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Trânsito: como motoristas ignoram o CTB e criam seus próprios códigos, por Márcia Pontes

O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) vai completar 23 anos e muitos motoristas ainda não conhecem dele o básico. Não falo de artigos, parágrafos e incisos, pois essa é uma tarefa para quem tem por profissão ou muito interesse estudar e conhecer. Falo da prática no dia a dia, das vias em que, apesar da noção do que pode e do que não pode ser feito, ainda assim fazem por decisão própria. Uma coisa é certa: a percepção de riscos de grande parte dos motoristas não é a mesma de quem escreveu o Código de Trânsito.

Todo motorista sabe que é proibido transitar pelo acostamento, mas transitam (inclusive à noite) ignorando que ali possa ter pedestres ou ciclistas, e tudo no que eles pensam é em sair da fila parada num ato de egoísmo que pode custar vidas. O que dizer de dirigir sob o efeito de álcool então, em que todos sabem que pode dar até cadeia, a multa é salgada, suspender o direito de dirigir, mas continuam ignorando e fazendo. É como se os motoristas aplicassem o único código que conhecem: o deles próprios. 

O cenário é noturno: oito horas da noite, chuva, trânsito andando a passos de tartaruga, cansado, quando não parado a maior parte do tempo numa fila interminável. Um a um os carros começam a transitar pelo acostamento, alguns até em velocidade sem que os motoristas se preocupem com os tachões e sonorizadores. Alguns ligam o pisca-alerta na ilusão de que isso ameniza a gravidade dos riscos. 

Basta uma viagem não muito longa ou mesmo em pequenos trechos dentro das cidades para perceber que o egoísmo impera como, por exemplo, nas mudanças de faixa de tráfego sem dar seta quando sinalizar com luz é a única forma segura de comunicar a sua intenção aos outros motoristas. Aquele velho hábito de colar na traseira do veículo que vai à frente mesmo perdendo praticamente todo o campo de visão para a manobra é uma coisa que incomoda até quem faz isso. 

A questão da velocidade é clássica e demonstra que a percepção dos motoristas não tem nada a ver com segurança em que prevalece o seguinte: se a pista está livre acelera como se a única ameaça fosse o motorista que está à frente e não as condições da via, uma curva fechada adiante ou a necessidade de frear bruscamente por outro motivo. Aliás, uma das maiores causas de acidentes combinando velocidade com outros fatores de risco e imprudências. 

Quando a coisa degringola porque o motorista bebeu, dirigiu, machucou ou tirou a vida de pessoas, tudo piora e parece que todas as coisas ruins que o ser humano é capaz de abrigar dentro de si afloram com a negação do ato que praticaram e na tentativa de culpar as vítimas. Para piorar mais ainda encontram defensores que parecem desconhecer os limites da dor humana e dos órfãos do crime que os seus clientes cometeram. 

Imagina aquela vaga para pessoas com mobilidade reduzida! É só por um minutinho enquanto quem precisa armar ou desarmar uma cadeira de rodas que se vire! Tudo bem para quem estaciona se o carro ficar estacionado na esquina tirando a visibilidade e aumentando o risco de acidentes se o entendimento desse motorista é de que é rapidinho. 

Tarefa muitas vezes ingrata para quem precisa explicar a mudança que uma nova lei vai provocar nos próximos meses ou dias, pois ao tentar esclarecer o que os legisladores decidiram acabam apanhando feio como se fossem os autores da Lei que nem sempre eles concordam. É um misto de raiva pela ameaça de punição canalizada para quem está tentando orientar. 

Para aqueles leitores que estão na estrada a maior parte do tempo e que presenciam ainda muito mais imprudências de quem respeita apenas os próprios códigos no trânsito sempre há mais o que contar, mais com o que se indignar e até mais para tentar justificar. 

As produções científicas que tentam explicar as causas da acidentalidade, o comportamento dos motoristas, alertar para os riscos e orientar para poupar vidas de novas tragédias, dão conta de que em países sem plataforma cultural voltada para a segurança viária haverá sempre esse abismo permeado de uma visão distorcida. 

Sim, há tropeços dos dois lados: legisladores que fazem leis absurdas, que nem sempre serão cumpridas porque sequer condições de executar e fiscalizar existem e motoristas que sempre irão buscar um culpado para tentar justificar as lambanças que fazem no trânsito. E em meio a esse apontar de dedos, salve-se quem puder, porque a cada dia os motoristas têm demonstrado que o único código que eles respeitam é esse do universo paralelo das vias. Qualquer outro código ou fiscalizador das atitudes insanas no trânsito são objeto de abominação. 

Chego a comparar com o universo paralelo daqueles outros segmentos da sociedade que criam os seus próprios códigos, leis, impõem condutas e cobram até suas próprias “taxas”. As pessoas no nosso país ainda têm muito a aprender sobre si mesmas, sobre trânsito e segurança, mas a tarefa maior e mais difícil é perceber os cuidados que se deve ter com a própria vida. Isso o código paralelo não considera e quando a tragédia vem costuma ser chamada de fatalidade. Afinal, é sempre mais fácil culpar os outros. 

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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