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Trânsito: acidentes no novo viaduto da BR-470, o homem, o veículo e a via, por Márcia Pontes

Duas carretas, uma caminhonete e dois veículos de passeio saíram da pista e tombaram no mesmo lugar em curto espaço de tempo nesse fim de semana: nas saídas das alças de acesso recém construídas na saída do novo viaduto sobre a BR-470. Mas, antes de começar a culpar exclusivamente a obra, a via, a sinalização ou o traçado da pista é necessário conhecer quatro dos principais fatores envolvidos em todo acidente de trânsito: o homem, o veículo, a via e o ambiente.

Cada vez que se altera o modo e a rotina dos deslocamentos no trânsito isso impacta os motoristas em função dos novos sentidos de circulação, geometria da via, novos traçados, curvas mais fechadas, velocidade, dentre outros. Mudou o modo de se fazer as coisas naquele trecho da BR-470 e isso envolve identificar os novos riscos, gerenciá-los, agir preventivamente e reavaliar a velocidade porque as Leis da Física continuam atuando sem trégua. 

As mudanças com o novo viaduto

Semanas antes da alteração o sentido de circulação pela BR-470 um vídeo viralizou nas redes sociais em que um motorista transmitia direto do local onde quase tinha colidido frontalmente com uma carreta que invadiu a contramão. Com a conclusão das obras de duplicação da BR-470 no entorno do Viaduto da Mafisa foi construído um novo viaduto que passa por cima da rodovia federal.

Foram implementadas duas alças de acesso que se bifurcam: trafegando pelo viaduto recém construído se o motorista se posicion à direita ele seguirá sentido Itoupavas, Massaranduba e Joinville. Quando o motorista se posiciona à esquerda da alça de acesso ele faz o retorno para a BR-470 sentido Blumenau. Foi nesses pontos da via que os veículos saíram da pista e tombaram ou capotaram barranco abaixo. 

O fator humano

Nenhum acidente de trânsito tem apenas uma única causa, geralmente é uma combinação de fatores. Dirigir cansado, estressado, emocionalmente abalado, sobrecarregado pela quantidade de horas na direção e outros fatores como preocupações e distrações afetam o comportamento do motorista. Se for diabético e não se alimentar nos horários certos ele pode ter crises de hipoglicemia. Se acelerar demais não vai conseguir controlar o veículo.

O modo como o condutor percebe os riscos à sua frente, aquilo que ele pensa sobre a via, sobre os outros motoristas e sobre si mesmo, afeta sobremaneira o seu modo de dirigir. Muitos confiam demais no tempo de carteira ou nas habilidades que têm ou pensam que têm e ignoram outros três fatores determinantes para o acidente de trânsito: o veículo, a via e o ambiente. 

O veículo

Nem todo motorista faz as revisões periódicas e preventivas dos seus veículos. É um probleminha pequeno, que vai sendo empurrado para frente. Um sintoma que o veículo dá de que algo não vai bem e que o motorista ignora, os cuidados específicos para se dirigir veículos de diferentes categorias e no fim algo costuma dar errado na parte mecânica. Isso o condutor também não controla. 

Carretas são veículos pesados, longos, com ou sem combinações tratoras. Quando carregados com o peso adequado já ficam pesados e se requer mais atenção ao dirigir; se houver sobrepeso os riscos aumentam, além de danificar as vias. Transportar carga líquida requer mais cuidados do que cargas secas ou a granel. Veículos pequenos, de passeio, são mais leves e o excesso de velocidade aumenta o tempo de reação e diminui o tempo de frenagem. O modo como se acondiciona a carga e o tipo que se transporta é outro fator que se agrega e acaba fazendo o veículo perder estabilidade nas curvas e até tombar. 

Veículos de passeio geralmente derrapam antes de tombar, mas carretas tombam antes de derrapar. Caminhões com excesso de peso costumam tombar em locais em que um caminhão com a carga no peso normal não tombaria. 

A via

As estatísticas de acidentes de trânsito comprovam que a maior quantidade de ocorrências é nos dias com tempo bom, boa luminosidade, nas retas ou nas saídas delas, como nas alças de acesso. Basicamente, o motorista vem no embalo, leva mais tempo para frear, não consegue parar o veículo a tempo, sai da pista e tomba (quando o teto do veículo não toca o chão) ou capota (quando o veículo gira em torno do próprio eixo e bate com o teto no solo ainda que a posição final seja outra). 

Assim como as vias mal sinalizadas, mal iluminadas e esburacadas são potenciais para os riscos de acidentes, as vias bem iluminadas e com asfalto novo costumam levar o motorista a assumir mais riscos e a acelerar mais. Naquele trecho da duplicação da BR-470, quem trafega pelo viaduto novo, costuma vir no embalo e logo em seguida pega uma descida que por mais leve que seja já coloca o veículo a favor da gravidade somando-se peso do veículo + velocidade do veículo + a força da gravidade empurrando para baixo. Se não frear na tangente (na reta antes da curva) esse veículo tende a sofrer os efeitos da força centrífuga, será jogado para fora da curva, sair da pista, capotar ou tombar.

No caso de caminhões a chamada “força g” refere-se à aceleração lateral gerada em uma curva ou manobra, medida na unidade da aceleração da gravidade (g = 9,8m/s2). Na prática, trata-se da aceleração lateral que causa aquela força que empurra o motorista e os ocupantes de todos os veículos contra a porta do automóvel durante curvas em velocidade. É essa aceleração lateral que tomba os caminhões.

O fato de tantos veículos de todos os tipos e pesos trafegarem diariamente naquele local e não se precipitarem em barranco é um indicador de que o modo como os motoristas dirigem influencia no controle dos veículos nas mesmas situações. O sentido de circulação mudou, foram construídas alças de acesso, quem vem do viaduto vem embalado, descendo, e se não utilizar adequadamente o melhor redutor de velocidade que existe (o pedal de freio) vai passar direto, sair da pista, invadir faixa de tráfego e precipitar-se em barrancos. Não é obra de adivinhação, não se descobriu a roda e nem palpite sem fundamento: são as Leis da Física atuando. 

O ambiente

O fator ambiente refere-se não só aos fatores climáticos e ambientais, mas também às diferentes épocas do ano em que se trafega por determinado local como os períodos festivos, Natal, Ano Novo, Carnaval, Semana Santa, e até a nova composição e alterações do tráfego em determinados locais. Seja para o motorista local que sempre trafegou no trecho do Viaduto da Mafisa antes das mudanças, seja para o motorista que vem de longe e apenas passa por ali o procedimento é o mesmo: conhecer o veículo que dirige, ter controle sobre ele e respeitar a sinalização e as leis de trânsito. 

Nenhum motorista pode se dar ao luxo de ser surpreendido e afetado pelas mudanças a tal ponto de envolver-se em um acidente caso não tenha observado que o modo de se fazer as coisas por ali agora mudou: sentido de circulação, placas, sinalização de solo, velocidade, curva, tangente, descida, composição do tráfego e comportamento dos demais motoristas. 

Somente uma perícia técnica poderia comprovar cientificamente o que causou a saída de pista, os tombamentos, capotamentos e precipitações em barraco ou no banhado próximo. Mas, como isso não é possível porque em Santa Catarina faz tempo que o IGP mal consegue atender casos assim in loco, o jeito é redobrar a atenção, os cuidados, não se distrair nem com pensamentos, dirigir preventivamente e assim concluir o trajeto pelas alças de acesso e em outros pontos sem tombar ou capotar como os demais motoristas têm feito. 

O que já se sabe é que aquele local já se mostra como um ponto crítico da via que potencializa o risco de acidentes e que o modo como se vai dirigir por ali é que vai fazer a diferença. 

Todos os condutores que se sentiram prejudicados pelas supostas condições da via e que acreditam que tenha sido isso o causador do acidente podem ingressar judicialmente contra o DNIT juntando todas as provas, fotos, laudos, documentos e testemunhas. Se alegou falta de sinalização, de iluminação ou qualquer outra inconformidade tem que fotografar e anexar ao processo. Mas, tem que se garantir para não sofrer o ônus da sucumbência: se não for verdade vai arcar com todas as custas do processo e honorários dos advogados. 

Neste caso, melhor mesmo é mudar o modo de dirigir, identificar e gerenciar os riscos, dirigir preventivamente, fazer uma direção segura e, principalmente, não abusar da velocidade. Nem naquele ou em qualquer outro trecho de via. 

E você, leitor, sente dificuldades em trafegar naquele local? Constatou algo errado? Tem sugestões de como melhorar? 

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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