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Trânsito: como barrar o aumento de 94% de acidentes com vítimas em Blumenau? Por Márcia Pontes

O aumento de 94% na quantidade de acidentes de trânsito com vítimas em Blumenau nos últimos três meses é um daqueles dados que nos trazem duas perguntas ainda sem respostas: “o que está acontecendo com os motoristas em cenário de pandemia?” e “será que só a fiscalização com efetivo reduzido vai resolver?”. Em abril deste ano, foram 150 acidentes nas vias com 65 vítimas encaminhadas a hospitais; em maio esse número disparou para 222 acidentes com 121 vítimas e em junho subiu de 235 acidentes com 126 vítimas.

A resposta pode parecer simples para alguns, mas não há soluções prontas dada a complexidade de tudo que envolve o trânsito com foco, sobretudo, no comportamento humano. A preocupação das autoridades nesse momento é com o encaminhamento dessas vítimas para os hospitais em plena pandemia, já que são pacientes politraumatizados que ocupam leitos de UTI e de internações que seriam evitáveis. Com mais vítimas de acidentes, pode faltar aos pacientes com Covid-19. Sem falar que isso onera ainda mais as unidades de saúde.

Custo geral bilionário

O fato é que se existe uma novidade é a pandemia de coronavírus, pois não é de hoje que se tenta alertar as pessoas e os gestores do trânsito na cidade para a evolução da acidentalidade e o quanto isso impacta a pasta da Saúde e os atendimentos em policlínica, ambulatórios gerais, ESF, sistema de regulação que marca as consultas com especialistas como ortopedistas, fisioterapeutas e outros. A maior parte desses encaminhamentos são de pacientes sequelados do trânsito, que acabam tomando a vez de pessoas que adoecem por causas naturais e não é de hoje!

Já entre os anos de 2003 e 2011 os acidentes de trânsito custaram a Blumenau a soma bilionária de exatos R$ 1.765.666.663,28 formada pelos custos de atendimentos da Guarda Municipal de Trânsito (GMT) e socorristas no local, resgate de vítimas e tratamento médico-hospitalar (cirurgias, internações, biológicos). Some-se a isso os custos de congestionamento, de remoção e de danos aos veículos. À época, esse dinheiro dava para comprar 6.662 ônibus de transporte coletivo e construir 1.765 Centros de Educação Infantil (CEIs) na cidade se esses acidentes pudessem ter sido evitados. De lá para cá, desde que o IPEA (2013) divulgou esses dados, ninguém falou em custos tangíveis dos acidentes de trânsito para a cidade e nem dos intangíveis como a vida.

Custos específicos são uma incógnita

É uma dificuldade enorme tentar saber das unidades de saúde pública da cidade dados específicos sobre os custos e o impacto da acidentalidade no trânsito para a pasta da Saúde municipal. Também não se sabe ou não se divulga qual o percentual de atendimento hospitalar às vítimas de acidentes de trânsito em relação aos pacientes que adoecem por causas naturais, os atendimentos de emergência em prontos socorros, internações, cirurgias, reabilitação, acidentes de trajeto, cirurgias eletivas, leitos de UTI, dentre outras variáveis. O que se sabe é que cada vez que um acidentado do trânsito chega ao hospital alguém que adoece por causas naturais perde a vez diante de uma vítima politraumatizada e que durante a pandemia teme-se que possa faltar leitos para atender os pacientes com Covid-19.  

A desídia cobra o seu preço

Em tudo que diz respeito ao trânsito, a desídia cobra o seu preço, e cobra caro! Entra ano e sai ano, o que parece se ver é uma indiferença, uma indolência e vistas grossas que se arrastam por décadas para as necessárias e inexistentes políticas públicas para a segurança no trânsito. Quando existem políticas públicas sérias e sustentáveis para o trânsito, quando os gestores públicos levam a sério, montam uma equipe multi e interdisciplinar especializada, quando esse trabalho é efetivo e envolve a sociedade, os apelos tornam-se responsivos entre a população e as coisas mudam para melhor. É lento, demora, mas muda!

Mas, quando se deixa esses pilares fundamentais de lado, não se investe em ações e programas integrados e continuados para o trânsito seguro e tenta-se resolver tudo só com a fiscalização, aí é que a coisa não funciona mesmo e piora em situações como a de pandemia! Afinal, antes do vírus chinês, já não se conseguia fazer prevenção de acidentes de trânsito na cidade e aguardava-se o telefone tocar para ir socorrer ou recolher corpos de acidentados nas vias. Agora a desídia cobra o seu preço.

Políticos temem fazer uso de medidas sérias que soem impopulares aos seus eleitores, sobretudo quando eles dirigem. Tanto que ao divulgarem que vão fazer mais blitz e endurecer a fiscalização de trânsito já abrem o parágrafo avisando que “o intuito da medida não é multar, mas evitar que o sistema de saúde fique sobrecarregado.” Fiscalização com secador de cabelo para frear os pés de chumbo e evitar que a grandeza velocidade continue uma variável presente nos acidentes nem pensar, ainda que seja necessário.

Então, a gente quer medidas, ações, programas e fiscalização de trânsito para prevenir acidentes de trânsito e evitar que pessoas se machuquem o ano todo ou só quando pode faltar vagas nos hospitais para pacientes com Covid-19? Sim, porque quando a segurança das pessoas no trânsito não fica só no discurso das datas comemorativas não se depende só de fiscalização e de medidas imediatistas para tentar conter as consequências da acidentalidade. O foco também deve estar na engenharia de tráfego, na educação para o trânsito nas escolas, na formação continuada dos professores, nas ações integradas e sistêmicas entre outros setores da sociedade e no engajamento da população. Tem mais a fiscalização, é claro, porque tem motorista que não entende que ela é necessária.

Central de Controle Operacional

Assim que for implantada, a Central de Controle Operacional (CCO) será um grande passo, um grande avanço para a gestão do trânsito na cidade. Disso não resta dúvida, mas se não houver programas paralelos com foco na Educação para o Trânsito e em ações que mobilizem a população, inclusive não escolar, em torno de uma política pública séria, não vai ser só câmeras que vão resolver. A Educação para o Trânsito precisa ser abraçada como um compromisso de governo, com envolvimento de todas as secretarias, de forma transversal não só nos currículos.

Trânsito é comportamento

Se a vida em sociedade, seja nos ambientes virtuais ou presenciais, está cada vez mais difícil por conta do comportamento e dos arroubos de agressividade de muitos, imagina como isso vai parar no trânsito, que é a rede social mais antiga que existe! Trânsito é comportamento e a violência. Os abusos, a falta de educação, a falta de tolerância e o desrespeito que levam às infrações, “fechadas”, discussões, autuações e acidentes são o reflexo de como as pessoas pensam e agem em via pública.

É lógico que a atuação dos agentes de trânsito é essencial, pois imaginem uma cidade sem agentes e sem fiscalização (o sonho de muitos) como tudo estaria bem pior e fora de controle! Mas, não é só a necessária fiscalização de trânsito que vai evitar que os motoristas continuem infringindo: com agente ou sem agente, com autuações ou sem autuações, cada vez mais os motoristas vêm dando sinais de que a parte mais dolorida do corpo não é o bolso. Vejam o valor da multa por alcoolemia, que é de quase R$ 3 mil e todo dia tem motorista dirigindo sob o efeito de álcool e drogas. Estão preocupados com fiscalização ou com multa? 

O que quero dizer com isso é que não adianta apostar todas as fichas nos agentes de trânsito porque eles são apenas parte do processo, da estrutura, e é injusto que se jogue sobre os ombros deles a responsabilidade de diminuir uma escalada de 94% das quantidades de acidentes, de mortos e feridosm que tende a aumentar por questões comportamentais e por falta de políticas públicas para a segurança no trânsito na cidade. Ainda mais quando o efetivo da guarda está abaixo do mínimo, desprestigiado e a corporação não tem o respeito dos próprios gestores, de grande parte dos motoristas e até de não habilitados.

Diz a lei que os agentes de trânsito quando flagram infrações têm a obrigação legal de autuar o infrator. Então se os agentes vão fiscalizar é a lei que os obriga a autuar como atribuição do cargo ao qual foram investidos. E isso é tão natural e próprio da fiscalização que deveria dispensar justificativas ou alertas do tipo “o objetivo não é multar”, até porque nem agentes e nem população são bobos. Ou a ideia dos gestores é colocar os agentes na rua só para assustar os motoristas?  

Quem sabe o dia em que houver o compromisso tácito com a segurança no trânsito ao ponto de Blumenau ter políticas públicas sérias e executáveis para isso e os gestores entenderem que assim como a população que é protagonista dos acidentes também pode ser a protagonista de atitudes preventivas, desde que haja os estímulos e oferta de aprendizagens adequados, quem sabe alguma coisa mude.

Sabemos que não existe motorista perfeito, mas começar a pensar desde já o que vamos fazer da próxima vez que formos dirigir para evitar se envolver em acidentes já vai ajudar e muito! 

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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