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História: Blumenau sob o olhar de Amaral Netto, “O Repórter”, por André Bonomini

Era 1971, tempo em que o mundo ainda vivia entre as tensões da Guerra do Vietnã e os conflitos na Irlanda do Norte. Assistíamos a entrada da China na ONU e a fundação dos Emirados Árabes Unidos. Falava-se em duas alemanhas, Guerra Fria e vivemos o auge da repressão da ditadura nas mãos do presidente Garraztazu Médici. 

Por falar em Médici, por aqui desabavam o Complexo da Gameleira (Expominas), em Minas Gerais, e o Elevado Paulo de Frontin, no Rio. O Atlético Mineiro era campeão brasileiro e Jackie Stewart era campeão de F1 pela segunda vez. Perdíamos Jim Morrisson, Louis Armstrong, Coco Chanel, Nikita Khrushchev e víamos o clímax da Guerrilha do Araguaia, com a morte de Carlos Lamarca.

Todos estes e outros fatos rolavam pelo mundo quando Blumenau era visitada pela terceira vez por um dos mais importantes jornalistas brasileiros: deputado, ufanista declarado, polêmico e aventureiro, este era Fidelis dos Santos Amaral Netto (1921-1995), ou, para os “íntimos”, Amaral Netto,”O Repórter”.

Foto: Divulgação

Consagrado como o primeiro “repórter-explorador” da TV brasileira, Netto estava na cidade naquele 1971 para coloca-la como um dos destaques da edição número oito da revista homônima que editava desde 1968. Revista esta uma extensão do programa de TV de grande sucesso lançado no mesmo ano e que ousou desbravar rincões ainda desconhecidos dos próprios brasileiros, sendo o primeiro a fazê-lo para a televisão nacional.

Apesar de pioneiro, os textos e reportagens de Amaral Netto tinham um tom ufanista por baixo dos pontos e vírgulas, procurando destacar os grandes feitos do que ele, Adolpho Bloch, da Manchete, e tantos outros chamavam de “Brasil Grande”: as obras do governo militar, quase como uma “propaganda institucional” do regime em horário nobre. Não a toa, em algumas empreitadas de Netto, o repórter contou com o apoio de unidades das Forças Armadas para deslocar-se pelo pais, entre outras benesses.

E com Blumenau não foi diferente. Nesta edição da revista em especial, a cidade dividia destaque com uma aventura no Amazonas (capa principal), o estado de Goiás, a nova estrutura de Copacabana e a Siderurgia no país. Na matéria em si, depois de fazer um breve histórico em palavras de tom poético, Netto enaltece enfaticamente a “pujança” e o “ritmo acelerado” do desenvolvimento da cidade que ainda engatinhava, mas que chamava a atenção do país.

E falando neste olhar ufanista de Netto, basta lembrar que a época em que a cidade se via como destaque do jornalista-explorador não era das melhores. Quando a publicação foi as bancas, Blumenau – e quase todo o Vale – choravam e lamentavam a perda da Estrada de Ferro Santa Catarina (EFSC), em 13 de março daquele ano, erradicada pelo mesmo Governo Federal cujos feitos eram enaltecidos por Amaral. Mórbida coincidência, diga-se.

Sendo assim, não direi mais nada daqui por diante. Com exclusividade aos amigos do Portal Alexandre José, transcrevemos aqui, com as imagens originais publicadas na reportagem, o texto de Amaral Netto sobre Blumenau com todos os seus pontos e vírgulas. Alguns parágrafos foram criados para facilitar a leitura e alguns termos escritos ou acentuados segundo as regras antigas de ortografia foram alterados.

Antes de mais nada, agradeço imensamente o grande amigo e mentor Adalberto Day, que possuía a revista em seu riquíssimo acervo e que, hoje, está sob a responsabilidade deste jornalista para cuidar e divulgar como uma importante peça histórica.

Amaral Netto e Chucho Narvaez, em Amaral Netto O Reporter. Foto: Acervo Chucho Novaes

Sem mais delongas, vamos a reportagem:

“Blumenau: Tradição e Progresso se unem pelo Brasil”
(Amaral Netto)

Quatro anos depois de descoberto o Brasil, o sul já era objeto de interesse dos pioneiros da nossa colonização. Data dessa época a primeira exploração do litoral catarinense, chefiada por um francês. Dez anos depois, com Martim Afonso de Sousa a frente, os portugueses passaram a dar atenção àquela faixa do litoral brasileiro, mas não chegaram a fixar-se ali.

A expedição foi mais de reconhecimento, já que o interesse imediato eram pedras e metais preciosos. Três décadas se passaram, até que em 1541 coube ao espanhol Cabeça de Vaca (Álvar Núñez Cabeza de Vaca) ocupar a Ilha de Santa Catarina – onde hoje se encontra Florianópolis -, ocupação efetuada com náufragos e desertores, mas que, felizmente, em nada desmereceu a colonização daquele pedaço da terra brasileira.

A colonização efetiva ensaiou os primeiros passos no começo do século XVII, definida e consolidada com a fixação ali, um século mais tarde, de uma guarnição militar. Não havendo atrativos maiores para os colonizadores, à falta do grande objetivo de então, a cobiçada “riqueza à flor da terra”, passavam-se os anos e as terras catarinenses continuavam sem atenção maior da Coroa.

E foi só na segunda metade do século XIX que um fato marcante ocorreu na história de Santa Catarina: A chegada, ali, de um representante da Sociedade Protetora dos Imigrantes Europeus, desembarcado no Rio Grande do Sul, vindo de Hamburgo. Tratava-se de um jovem alemão, recentemente formado em filosofia, Hermann Bruno Otto Blumenau. Veio para observar a situação dos imigrantes já estabelecidos no sul; observou e se convenceu de que o Brasil, Santa Catarina especificamente, merecia uma atenção especial.

(Hermann) Chamou a si a responsabilidade de organizar um plano de colonização depois de ter visitado demoradamente a província e ter penetrado pelo Vale do Itajaí adentro. Resultado: Á vista de todos, e em tempo recorde, surgiu uma civilização nova, uma nova concepção de trabalho. Os alemães ali estabelecidos criaram as condições para um progresso rápido e equilibrado da região: Desenvolvimento industrial, respaldado no desenvolvimento agropecuário. Hoje, passados pouco mais de um século, seus habitantes têm nomes estrangeiros, mantêm alguns costumes estrangeiros, forma uma paisagem estrangeira, mas são brasileiros de todo o coração, trabalhando com todas as forças pela grandeza do Brasil.

Atacados por índios e animais selvagens, atingidos pelas cheias do rio, sacrificados pelas doenças endêmicas, os primeiros colonos não se deixaram dominar pelo desânimo. Aqui chegaram dispostos a tudo vencer; eles para cá vieram, sabendo que iriam transformar a mata selvagem num centro de civilização, onde a vida lhe fosse mais fácil que na pátria distante. Em poucos anos, atraídos pelas cartas de parentes e amigos, novos colonos se instalavam no Vale. Vinham ver de perto os encantos, a beleza, a fertilidade daquela terra brasileira. Blumenau começava a crescer. Casas de madeira e de alvenaria já eram os sólidos alicerces do que viria a ser a grande cidade de hoje.

Dez anos decorridos e Blumenau começava a viver sua vida própria: Trabalhadores especializados movimentavam olarias, fábricas de cerveja, de vinagre, de charuto, engenhos de açúcar e de farinha. Três casas de negócio já atendiam sua freguesia: Uma farmácia e duas hospedarias. No entanto, a vida não era fácil. Se as dificuldades continuavam e se acentuavam, Hermann Blumenau nelas encontrava o estímulo para levar avante o que era a “sua” colônia. Transformada em vila em 1880, Blumenau já tinha cerca de 14 mil habitantes e 3 mil casas. Trinta escolas e mil alunos, muitas casas comerciais, exportação de produtos agrícolas e manufaturados, hospitais, hotéis – tudo isso fazia prever sua elevação a cidade para dentro de pouco tempo.

Mas dentro de pouco tempo, muito pouco tempo, chuvas seguidas e violentas transbordaram o Itajaí: Blumenau foi quase totalmente destruída. Um jornal da época assim se expressava sobre a catástrofe: “As águas do Itajaí subiram a tal altura e tão repentinamente, que a maior parte dos atingidos mal pode salvar a vida”. Três anos depois, era instalado o Município de Blumenau, Isso em 1883.

Quando “O Repórter” chegou ao Vale do Itajaí sentiu o mesmo deslumbramento das outras vezes – já é a terceira vez que lá vai. A natureza, exuberante; o verde, mais verde; o ar, mais puro. A medida que sobe o Itajaí mais se entusiasma com a opulência, a fertilidade das terras banhadas pelo grande rio. E alcança Blumenau, a “cidade dos três impérios”, no dizer do Repórter, a cidade das bicicletas, a cidade de telhados quase verticais, sótãos, janelas envidraçadas e jardins floridos. Ali estão os traços marcantes do espírito germânico. O espírito europeu ali está vivo, como vivo é o colorido das formas especiais de expressão, misto de alemão e português, num interessante fenômeno de aculturação.

O Repórter desembarca em Blumenau. Dos seus quase 90 mil habitantes, a maioria se encontra entregue ao trabalho. Blumenau não pode parar. Alguns setores trabalhar em regime de 24 horas. O Brasil, de norte a sul, já se acostumou a receber as malhas, os cristais, os produtos alimentícios e os instrumentos musicais de Blumenau. Seus homens de negócio já se instalaram em São Paulo e Paraná. Suas indústrias já estão no Nordeste. Um jovem industrial blumenauense agraciado com a medalha da Ordem do Rio Branco, por mérito como exportador, é eleito o Homem de Vendas de 1970 (Norberto Ingo Zadrozny, da Artex).

O fabulosamente rápido desenvolvimento da cidade com que Hermann sonhou, exigiu e já é controlado por computador eletrônico. Todas suas indústrias estão em fase de expansão. Pois não bastam as exportações só para os Estados Unidos, Mercado Comum Europeu e países latino-americanos. Blumenau quer e vai levar para todo o mundo o nome do Brasil. O nome do Brasil Grande.

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Amante confesso do rádio, da música (de verdade), do automobilismo e da boa roda de amigos num dia qualquer. Apaixonado também por história, eterno louco em busca de mais um sorriso no dia a dia e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista. Atua no jornal A Cidade (Timbó) com coluna própria e como entrevistador. Quase todos os dias, traz A BOINA uma visão diferente do cotidiano em vários assuntos, com opinião, história e reflexões para todos os lados e gostos, além de apresentar gente muito boa na escrita em crônicas e opiniões dos colegas de jornalismo e afins.

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