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História: nostalgia, fantasia e “seis Corcel” nos natais da HM, por André Bonomini

Entre as esquinas que caminho por Blumenau, vem a memória recordações de natais passados, quando, no tempo de criança, tínhamos guardados no coração aquela ansiedade para o grande dia, quando festejaríamos com a família, abriríamos presentes e comeríamos muito sem esquecer, é claro, do verdadeiro significado da data (que, presumo eu, todos devem saber).

Foto: Divulgação

Eram tempos onde tudo era muito mais simples do que conhecemos hoje. Enfeites soavam mais belos, as luzes mais brilhantes e os preparativos mais caprichados e afiados para a data. Tempos onde a fantasia era quem mandava e as crianças, maravilhadas, corriam para a Rua XV para um dos pontos altos da festa natalina na cidade: o desfile que, mesmo com o lado comercial da história, tinha sua sinceridade em espalhar o espírito natalino até no mais amargo dos munícipes. 

Falo, naturalmente, de uma das mais vívidas lembranças de muitos quando o assunto é “Natal em Blumenau”: os desfiles de Natal da saudosa Hermes Macedo (HM), e que, para recontar esta história, revisito uma passagem da vida jornalística quando de meu encontro com o sensacional publicitário e mago das minimotos feitas de relógios José Geraldo Reis Pfau, o Zé Pfau para os amigos.

Foto: Divulgação

Bem guardado em um álbum de capa azul no seu escritório na Rua Joinville, Pfau tem registrada uma página doce da história natalina blumenauense. Ela não é tão antiga como a dos primeiros anos do município, mas guarda um encanto único. Mesmo com todo o viés comercial, a Hermes Macedo era o espetáculo maior em tempos onde vender era “uma das” e não, essencialmente, a “maior” prioridade.

O álbum foi uma das maiores surpresas que Pfau tivera em tempos. Me contara que ganhou de uma senhora que, certa feita, lhe bateu a porta do escritório para lhe entregar o documento que, se não tivesse outro fim, o descartaria. Até hoje, ele não se recorda do nome da moça tamanha a surpresa que teve. Eram recordações não apenas da clássica HM, mas também do trabalho do saudoso pai, Osmêmio Pfau, gerente da filial blumenauense por 35 anos.

Fazendo um breve histórico, a loja nasceu de uma modesta agência de autopeças fundada em Curitiba, em 1932, pelos irmãos Astrogildo e Hermes Macedo. Do tamanho da fama e freguesia que a agência de autopeças ganhava, os irmãos abriram uma segunda loja na capital paranaense, na Praça Generoso Marques. De autopeças, a loja diversificou seu mix de produtos, passando a vender também eletrodomésticos, bicicletas, eletroeletrônicos, artigos para o lar e presentes.

Em 1943, a empresa iniciou a criação de uma rede pela cidade de Ponta Grossa, passando após por Londrina e Maringá. A filial blumenauense, a primeira fora do Paraná, foi aberta em 1950 instalada primeiramente ao lado do então Banco do Brasil, e seria pelas mãos de Osmênio Pfau, ex-profissional do futebol blumenauense, que a HM inauguraria em 1963 a maior loja da rede no sul brasileiro e a maior do Sul com vão livre, no endereço onde até o fim esteve localizada e onde, hoje, está o Brermen Zenter.

Visitar a HM naqueles tempos era uma sensação das mais incríveis. Um verdadeiro shopping que ocupava a extensão de terreno, da Rua XV à Rua Getúlio Vargas, levando ao pé da letra o termo “loja de departamentos”, com artigos de cama-mesa-banho, moda masculina e feminina, eletrodomésticos, eletroeletrônicos, costura, som e imagem, bicicletas, camping e náutica, brinquedos e, claro, peças e assistência técnica para carros, motos e caminhões. Isto sem contar que, dentro do estabelecimento, ainda havia uma pequena lancheria. Grande, não é?

Foto: Divulgação

Agora que você sabe um pouco donde surgiu esta potência, fica fácil entender o porquê da tamanha festa natalina que cercava Blumenau (e todas as cidades que tinham HM) nos áureos anos 1960, 1970 e 1980. É sabido que a grande vedete da loja neste tempo era a seção de brinquedos: a Brinquedorama, encanto para as crianças sedentas pelo presente certo no saco do Papai Noel. 

E a chegada do Natal era apenas o começo de uma festa que durava um mês completo, e não ficava apenas no puro incentivo a compra. O encanto já começava com a decoração. Além das luzes (piscas, à época eram feitos com lâmpadas de baixa voltagem), a HM montava um belíssimo portal defronte ao prédio, armado em estrutura de ferro, onde se apresentava a cada ano uma bela e diferente mensagem. Entre as fotos de Pfau, os portais sempre são os maiores destaques, impressionando pela beleza e originalidade, o grande chamariz da decoração.

Outro destaque era o presépio mecanizado que enchia os olhos de crianças e pais que visitavam a loja. Apesar de nunca ter sido registrado em filme ou foto, ele realmente existiu, foi feito por um artista de Indaial e consistia de um eixo central movido por motor elétrico que, com o auxílio de barbantes e uma precisão milimétrica nos movimentos, fazia mover todas as formas do cenário: da mão dos pastores, passando por lenhadores, anjos e as figuras centrais. Um encanto mais do que criativo.

Foto: Divulgação

Pronta a festa, era a hora da chegada do bom velhinho a cidade. Para tanto, um grande desfile sempre era organizado a cada ano com uma massiva presença do público. O setor de decoração da HM blumenauense contava com a parceria dos artistas circenses do Circo Bartolo, vindo de Curitiba, que ajudavam no desenvolvimento dos painéis, esculturas e dos carros alegóricos. Eram usados os mais variados materiais, de madeira a crepom, de metal a isopor, sempre com um resultado de encher os olhos pela perfeição conseguida.

O mesmo Circo Bartolo também colocava na pista os artistas que faziam as graças durante o desfile. Duendes, cowboys, palhaços, fadas, todo o tipo de personagem entrava na roda, para delírio das crianças que, tendo chuva ou sol, lá estavam para apreciar a festa. Depois de tanta cor, eis que no final chegava o grande motivador da recepção. Diretamente da Lapônia para Blumenau, o Papai Noel da HM pisava na loja que o abrigaria durante as festas e receberia, com carinho, os pedidos de cada um dos pequenos que lá passariam.

Foram anos de fantasias movidas a brinquedos dos sonhos, histórias e promoções épicas (como as dos seis Corcel que intitula esta crônica). Infelizmente, o destino da HM foi o mesmo de grandes nomes das lojas de departamentos no Brasil, como Mappin, Mesbla, Jumbo Eletro e outros. A crise econômica e problemas financeiros e institucionais levaram a rede de lojas à uma concordata, em 1992, e a falência, cinco anos depois. Àquela altura, a rede contava com 285 lojas em 80 cidades de seis estados brasileiros, entre elas a unidade de Blumenau, que também cerrava as portas.

Foto: Divulgação

De encanto nostálgico, a celebração natalina da HM também tem o mérito de ter colocado Blumenau como referência em natal no Brasil inteiro, com atrações que juntavam-se ao calendário municipal. Até a cidade retomar os trilhos das grandes programações de natal, foram alguns anos de tentativas, erros e acertos. Mas tudo começou com um empurrão comercial que, até hoje, desperta belas lembranças de um natal com um toque idílico e simples no ar.

São estas as recordações que navegam no álbum de Zé Pfau no seu escritório. O tempo que a gigante rede de lojas “do Rio Grande ao Grande Rio” movia sonhos de crianças e adultos, muito além das prateleiras, mas nas ruas, nas cores, na fantasia única e exclusiva do natal.

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Amante confesso do rádio, da música (de verdade), do automobilismo e da boa roda de amigos num dia qualquer. Apaixonado também por história, eterno louco em busca de mais um sorriso no dia a dia e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista. Atua no jornal A Cidade (Timbó) com coluna própria e como entrevistador. Quase todos os dias, traz A BOINA uma visão diferente do cotidiano em vários assuntos, com opinião, história e reflexões para todos os lados e gostos, além de apresentar gente muito boa na escrita em crônicas e opiniões dos colegas de jornalismo e afins.

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