”, é a marca de uma cidade que, mesmo moderna, não deixa de olhar para trás nas origens que a construíram. Da visão sonhadora de Schadrack e Herwig, nasceu uma obra que arranca suspiros até dos incautos e enche de orgulho uma cidade que tem, no coração agitado do centro, um recorte de identidade germânica impresso em tijolos, aço, tinta e memória.

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista. Quase todos os dias, traz ao blog A Boina uma visão diferente do cotidiano em vários assuntos, com opinião, história e reflexões para todos os lados e gostos, além de apresentar gente muito boa na escrita em crônicas e opiniões dos colegas de jornalismo e afins.

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