InícioGeralTrânsito: Dia Mundial em Memória às Vítimas de Trânsito e as eleições,...

Trânsito: Dia Mundial em Memória às Vítimas de Trânsito e as eleições, por Márcia Pontes

Talvez muitos só saberão que o terceiro domingo de novembro é o “Dia Mundial em Memória às Vítimas de Trânsito”, instituído desde 2005 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e que este ano, coincidentemente, caiu (e caiu mesmo) junto com as eleições. Também é o “Dia da Proclamação da República”, mas também parece que passou batido. O foco ficou todo nas eleições e na disputa por votos.

Nem parece, que no Brasil, cerca de 60 mil famílias ainda choram as perdas de seus entes queridos, muitos assassinados por motoristas que cometeram a infração que virou crime, que quase meio milhão ficam sequelados permanentemente e que as estimativas são de que esses números aumentem em 65% nos próximos 20 anos. Para longe dos costumeiros holofotes amarelos só sobrou a saudade dolorida, a espera para que os infinitos recursos sejam julgados, que o processo ande e data do júri popular seja marcado.

Sobrou amnésia coletiva por parte da sociedade que parece viver a anodinia diária que nos alija cada dia mais daquela dose de consciência necessária, inclusive de muitos que se elegeram ou elegerão, para os reais problemas do trânsito nas cidades. 

O que trânsito tem a ver com eleição?

Muitos talvez questionem o que trânsito tem a ver com eleições, mas essa é fácil.  Aqueles que assumirem por mais quatro anos as prefeituras têm pela frente o desafio da mobilidade e da acessibilidade em cidades onde se costuma criar mais barreiras às já existentes. Têm pela frente o desafio do planejamento urbano e da gestão do trânsito, cujas consequências impactam diretamente não só as pastas, secretarias e gerências de trânsito, mas também a fundamental pasta da Saúde que já anda sobrecarregada pela pandemia do coronavírus. 

Impacto na pasta da Saúde

Não se divulga dados neste sentido e os últimos que temos são de uma pesquisa do IPEA publicada em 2012 que dá conta de que entre os anos de 2003 e 2011 os acidentes de trânsito custaram a Blumenau R$ 1,7 milhões incluindo o custo de danos aos veículos, custos de congestionamentos, resgates de vítimas tratamento médico-hospitalar, remoção de veículos e atendimento da Guarda Municipal de Trânsito (GMT) no local. À época dava para comprar 6.662 ônibus de transporte coletivo e construir 1.765 Centros de Educação Infantil em Blumenau caso esses acidentes tivessem sido evitados. 

E em época de pandemia, quanto será que os custos dos acidentes de trânsito impactam na pasta da Saúde? Ninguém sabe dizer, nem os titulares desta pasta. Se levarmos em conta que programas e ações voltados à prevenção de acidentes não são custos ou gastos, mas investimentos, cada moeda que se investe com a população sendo responsiva aos apelos certamente sobraria mais atendimentos e leitos de hospital para quem adoece de causas naturais com menos politraumatizados de trânsito. 

Trânsito não é só congestionamento

Prestando bastante atenção nas entrevistas em que os candidatos apresentavam as suas propostas para o trânsito, em minha opinião, ficou muito a desejar. Falaram muito em obras grandes com foco nos motorizados e até o discurso de cidade para as pessoas saiu fraquinho, meio balbuciado. Ou não se importaram ou faltou visão do que realmente seja trânsito na sua complexidade e os impactos que isso tenha para as pessoas que moram nas cidades que vão administrar pelos próximos quatro anos. 

Falou-se muito em obras grandes, complexas, demoradas e caras como se já as tivesse concluído ou fosse facinho de fazer. Só para se ter ideia, o Anel Periférico Sul que comporta a Ligação Velha-Garcia é uma discussão antiga que vem desde 1970 e ano a ano entra e sai administrador e nem as discussões sérias avançam tanto na parte técnica quanto na parte de captação de recursos. 

Quando se fala de trânsito costuma-se focar naquilo que mais incomoda de verdade os motoristas: engarrafamento, trânsito lento, parado, gargalos, cada vez menos vagas para estacionar em via pública e os estacionamentos particulares cada vez mais caros. Sim, isso lidera as discussões, mas as questões igualmente sérias de mobilidade e acessibilidade continuam do outro lado da trincheira como, por exemplo, o papel do ciclista, que é um usuário importante do trânsito e que junto com os motociclistas parecem ser os inimigos dos motoristas. Porque será que nunca se conseguiu adesão dos motoristas ao “Dia Mundial Sem Carro em Blumenau mesmo em anos anteriores?

A frota continua aumentando a cada mês assim como a quantidade de novos motoristas que se habilitam com a intenção de logo ocuparem as suas faixas de tráfego no trânsito mesmo com as armadilhas da má formação de condutores novatos, que é um risco potencial para acidentes. Aquela velha celeuma da caminhabilidade dos pedestres, sobretudo, aqueles com mobilidade reduzida, tempos de semáforo para a travessia dos andantes, acidentes provocados por falta de acessibilidade,  mau estado de conservação de calçadas e passeios públicos (ou até a falta deles) continuam sem visibilidade. 

Todos sabem que trânsito é comportamento – inclusive dos gestores do trânsito -, apontam-se dedos para os comportamentos alheios enquanto passam batidos os próprios e busca-se alguém para culpar. É assim que se fala de trânsito nas cidades e buscam-se soluções rápidas para problemas complexos, caros e demorados. Bom lembrar que nem tudo depende dos motoristas e demais usuários do trânsito ainda que eles é quem protagonizem os acidentes e suas consequências.

Lembro dos anos anteriores quando surgia gente preocupada em lembrar das pessoas no trânsito e da importância que davam em seus discursos ao relembrar a memória daqueles que se foram pela violência viária. Sumiram, muitos em campanha, com outro foco.

Mas, quem convive diariamente com a espera pelos julgamentos demorados, das decisões das fieiras de recursos que nunca terminam, quem acorda com a esperança de que a falta daquele que foi assassinado no trânsito doa menos hoje e que a justiça seja feita, esse sim, sabe a importância do “Dia Mundial em Memória às Vítimas do Trânsito. Porque os órfãos que ficaram também vão parar nos atendimentos da rede pública de saúde porque adoecem emocionalmente muito mais do que se pensa.

Quem bebe, dirige e mata no trânsito, ou mesmo aqueles que fizeram a coisa errada e mataram de cara limpa, esses têm memória curta. 

O que se espera é que quem assuma as prefeituras país afora se interesse mais em conhecer a complexidade do assunto e entenda que trânsito não é só discurso, só sinônimo de obras, e que tampouco terá as suas mazelas resolvidas só com fiscalização por câmeras ditas “inteligentes”. É esse compromisso e essa seriedade que esperamos ver e sentir em nossa cidade. 

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

Notícias relacionadas

Deixe uma resposta

Últimas notícias

    error: Toda e qualquer cópia do Portal Alexandre José precisa ser creditada ao ser reproduzida. Entre em contato com a nossa equipe para mais informações pelo e-mail jornalismo@alexandrejose.com