Início História História: revisitando Edemir de Souza da TV Coligadas, por André Bonomini

História: revisitando Edemir de Souza da TV Coligadas, por André Bonomini

Nestes tempos de Oktober em espírito, tive de parar por um momento para pensar em elementos, personas cuja história construiu toda essa aura de outubro entre nós. Personagens não faltam, mas todos eles (ou quase todos) já foram contados e recontados, vistos e revistos.

E neste pensar quase constante, resolvi apelar para música, este elemento basilar das festas de outubro em qualquer lugar, para buscar uma homenagem merecida. E voltei no tempo para prestar uma reverência… e contar uma história, se me permitirem.

Era meados de fevereiro de 2017, quando, nos tempos de Intendência do Garcia, resolvi prosseguir com meus contatos junto aos personagens que contariam a história da TV Coligadas. Havia muitas pessoas conhecidas já conversadas, outras ainda por conhecer e contatar, uma loucura.

Foto: Reprodução

O próximo da minha lista era um cidadão cujo nome já soava como música (e, olhe, ele tem até um dobrado com seu nome): Edemir de Souza. Só de entrar em contato com estes personagens da nossa pioneira emissora de TV já dava um arrepio de emoção, embora sempre batia aquele nervosinho teimoso sobre como seria a recepção do outro lado da linha.

Edemir, à época com 75 primaveras, um senhor que, como disse, apenas pelo nome já se podia soar música. Há um sem-número de bandas típicas (ativas ou inativas) no Vale que, se pudessem, beijavam a testa deste cidadão. Nos fins de semana, ele abria as portas da então jovem TV Coligadas para que as bandinhas mostrassem as melodias lindas que tocavam pelos nossos rincões. Era mais um “Salve a Banda” que começava.

Foto: Reprodução

Tão histórico quanto outras atrações da “menina dos seus olhos”, o programa foi uma vitrine artística típica de importância singular naqueles tempos. Tirou as bandas típicas dos salões, caça-e-tiros e onde mais se apresentassem para mostrar seu trabalho para uma audiência de quase um estado inteiro em potencial.

Era a verdadeira “Integrações em Festas” que Os Futuristas tocavam em bandoneon e metais. Grupos de Blumenau, Pomerode, do Alto Vale, do Médio Vale, até mesmo outros cantões catarinenses como Treze Tílias, Joinville e de onde mais viessem, todas espremidas no modesto estúdio da Rua Getúlio Vargas para encantar e embalar as manhãs dos fins de semana.

E, como não podia deixar de ser, muitas histórias ficaram pelo ar, como da bandinha interiorana, cujo baterista, de calça enrolada nos tornozelos e descalço, se encantava vendo o próprio pé aparecendo em um dos monitores do estúdio, praticamente ignorando os protestos desesperados dos colegas de grupo. Só uma de tantas, claro…

Edemir, de voz marcante, grave e gentil, dividia-se entre a TV e o rádio, onde as bandinhas também tinham seu destaque. O “Salve a Banda” rendeu LPs, foi do início ao fim da Coligadas mas não morreu no último programa. Está vivo na mente de quem via o simpático senhor de bigode, sorridente, cujas bandas típicas lhe tem uma gratidão imensa até hoje, na vida moderna e cheia de modernidades que tem.

Mas, voltando àquela ligação em 2017, ele atendera, com a mesma voz grave e gentil. Praticamente me senti em casa. A gentileza e alegria com a qual me recebera mesmo por telefone era tamanha que não escapavam risos. Falei-lhe do documentário, ele exultou-se de alegria e estava ansioso para contar o que vivera, que bem dava um livro de trocentas e riquíssimas páginas.

Edemir não me era um desconhecido completo. Muito além dos relatos de família e amigos, o velho senhor me foi apresentado de uma forma inusitada pela primeira vez em fins de 2012. Foi ao chegar junto da FAJOMA (Fanfarra da EEB Padre José Maurício), da qual sou maestro, para uma das apresentações do Magia de Natal daquele ano, na Praça Dr. Blumenau, início da Rua XV.

Sentado num dos tantos banquinhos da praça, quase como se desse uma benção a minha fanfarra, lá estava ele. Sorridente, feliz e receptivo como um avô recebe os netos. Foi uma conversa curta demais para tanta história.

O bom amigo e professor Rodrigo Ramos, que estava na coordenação dos trabalhos naquele dia, me atirou a pergunta diante dele: “Você deve saber quem é este senhor, não é, André?, me perguntava o professor e, hoje, secretário de Cultura, Rodrigo Ramos… E como não saber! E que dia foi aquele!

Mas o destino pregou uma peça depois daquela ligação, e por um instante as bandinhas se calaram ou tocaram uma nota triste. O experiente e alegre Edemir de Souza, do alto dos 75 anos de histórias e melodias, não estava mais entre nós. Deixou-nos meio que sem aviso, sem uma última canção, uma última história.

Está, hoje, no retiro dos saudosos e históricos carregando consigo lembranças, saudades, muita história e muita música, a nossa música que pela voz e trabalho dele tornou-se conhecida no nosso meio.

E como agradecer tamanha história e presença? Não tive tempo de registrá-la, o que me entristece… Mas, de onde estiver, certamente estará sorrindo ao som do dobrado que emprestara o nome…

Salve a Banda! Ou melhor… Salve Edemir! A gratidão (minha e da música em Blumenau), sempre.

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Amante confesso do rádio, da música (de verdade), do automobilismo e da boa roda de amigos num dia qualquer. Apaixonado também por história, eterno louco em busca de mais um sorriso no dia a dia e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista. Atua no jornal A Cidade (Timbó) com coluna própria e como entrevistador. Quase todos os dias, traz A BOINA uma visão diferente do cotidiano em vários assuntos, com opinião, história e reflexões para todos os lados e gostos, além de apresentar gente muito boa na escrita em crônicas e opiniões dos colegas de jornalismo e afins.

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