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História: Uma hora de Blumenau, do Centro ao Bom Retiro a 200Km/h, por André Bonomini

Você, amigo, parado no trânsito do centrão de Blumenau, mal pode imaginar que na reta quase sempre congestionada da Rua 7 de Setembro já rasgaram carros a mais de 200 quilômetros por hora em uma corrida. E não falo de racha e nem de loucos desvairados, mas de azes do volante que buscavam a vitória em um legítimo Grand Prix nas ruas citadinas.

Era o fim da década de 1960, quando o automóvel já era uma verdade inquestionável nos centros urbanos do Brasil, que as corridas tomavam cada vez mais dimensão, seja nas pistas lendárias como Interlagos e Jacarepaguá, seja nos circuitos montados dentro das ruas das cidades, tornando ainda mais desafiadoras as provas de velocidade.

Largada na Rua 7 para a 1 Hora de Blumenau. Foto: Antigamente em Blumenau

E na falta de um autódromo “de verdade” em solo catarinense, as ruas dos municípios eram a pista em potencial e por elas passavam verdadeiros botas que dobravam a quase 80 por hora esquinas que normalmente se faziam a 20. Cidades como Joaçaba, Lages e Chapecó eram alguns palcos destes circos românticos do automobilismo nacional. E Blumenau, como não podia deixar, tinha circuito e até uma “lenda local” das ruas.

As provas citadinas não iam além de três horas de duração. Em Blumenau, esta prova não ia além da uma hora, dependendo do tamanho da pista. A primeira corrida foi em 1967, reunindo pessoas em todos os pontos do circuito montado. E tinha de tudo: de curiosos aos “boys” daqueles tempos já fissurados em velocidade e paquera no volante.

Foto: Acervo Familia Brancher

A largada saía da Rua 7, próximo ao Hotel Rex, subindo a via no sentido contrário ao atual. Depois, uma tomada rápida para a entrada da Rua João Pessoa, onde as curvas em sequência eram um desafio técnico ao piloto. Logo, uma freada forte de quase 90 graus para a subida da Rua Bruno Hering – o Morro da Companhia – talvez a parte mais travada e difícil do circuito. Por fim, o trecho de alta entre as Ruas Hermann Hering e Floriano Peixoto, para voltar ao ponto inicial.

Saída. Foto: Acervo Familia Brancher

Nestas provas, a emoção era quase palpável. Com equipamentos parecidos, os pilotos tinham que descontar diferença, brigar e manter o carro na pista no braço puro, tomando cada esquina com notável habilidade que mal podemos imaginar nos congestionados dias de hoje. Simca Chambord, Fusca, Renault/Willys Gordini e Interlagos, DKW-Vemag Belcar, um desfile de carros da moda que rasgavam em alta velocidade pelas ruas de Blumenau a um fio de cabelo distantes da multidão em polvorosa.

Mas, na torcida blumenauense, o grito maior era para o taxista citadino Carlos Federico Mertens, o “Ligueli” ou “LigueLigue” para os fanáticos. Ele era o nome do Simca Chambord 92 da Escuderia Zangão, formada por um grupo de amigos – todos com carro e até o famoso “carango do papai” – residentes nas imediações das Ruas São José, Amadeu da Luz e Getúlio Vargas. Era moda os grupos andarem juntos como uma equipe, tendo um distintivo que os diferenciava. Neste caso, o logo da escuderia desenhado pelo pioneiro na publicidade blumenauense, Zé Pfau.

Além do taxista, azes da terra como Fritz Reimer, Julio Reichow, Sergio Buerger, Armindo Klotz e outros blumenauenses enveredavam pelas esquinas atrás da glória. Nem sempre a coisa acabava bem, acidentes eram normalíssimos, mas nos três anos de prova na cidade, felizmente, nenhuma morte registrada, apenas escoriações e recordações doloridas.

O próprio LigueLigue não escapou de algumas pancadas, mas gravou na história da velocidade blumenauense o nome como a primeira lenda do nosso automobilismo. O lendário taxista faleceu em 2004, deixando inúmeras histórias e recordações de um passado romântico.

Foto: Acervo Familia Brancher

Quanto as corridas citadinas, a era dourada destas provas no Brasil teve um fim cruel. Por conta das mortes e do perigo nas Três Horas de Petrópolis (RJ), em 1968, as provas urbanas foram acabando repentinamente, retomando apenas no fim dos anos 80 em provas de monopostos, como Fórmula 2 (posteriormente, Fórmula 3) e Fórmula Ford. Em Santa Catarina, a morte de um piloto em Joinville, durante uma prova urbana, foi a gota d’água, restringindo o automobilismo catarinense ou as provas na terra ou ao kart, quando não no autódromo de rua de Florianópolis, por um período.

Mas em Blumenau, uma semente de automobilismo foi plantada, dando origem a várias histórias de muito bem sucedidos pilotos nas pistas catarinenses e nacionais. Mas estes outros contos velozes ficam para uma outra vez…

Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Amante confesso do rádio, da música (de verdade), do automobilismo e da boa roda de amigos num dia qualquer. Apaixonado também por história, eterno louco em busca de mais um sorriso no dia a dia e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista. Atua no jornal A Cidade (Timbó) com coluna própria e como entrevistador. Quase todos os dias, traz A BOINA uma visão diferente do cotidiano em vários assuntos, com opinião, história e reflexões para todos os lados e gostos, além de apresentar gente muito boa na escrita em crônicas e opiniões dos colegas de jornalismo e afins.

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