Início História História: América, do luxo ao esqueleto, por André Bonomini

História: América, do luxo ao esqueleto, por André Bonomini

Você já ouviu falar por aí a expressão “elefante branco”, termologia nascida na Ásia para referir-se a algo que não tem utilidade prática mas está ali, presente, inacabado ou construído sem uso algum, algo muito comum no Brasil de hoje.

Este termo teve como origem os elefantes brancos que monarcas do sudeste asiático (Myanmar, Tailândia, Laos e Camboja) davam de presente a uma figura importante. Por lei, eles não podiam trabalhar pesadamente e, logo, ter um elefante branco podia tanto ser uma benção como uma maldição: você era um dos favoritos do monarca, mas sem servir para o trabalho, o elefante era um peso para seu presenteado.

Seria o termo perfeito para a realidade do Centro de Blumenau ao contemplar o esqueleto mais famoso da cidade (e do Vale, por que não)? Erguido em 1978 e com obras paradas desde 1996, o Edifício América é aquele teimoso elefante branco que seria um “presente” daqueles na parte mais nobre e histórica da região central, mas falta de verbas, embargos e desacordos ambientais transformaram a “irrecusável proposta de vida” numa peça de feiura e confusão.

O querido amigo e parceiro do perfil “Blumenau Antiga“, no Instagram, Henrique Martins, foi quem levantou a peteca recentemente e me motivou a recontar a história cheia de curvas desta empreitada. O querido Clube Náutico América foi fundado em 1920, mas sua história não deve ser confundida com este imbróglio, afinal, a agremiação verde-branca-preta do remo catarinense coleciona títulos, glórias e atletas revelados na clássica modalidade sobre as águas. Esta breve história começou há 43 anos, em 1977, quando a RB Planejamento e Construções ganhou a permuta para construir um prédio residencial no terreno da antiga sede do clube.

Um projeto ousado e, intitulado pela RB, como “o melhor e mais arrojado de Santa Catarina”. Sente os detalhes: 15 andares, luxuoso hall de entrada com pé-direito duplo, fachadas de mármore, sacadas com vista para o centro da cidade, tubulação para ar-condicionado central, antena de TV e FM, requintes de sofisticação nos apartamentos e, o mais inusitado (falando-se de hoje): um elevador para carros, que permitiria o condômino colocar até dois automóveis na garagem e anexo ao apartamento.

Uma “arrogância” da engenharia civil daqueles tempos, e a RB parecia acostumada a grandes empreendimentos. Não a toa, é da RB a autoria dos projetos dos Edifícios Dom Armando e Dona Philomena, no Garcia, erguidos no final dos anos 1970 e verdadeiros pontos de referência na região da Rua Amazonas. Erguidos no alto de uma colina, permitem uma visão única do Distrito, além de um estilo clássico mesclado a sofisticação.

Foto: Reprodução

No entanto, ao contrário dos dois espigões do Garcia, o Edifício América esbarrou na falta de planejamento da RB quando dos primeiros trabalhos na estrutura. A primeira fase da obra foi curta, pouco mais de um ano, até a prefeitura descobrir que o projeto feria o então plano diretor, que feria a área livre de 100 metros até a margem do Itajaí-Açu, tornando-se o terreno uma área de utilidade pública com o primeiro embargo.

Em 1985, uma reviravolta: o projeto da RB muda e o edifício passará a ser um hotel com 18 andares. As obras retornaram no ano seguinte, mas de forma lenta até chegar no estado atual. Passaram-se 12 anos até que a RB ficou sem recursos e foi forçada a parar a obra. Outras empreiteiras se interessaram pelo projeto, mas de 1997 a 2006 pouca coisa evoluiu, dos 18 andares, apenas 10 completos em esqueleto.

De lá pra cá, abandono, enfeiamento do Centro e nenhuma novidade. O América voltou à roda das conversas nos últimos anos por ser uma das alternativas do caminho da nova ponte, o que não se concretizou. A demolição foi autorizada em 2011, mas cinco anos depois, em 2018, um laudo técnico pedido pela Justiça Federal e assinado pelo engenheiro florestal Dagoberto Stein Quadros afirmou que manter o esqueleto no local é mais benéfico ao meio ambiente do que demolir a estrutura. Entendível, em alguns termos.

Sem uma solução final, o esqueleto permanece lá, além de abrigar a história do América, que utiliza seu subsolo, é uma estrutura de contrastes. Reflete a morosidade jurídica de um país, enfeia o Centro, mas também esbarra na história do “demolir ou não”. Tem quem queira investir na estrutura? Vale demolir e ver o impacto que se dará? O América terá uma sede digna de sua história? Perguntas distantes que ficam sem resposta no constante passar dos anos, de tudo que este esqueleto já viu naquela esquina.

O luxo prometido na extravagancia setentista ficou para trás, e o América (o Edifício, não o Clube, sem misturar nesta hora) continua lá esperando um rumo para seu destino natimorto de quatro décadas. É uma parte do dia-a-dia da cidade, que talvez fosse melhor ser digna com o América e o Itajaí-Açu a sua frente, e não um amontoado de vigas, tijolos e abandono do que, um dia, prometeu ser avançado.

Aguardemos cenas dos próximos capítulos… quando assim vierem

Mais uma vez, gratidão imensa ao parceiro Henrique Martins, do Blumenau Antiga (@blumenauantiga). A parceria começou pra valer aqui!

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Amante confesso do rádio, da música (de verdade), do automobilismo e da boa roda de amigos num dia qualquer. Apaixonado também por história, eterno louco em busca de mais um sorriso no dia a dia e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista. Atua no jornal A Cidade (Timbó) com coluna própria e como entrevistador. Quase todos os dias, traz A BOINA uma visão diferente do cotidiano em vários assuntos, com opinião, história e reflexões para todos os lados e gostos, além de apresentar gente muito boa na escrita em crônicas e opiniões dos colegas de jornalismo e afins.

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